Eduardo e Heverton

Quase de férias, a quinta-feira torna-se possibilidade pra uma cerveja. Sentamos no bar perto de casa e desabafamos sobre a vida, o trabalho e as novas velhas notícias do pessoal lá de cima. Na direção oposta à minha cadeira, vejo uma pessoa vindo, descalça, enrolada em um daqueles cobertores típicos para pessoas em situação de rua. Se confeccionamos cobertores específicos para esse tipo de situação, deveríamos mesmo chamá-la de situação? Talvez o correto fosse chamar de projeto.

O homem – era um jovem – se aproxima.

  • Licença, desculpa atrapalhar.
  • Tudo bem.
  • Meu nome é Eduardo, como é o seu? E o da moça?

Dizemos nossos nomes. Eduardo segue.

  • Desculpa incomodar, estou na rua faz tempo e não consigo vaga nos abrigos. Estou com fome, vocês não teriam algo?

Não era a primeira vez no dia, nem seria a última. Mexemos nos bolsos e continuamos a conversa com ele. Eduardo é da zona leste, está por aqui de vez em quando. Perambula por onde possa encontrar sobrevivência. Tem problemas mentais, diz. Não há vagas em abrigos, não me deixam entrar por conta disso, e por isso dependo de conseguir algo na rua.

  • Desculpem pelo cheiro.
  • Não estou sentindo cheiro nenhum.
  • Eu estou.

Ele olha pro próprio corpo como quem tem vergonha. Tento oferecer ajuda, contato de colegas assistentes sociais, mas não há contato possível com ele que não seja assim, efêmero. Depois de alguns minutos de conversa, Eduardo agradece e segue seu caminho.

Nós voltamos pra cerveja.

Dois dias depois, saindo do metrô de volta pra casa, somos parados por outro homem jovem. Ele se apresenta.

  • Oi, licença, meu nome é Heverton, não tenham medo por favor. Estou na rua faz uma semana, tive que sair da minha cidade por conta da minha orientação sexual. Estou ficando em um abrigo aqui perto, consegui uma entrevista de emprego em um salão – eu sou designer de sobrancelhas – mas não tenho nada, precisava de uma gilete pra fazer a barba e um desodorante.
  • Não temos isso com a gente. A farmácia ali já fechou, sabe onde tem outra?
  • Tem uma duas quadras pra lá, 24h.

Caminhamos junto com Heverton até a farmácia, no sentido oposto de casa. Conversamos, sobre a rua, o abrigo, a escuridão e o perigo da noite.

  • Uma moça veio até aqui comigo, mas ela viu esse pessoal ali e ficou com medo, voltou.

Eram pessoas em situação de rua, com seus cobertores específicos, embaixo do viaduto. Seguimos caminho. Heverton diz:

  • Vocês estão sendo muito humildes.

Não houve resposta. Não há.

Saindo da farmácia, Heverton segue um caminho diferente do nosso. Vai para o abrigo.

Nós vamos para casa.

Alguns dias mais tarde, caminho pelo bairro com a cachorra. Dessa vez sem encontros. Em uma quase-esquina, a uma quadra de onde encontramos Eduardo e outra mais de distância de Heverton, vejo uma placa: “aluga-se quarto grande para casal, sem filhos, moça e rapaz”.

Enquanto a cachorra me puxa para frente, olho para trás, tentando ver algo além da placa. Penso no tanto de implícito em cada detalhe, cada sinal, cada signo de uma cidade que odeia tudo que não obedeça à norma; penso em Eduardo, em Heverton e em todas as barreiras que os impedem de alugar aquele quarto. Estar naquele abrigo. Beber aquela cerveja. Comer aquele lanche. Comprar naquela farmácia. Tomar aquele banho. Andar tranquilo naquela rua.

Chegando em casa, giro a chave pra abrir a porta e olho pra rua que se fecha atrás de mim.

Tomara que Heverton tenha conseguido o emprego.

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