Seu Armando da vida real

Sexta-feira, volta do trabalho. Tomo o trem perto da escola. Nem cheio, nem vazio, fico em pé com as minhas duas mochilas.

A viagem começa como todos os dias. Pra lá e pra cá, marreteiros vendendo água, chocolate, controle pra celular, fone e muito mais, que o shopping trem não é fraco não. A cada abrir de portas, o olhar preocupado, procurando pelos guardinhas que, se pegam, tiram a mercadoria, batem e quem sabe mais o quê.

  • Quero perder a vida não – diz um. Você viu o que fizeram com aquele menino lá? Quebrou o pescoço, já era, ficaram dois filhos pra esposa dele cuidar.

Para os marreteiros, a reforma da previdência não significa nada. Nem a CLT. A vida é sobreviver nas brechas, nas possibilidades, nos improvisos do Estado e do capital. A porta fechou, shopping trem começou; a porta abriu, shopping trem sumiu.

Baixo os olhos e me perco no celular. Faltando duas ou três estações, meu cérebro percebe antes de mim uma conversa num tom mais alto. Entendo que é uma reclamação. Viro pra ver de onde vem. Na porta atrás de mim, um pouco pra esquerda, um jovem, negro, fala no celular.

  • Eu quero o que é meu, cê tá entendendo? Sabe quanto tempo é da minha casa em Suzano? Uma hora e meia andando. Você quer que eu vá andando, pra trabalhar 10h no dia? E sem a grana da condução?

Num primeiro momento, acho que a conversa é com alguém próximo. Esposa, pai, irmão. Mas as coisas mudam de figura logo.

  • Você me disse pra pedir com antecedência de dois dias. Eu pedi dia 29, seu Wellington, era inclusive meu aniversário, todo mundo me deu parabéns menos o senhor. E nada até agora. Você quer que eu desenhe? Eu quero só o que é meu. Cento e vinte por dia pra tirar transporte e almoço não dá não, seu Wellington. O combinado é o que é certo. Eu só tô pedindo o meu. Cê tá entendendo?

Não sei qual o trabalho daquele jovem, mas, aos poucos, na minha cabeça, vai se desenhando a figura do seu Wellington. Aquela do patrão que quer sempre negociar, desde que quem perca a negociação seja o trabalhador. O seu Armando, sabe? Aquele do áudio famoso de Belford Roxo, mas da vida real. Como tantos patrões por aí.

O jovem continua sua cobrança.

  • É isso aí mesmo, seu Wellington. Se eu fosse branco eu ia mesmo é roubar, mas eu sou preto, não quero morrer não. Mas ó, tô avisando, se não tem a grana é só falar que eu nem vou amanhã, que por isso aí não vale a pena não. Melhor roubar mesmo. Tô bêbado mesmo, seu Wellington, e vou é beber mais agora. E quer saber? Falou!

Desligou o telefone. Mas continuou a falar.

  • Vai se foder, mano. Era melhor roubar mesmo. Se eu não fosse preto eu metia o louco. Vai tomar no cu.

Enfurecido, aquele jovem caminhou em direcão à porta do outro lado, fechou o punho e, com força, deu um murro no vidro. Daqueles de fazer estrondo, sabe? Uma mulher que estava próxima saiu de perto. Olhei de canto. Ele continuou.

  • Que que tão olhando, seus branquelo? Vem aqui pra ver se não arrebento vocês.

Antes que eu achasse que era comigo, quatro guardinhas cercaram o rapaz. Nenhum deles falou nada. Nenhum deles era branquelo. Todos eles tinham a pele mais clara do que a do jovem.

Um deles o encarou. O jovem disse:

  • Cê tem problema mental? Por quê tá me olhando? Quer falar algo fala direto, mano!

O guardinha levantou a voz:

  • Você tá causando distúrbio, rapaz!
  • Distúrbio? Que distúrbio? Tô na minha aqui!

Outro guardinha gritou lá de trás:

  • É patrimônio! PA-TRI-MÔ-NIO! Você tá destruindo patrimônio!
  • Destruindo o quê? Quê que tá quebrado aqui?
  • O vidro, você bateu no vidro!
  • E tá quebrado por acaso?

Para os guardinhas, o que importa é o patrimônio. São pagos pra proteger o patrimônio. Da CPTM, porque o dos marreteiros, foda-se. A cena é essa: dois trabalhadores, precarizados, brutalizados, um sendo pago para controlar e restringir o outro no seu momento de fúria pela condição de explorado.

A porta abriu, era a minha estação. O bate-boca continuava. Titubiei sobre descer ou acompanhar, ver onde aquilo ia dar. Acabei descendo. Da plataforma, vi o jovem se movimentando prum lado e pro outro, no que parecia ser uma simulação de beatbox, talvez mandando um rap, sei lá, enquanto um dos guardinhas levantava ainda mais a voz na tentativa de impor sua autoridade.

O trem sumiu no horizonte.

Enquanto caminhava pra casa, voltando do trabalho, carregando duas mochilas pesadas, não conseguia tirar o que acabei de ver da cabeça. O sentimento era péssimo. No auge do meu otimismo, cogitei a possibilidade daquilo tudo ser uma intervenção artística, mas isso não passava de um artifício pra tentar não imaginar o final daquele bate-boca, porque eu sabia que tudo que eu pudesse imaginar ia ser horrível. E pensei: marreteiros, guardinhas, jovens trabalhadores precarizados, eu, todos somos carne entrando e saindo da máquina de moer gente chamada trabalho assalariado.

Enquanto isso, o seu Armando, ou seu Wellington, comemora em algum canto do país a cada lei que permite aumentar ainda mais a velocidade do triturador.

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