Diz a ela que me viu chorar

Metade da minha vida atrás, quando eu tinha 17 ou 18 anos, estive muito perto de onde vivo hoje. Explico a confusão entre espaço e tempo: na época, eu andava, junto a um grande número de jovens punks ou quase, pelas imediações do bairro onde hoje vivo. Fazia algo que naquele momento não me parecia tão significativo: às sextas, nosso rolezinho era se encontrar no shopping, comprar pão, frios, danone e suco, montar lanches e distribuir para pessoas em situação de rua da região. Do alto da nossa auto-proclamada importância, nos demos um nome nada pomposo: alimends, uma diminuição da frase bem pouco sensível “alimentar os mendigos”.

Além da dureza, o nome tinha pouco a ver com o que de fato vivíamos. A comida era apenas uma desculpa, uma forma de quebrar a barreira social e de classe entre os dois grupos. As trocas, conversas e tentativas de solidariedade eram o que de fato faziam com que continuássemos nossa anti-balada de sexta. Um homem, cadeirante, barraco auto-construído embaixo de um viaduto, nos prometia walk-mens de natal, que o tio dele era do exército e tinha grana. Um casal com um bebê pequeno, em outro barraco, nos contava das dificuldades financeiras e de saúde para cuidar do recém-nascido. Um andarilho que aparecia vez ou outra compôs uma letra de música pra uma das nossas bandas. E entre tantas pessoas, muitos, muitos cachorros, que de repente desapareciam, engolidos pelo trânsito raivoso da avenida.

O “Mends”, como chamávamos carinhosamente, seguiu ativo por mais de dois anos. E dele saímos todos e todas, tenho certeza, com outra perspectiva sobre a vida, a cadeia, a migração, a cidade, a sociedade, a empatia e, principalmente, a morte. Sim, a morte. Porque não eram só os cachorros que sumiam: também as pessoas, ora sequestradas pelo Estado, ora cansadas daquele lugar, ora assassinadas pelo frio – e também por dinheiro.

Nessa época, minha irmã, três anos mais nova, ainda não tinha tanta dimensão da vida para além da escola, do bairro e de casa. Não lembro se ela quem quis vir comigo em uma dessas sextas ou se eu que chamei. Lembro só que ela veio em um dia de morte, e nesse dia, tentando não assustá-la, eu atravessei a rua e chorei sem pudores longe de todo mundo. O tempo tinha criado vínculos, laços e expectativas, e o corpo, a mente e o coração ainda jovens não estavam muito prontos pra entender que a perda é talvez a única constância da vida.

Minha irmã nunca mais voltou.

A morte nunca mais se foi.

Esta semana, depois de assistir a um filme duro e sensível como aquelas lágrimas de adolescente, voltei pra casa observando cada centímetro de calçada daqueles quarteirões que me ensinaram a chorar.

As pessoas ainda estão lá. Os cachorros seguem arriscando a vida na avenida.

Mas não há mais jovens, ou walk-mens, ou letras de banda.

Só jatos de água fria no inverno e caminhões recolhendo as poucas posses de quem vive na rua.

Em São Paulo, todas as lágrimas são cobertas pelo concreto. Ainda que, de vez em quando, alguém arrisque mandar um grafite com poesia barata por cima do cinza.

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