O que aprendi em Belém

No século XXI, entrar num avião, dormir algumas horas e descer em outra cidade traz paisagens novas, costumes diferentes, mas os mesmos referenciais urbanos: a farmácia, a igreja, o restaurante, o shopping center. A globalização trouxe consigo uma homogeneização dos lugares, pelo mundo todo.

Quando embarquei para Belém, então, capital de estado, cidade grande, esperava um pouco disso: outros rostos, nomes e tradições, mas uma cidade, afinal. Como todas. Talvez de ônibus a impressão fosse outra, mas voar faz com que o começo e o fim da viagem sejam na verdade um mesmo lugar-contínuo.

Era minha primeira vez no Norte do país. E foi só sair do aeroporto pra entender que conceitos, categorias e padronizações existem mesmo para serem quebrados. Porque Belém é cidade, sim, mas é também um rio e uma ilha. Ao mesmo tempo. Um grande rio cheio de tudo, principalmente de história, e de gente vinda de todo lugar. E uma ilha de resistência e resiliência, indígena (em todas as suas muitas pluralidades), cabocla, ribeirinha.

Andar pelas ruas estreitas desse rio-ilha, vielas que formam um igarapé urbano, é visitar o local e o global a todo instante. Da gastronomia única, mas também fast-food, às paisagens incríveis, mas também estampa de camiseta. Eu viveria para sempre tranquilamente em um restaurante de Belém. Mas o caso é que ninguém pode viver em um restaurante.

Porque restaurantes, e cidades, e rios e ilhas, não são só as paisagens, os casarões antigos, as árvores e a água. Tudo isso faz um cartão postal, e olhe lá. A história e a geografia de Belém, com todos os seus temperos, não estão nas onze janelas da casa, na paz do teatro ou no peso do mercado. Belém é obra de seus habitantes, cada qual como um barqueiro, navegando porque é preciso.

Com eles, visitei a história indígena dentro de uma igreja, comi salgados deliciosos em uma portinha, vi guitarradas com doce de cupuaçu. Sempre acompanhado, e sempre encontrando o que há de mais fundamental para existir coletivamente: portas abertas. Fui recebido e recebi carnaval, carinho, cuidado e calor, muito calor, de todos os tipos e cores. Conheci orlas históricas, lanchonetes de bairro, bares vários e vida, muita vida, desde a criança mais jovem até a senhora mais antiga. De porta em porta. De pessoa em pessoa.

“Remo ou Paysandu?”, me perguntaram mais de uma vez por aqui.

Nenhum dos dois. Eu fico com Bill; Iara, Roberta, Nairã e Maria Flor; Zé Maria, Maíra, Isa e Irlana; Natália e Bola. Treinadora: Dona Irene.

A minha seleção de Belém dá de goleada em qualquer Liverpool.

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