Caneta azul

Há 11 anos atrás, comecei minha experiência como professor no Cursinho da Psico, dentro da USP. Um projeto de extensão iniciado por estudantes do curso de Psicologia em 1998 e que se tornou uma autogestão pouco antes da minha entrada. Na época, eu mal conseguia olhar para os estudantes enquanto falava. Ainda era eu um estudante, inseguro, cheio de vontade mas com bem pouca ideia do que fazer. Aos poucos, nesses anos todos, a liberdade e o companheirismo que encontrei no cursinho mudou para sempre a minha vida. Lá me tornei um educador; mais que isso, lá aprendi de fato o que era educação popular.

De lá pra cá, todos os anos, muitas mudanças aconteceram. Típico de uma autogestão. Gente saiu, gente entrou, ferramentas para lidar com os problemas foram criadas e recriadas. A horizontalidade, no caso do Cursinho da Psico, surgiu como uma necessidade, já que era impossível um grupo pequeno de 5 pessoas tocar um projeto com tantas tarefas e conflitos, ainda mais voluntariamente. Uma diretoria não fazia sentido. Uma hierarquia não serviria pra nada. A solução, então, foi dividir o poder e, consequentemente, os problemas – e suas resoluções.

Apesar das mudanças constantes, uma coisa permaneceu sempre igual: a evasão de estudantes. Todo ano, ao fim do primeiro semestre, as turmas estavam quase ou pela metade. Foram muitas as conversas e hipóteses sobre os motivos, e em quase todas elas um aspecto aparecia como crucial: a dificuldade de chegar e sair da USP. O trem fica longe, as ruas são escuras, e o preço da passagem de ônibus do metrô até o prédio da psicologia sempre foi uma barreira para uma maioria de estudantes de baixa renda, grande parte vindo de ou voltando para longe.

Esse não é um problema só do Cursinho da Psico. É maior que isso, e diz respeito ao direito à cidade. Todos os cursinhos populares passam por isso; toda a população de baixa renda passa por isso. Depois do levante social de 2013, a discussão sobre transporte coletivo e mobilidade deixou a questão da tarifa mais visível. E, com a conquista do passe livre escolar, decorrência direta do levante, cresceu entre os cursinhos populares a expectativa de que um dia esse direito fosse estendido às nossas e nossos estudantes.

Em 2015, ainda no espírito de 2013, surgiu a Frente de Cursinhos Populares. Uma de suas primeiras lutas foi, a partir de 2016, um projeto de lei que estabelecia o passe livre para estudantes de cursinhos populares. De forma até que surpreendente, o PL foi aprovado em primeira instância na Câmara dos Vereadores já em 2017. E parou por aí.

Neste ano de 2019, me envolvi mais diretamente com a Frente. Justamente por conta da possibilidade de votação do projeto em segunda instância. Foram diversos atos: aulas públicas, pressão na câmara, ações virtuais, vídeos de campanha. E muitas reuniões. Em todos esses momentos, a experiência da autogestão e de resolver coletivamente os problemas que o Cursinho da Psico me proporcionou fez muita diferença para pensar como atuar, o que esperar e, principalmente, como lidar com o teatro da política institucional.

O projeto passou em segunda instância, e seguiu para sanção ou veto do prefeito. Prefeito que caiu doente, mas seguiu despachando do hospital. Prefeito que tinha o poder de, com uma canetada, ainda que simbólica em tempos de diário oficial publicado eletronicamente, efetivar ou cancelar os sonhos de milhares de estudantes, professoras, professores e voluntários dos muitos cursinhos populares de São Paulo.

Por mais de duas semanas, vivemos uma expectativa. No fundo – eu sabia de outros embates – a batalha dentro do sistema é sempre um pouco perdida. As coisas são decididas muito longe do que nós imaginamos, bem distante do que podemos realmente alcançar. É uma luta por direitos, sim, mas direito dentro da instituição é sempre um pedaço pequeno do que realmente nos cabe, uma ponta do sonho de outro mundo possivel. Fora da revolta, dentro da política institucional, sempre estaremos à mercê do jogo de favores e de compadres de quem governa nossas vidas, de quem decide se nossos sonhos valem o preço da passagem.

Na última quarta-feira, enquanto caminhava pela plataforma do trem a caminho da escola, passagem paga, eu recebi a notícia do veto. E pensei em todas as pessoas que encontrei nesses 11 anos de cursinho. Todas que alcançaram o sonho da universidade, e principalmente todas que desapareceram das aulas sem que eu tivesse tido tempo de saber seu nome, sua história e seus desejos. Entrei no trem com um nó na garganta. Por que eu sabia. No fundo, eu sabia. Mas mesmo sabendo, a imagem da caneta tocando o papel com sua tinta azul, a mesma cor do sangue dos nobres que esquecemos de guilhotinar em 1889, aquela do meme musical cantado por todos os lados do país no último mês, bateu fundo e doído no meu coração.

E me confirmou ainda mais uma certeza: fora da revolta, dentro da democracia, que tem muito de cracia e quase nada de demo, só dá pra sonhar em segurar por alguns segundos a bota que nos pisa dia após dia a caminho do trabalho. Tirar ela de cima da gente, de verdade, só quando reativarmos a guilhotina.

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