45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 0

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado parte por parte neste blog.

Dia 0: Sobrevoando o Atlântico

Viajar sozinho[1] é outra pegada. Você fica pensando e pensando, nas pessoas que poderiam estar ali, no que quer fazer, no que esqueceu de fazer ou trazer. Foi assim que eu cheguei ao aeroporto de Guarulhos, com a minha mala nova usada de 90L bem cheia. Aí já veio o primeiro problema: o limite de peso pra bagagem de mão era 12kg, a mala pesava 17kg. Eu não tinha outra mochila pra separar o importante (máquina, laptop e dinheiro) e despachar o resto. Dei uma choradinha e o atendente da AirFrance me arranjou uma sacola de plástico. Atabalhoadamente, ao invés de tirar só o estritamente necessário, fiquei com o lance dos 12kg na cabeça e fui tirando coisas até a mala despachada chegar nos 11,5kg. Só depois percebi a burrice. Carregar 6kg na sacola de plástico desde o começo já provava ser uma péssima experiência. Imaginei que carregar aquilo no avião seria igualmente ruim ou pior. O que fazer?

Fui atrás de uma mochila tosca pra comprar no aeroporto, que não custasse muito. Não existe. Mochila tosca existe, tipo a do Cebolinha de volta às aulas, mas custa CENTO E OITENTA E CINCO REAIS. Uma da Taugus, menos pior inclusive, custava R$ 129,00. Pensei que no free shop talvez houvesse alguma melhor na relação custo benefício e resolvi embarcar.

Polícia federal pra traz, cheguei no Duty Free. Únicas malas a vista, preço: 256 DÓLARES. Fodeu. Perguntei e o atendente disse que tinha umas outras, da Samsonite. Eram aquelas maletas de mão. Qualidade razoável. Preço: 41 dólares. Estava quase decidido quando achei num outro canto da loja uma mochila de costas mesmo, qualidade ÓTIMA, por 65 dólares. Joguei no cartão e foda-se. Prometi ser menos burro, não comprar mais nada no cartão e me consolei com o fato da mochila ser realmente muito boa.

Embarquei e sentei na cadeira errada. Chegou um casal de franceses, eu ainda semi argumentei que estava certo mas olhei o canhotinho da passagem e estava errado. Ainda bem, porque eu tinha pedido corredor e já estava amaldiçoando o atendente da AirFrance por ter me colocado no meio. Fui pro meu novo lugar e do meu lado, um cara. Do lado dele, na janela, uma mina. Não se conheciam. Eu apareci com meus melhores amigos, os fones de ouvido. Eles já conversavam entre eles. Um xaveco pra lá de fuleiro. Ainda bem que tinha naquelas TVzinhas que ficam no encosto da cadeira da frente uma miríade de opções pra se distrair – fuleiras, mas menos que o xaveco.

Assisti várias séries de comédia americana. Depois fui pros filmes. Viagem ao centro da Terra 2: CACETE, QUE FILME PÉSSIMO. Deprimente mesmo. Fúria de titãs: mitologia é legal, efeitos especiais até são divertidos, mas primeiro que em inglês eu não conseguia entender os nomes de Hades, Hares, Agenor e outros deuses e semideuses gregos, aí tive que colocar em português porque não tinha legenda; segundo que porra, pegar a Grécia antiga e transformar num filme de porradaria com morais, costumes e piadinhas americanóides é foda. Parei de ver no meio e dormi um pouco, bem quando Chronos, um monstro gigante de lava e rocha, ia se libertar do Inferno.

Quando acordei faltavam só umas 2 horas de vôo até Paris, onde eu faria escala. Resolvi assistir um filme libanês, Sorry mom. Uma mulher que seduz homens com filhos pequenos, mata os homens e deixa os filhos trancados num quarto. No final você descobre que era porque ela teve o marido morto e o filho sequestrado anos atrás e agora estava “se vingando”. Acaba morta e só de sacanagem logo depois de morta toca o telefone dela, cai na secretária e é a polícia dizendo que achou o filho dela. Mas que merda, hein, Líbano?

Cheguei em Paris, aeroporto Charles de Gaulle, e tinha mais ou menos 50 minutos pra trocar de avião. O aeroporto é GIGANTESCO, tem trem pra ligar um terminal ao outro. Fila pra tudo. Na fila da imigração, me preparei com os 543645 papéis e comprovantes de que eu não tava afim de ser ilegal. O cara me chamou, pediu o passaporte, abriu, carimbou e me mandou embora. NEM OLHOU NA MINHA CARA. Se eu tivesse ido só com a roupa do corpo e o passaporte tinha entrado de boa. Acho que o fato de já ter outros carimbos no passaporte ajudou, embora ele nem tenha notado eles direito, só os da página que ele carimbou.

Continuei andando em direção ao portão de embarque F30. E dá-lhe escada, trem, elevador. Faltando uns 20 minutos pra hora do vôo cheguei na fila da esteira de raio-X. Comecei a me desesperar. Outros passageiros com vôos no mesmo horário também. Fizemos tudo o mais rápido possível. Passei da esteira faltando 7 minutos. Praticamente corri, torcendo pra não ter mais um corredor de 2km até o portão. Cheguei e tinha dois passageiros esperando algo pra embarcar, o vôo nem tava mais anuciado. Subiu uma mulher da AirFrance do corredor de embarque dizendo que já era, “c’est fini”. Aí o que os outros dois passageiros estavam esperando se justificou: uma senhora bem idosa em cadeira de rodas empurrada por outra mulher. Provavelmente aquilo corrompeu o coração da atendente e ela liberou a entrada dos cinco. Nem precisei argumentar. Mas vou te dizer, 2 minutos mais e tinha perdido o vôo sem ter culpa NENHUMA. Nem no banheiro eu fui.

O vôo Paris-Milan foi menos pior, porque mais curto, sem xavecos fuleiros. Tinha uns 20 estudantes meninos e meninas no vôo, duas delas na poltrona do lado secando ferozmente minhas tatuagens. A poltrona era maior, mesmo o avião sendo menor. Desembarquei em Milão, QUENTE PRA CACETE, e fui atrás do ônibus que ia até o metrô. Tinha um cara vendendo já na sala de recolher bagagens, 5 euros, saindo em 15 minutos. Pensando que ia ser foda achar o ônibus regular que o pessoal do squat[2] tinha indicado, comprei. Saí do aeroporto e na frente do meu ônibus estava o ônibus regular. Preço: 1,50. Burro. De novo.

Sem ter o que fazer, entrei no meu ônibus e esperei ele sair. Bem vazio, ar condicionado. Chego na Piazza Central de Milão com minha mala de 90L e a mochila nova e fui procurar o metrô da linha amarela. Demorei um pouco, as costas já doíam, mas achei. No metrô, percebi que há muito mais negros vivendo na Itália do que eu imaginava. A seleção de futebol ter um centroavante negro deixou de ser tão estranho[3]. O atendimento no guichê também justificou a fala do Paulo Jr[4] de que Milão parecia São Paulo: gente grossa, folgada, hehe. Comprei o bilhete de 1,50 euro e fui me aventurar na linha amarela, que parece com a nossa, até a estação Affori FN, onde fica o squat onde eu ficaria hospedado.


[1] O Allan, meu companheiro de viagem, foi antes de mim. Nos encontramos mais pra frente na viagem.

[2] Antes de viajar, procurei na internet lugares anarquistas pra ficar na Itália e um pessoal de um squat em Milão se ofereceu pra me receber.

[3] Na verdade, eu que era ignorante quanto à imigração africana na Itália, à época.

[4] Amigo que já tinha ido à Itália.

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