45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 16

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 16 – Olympiastadion, futebol com refugiados e a melhor cerveja do rolê

A casa da Má, com as meninas num quarto, a gente no outro e os pais fora, fica parecendo um acampamento de férias de filme americano. Agora menos com a Eve aqui, mas ainda assim, ter que acordar cedo ou acordar de noite e ir pro refeitório comer Nutella “escondido” nos deixa muito numa pegada 15 anos. Tanto que nessa quarta, mais uma vez, acordamos em cima da hora do rolê, que foi escolhido pela Gabi e seria a Zitadelle, na zona ocidental, onde rola um castelo construído em 1200 e bolinha e uma ponte onde todo ano tem uma festa em que os dois bairros que ficam nas extremidades “duelam” pelo seu controle, remontando aos tempos medievais. Depois a família da Má iria pra exposição do Salvador Dali e eu e o Allan voltaríamos pra jogar bola com o Valdívia. 

Antes de sair, entretanto, depois de acordar com o Allan ouvindo porcarias[1] tipo rap francês (francês e rap junto não pode, gente, é tipo alemão e samba) e funk ruim (já ouviram “Que é isso, gordinha”? Pois é, eu já), deu tempo de ler um email do Jack Daniells[2] do Easton Cowboys sobre problemas na Copa do Mundo, faltava um time e ele propunha que Auto e Vova se separassem e eles completassem os dois, já que a gente tinha uns 20 jogadores juntos quase. Li por cima e respondi rapidamente que OK, mas que estávamos sem uniforme, ao que (li isso depois) ele lembrou que tinha os uniformes do futsal deles que eram iguais os do Auto[3]. Paulius também se ofereceu pra comprar um e a gente pagar depois, eu disse pra ele fazer isso, é uma ajuda pra nossa falta de uniformes no Brasil.

Na noite anterior, eu tinha procurado uns contatos do St. Pauli pra ver se eles poderiam nos dar uma carona de volta depois do jogo pra Hamburgo, onde ficaríamos dois dias antes de ir pra Regensburg. Quando acordei tinha mensagem SMS do Stefan, um cara da Fanladen St. Pauli, dizendo que ele tava indo num dos busões e que a gente podia voltar nesse busão com eles. Sensacional! Pegar carona no busão da “barra” do St. Pauli de volta de um jogo fora, quase tão bom quanto ir num jogo em casa. Quer mais? Depois de falharmos nas caronas pra Aue pro dia do jogo, acabamos combinando também a possibilidade deles nos levarem na ida, iriam nos encontrar em Magdeburg, cidade próxima a Berlim e meio do caminho pra Aue, num posto de gasolina. Foda, isso aumentou nossa ansiedade em relação ao jogo. Temos que confirmar até amanhã.

No caminho pra encontrar os pais da Má na porta do metrô (dessa vez comi antes de sair, mãe), achamos uma casinha de brinquedo, grande, feita de madeira, na rua. Ótimo estado, com um papelzinho de que era presente e quem quisesse podia levar. Tinha dois andares, duas bonecas, TVzinha, abajur, até um micro-livrinho com capa do Buda. Decidimos levar pra Eve, Julian e Mea, só que tava em cima pra voltar pra casa, então levamos pro hotel dos pais da Má. Allan, O Pedagogo, se encarregou de carregar o presente não tão pesado mas incômodo de levar, que quase se desfez várias vezes no caminho. Na frente do hotel ainda tomei um cafezinho.

Pegamos o metrô e depois de descer na mesma estação que descemos pra ver o muro – esqueci o nome – a Gabi percebeu que não era ali, tinha errado o rolê. O lugar certo era a Zitadelle, bem mais longe e arriscado na nossa missão de não pagar nada. A Má ficou um pouco brava, coisas de família, e pegamos de novo o metrô pra Zitadelle. Ele passava pelo Olympiastadion e eu e Allan queríamos muito ir lá, ficamos pensando em passar lá antes ou depois. Chegando perto, pelo horário, resolvemos descer e dissemos que depois encontraríamos eles, se desse tempo. 

A estação é do lado do estádio, que não é só estádio, é complexo esportivo construído pras Olimpíadas de 1936. Arquitetura tipicamente nazista, enorme, imponente, inspirada nas colunas gregas e romanas. Em volta, um parque pago. Pra entrar custava 7 euros (o mesmo que o ingresso pro jogo do St. Pauli). Allan, o durango, resolveu não entrar, eu sim. Falei que iria dar uma volta rápida, mas nem deu: o estádio é muito foda. Circular como o Maracanã, ao mesmo tempo em que conserva uma estrutura típica de estádio e não de arena, tem cadeirinhas, a maior parte retráteis, ou seja, quem quiser pode ficar em pé. Bem bonito, bem cuidado, campo perfeito, em volta dele estão esculturas feitas pelos nazis, além do sino de Berlim, que ficava no estádio, e segundo os berlinenses a única escultura nazi com suástica que sobrou na cidade. Tirei mil fotos e fiz um vídeo. Dei a volta completa no estádio, que estava sem balizas, e tirei foto também da pira olímpica, do espaço pra atletismo, da piscina (onde uma pá de gente nadava e eu passei vontade naquele calor desgraçado e atrás da qual acontecia, ao longe, uma partida de futebol com times uniformizados e tudo, dentro do parque), das placas com rostos dos benfeitores do estádio (só a de Hitler foi retirada). Tudo, aliás, tem placa com explicação em inglês e alemão.

Saí e percebi que ninguém tinha tirado o canhoto do meu ingresso durante todo o rolê. Além disso, na saída não tinha ninguém olhando. Encorajei o Allan (que já tava pensando nisso) a entrar pela saída e levar meu ingresso por via das dúvidas. Ele foi, deu uma volta, achou animal também e fomos pro metrô de volta pra casa conversando sobre o estádio, nazis, arenas, futebol. Não dava tempo de encontrar a família da Má, então fomos pra casa. Chegamos lá a tempo de comer, dar uma olhada em caronas pra Magdeburg (sem muito sucesso), encontrar o Valdívia (que aqui na Alemanha resolveu brincar de ser europeu e chegou 16h em ponto como combinado) e ir pro parque aqui ao lado jogar futebol, que até então não tínhamos entendido com quem nem como nem porquê (o Valdívia tentou explicar mas não rolou).

O campo no parque era excelente, grama sintética com areia. Fomos os primeiros a chegar, mas logo depois chegaram três iranianos. Sem bolas ainda, nos trocamos ali, tiramos foto com um grafite enorme escrito “antifa” e ficamos pensando que um campo daqueles era público e aberto no meio de um parque enquanto no Brasil a gente paga pra jogar no terrão, PUTA MUNDO INJUSTO MÊO. Chegaram as pessoas que dariam o treino (a única parte do que o Valdívia falou que eu entendi era que tinha treino antes do jogo) e aos poucos percebemos que quase todos ali eram não-alemães. Pegamos umas bolas e ficamos treinando falta e cruzamento. O Allan me pediu dicas e eu dei algumas, em alguns minutos ele tava cruzando bem melhor do que antes, com força e alguma direção. Bateu umas duas faltas no travessão. No centro do campo, Anni e Caro, um cara e uma mina, que coordenavam o treino, chamaram a todos, caminhamos até uma das áreas e eles fizeram uma roda e pediram pra todos se apresentarem, em alemão – nós em inglês. Ser brasileiro, claro, causou certo impacto, e um tiozinho iraquiano de seus 50 anos careca e baixinho falou que ele era o Roberto Carlos, hehehe. Tinha também um moleque de 12 anos, Samir, iraniano. Alguns outros eram iranianos e tinha um afegão, um filipino e um turco.

O começo do treino consistia em chutar a bola da marca do pênalti em direção ao círculo central. Ela tinha que parar dentro dele. Eu fui o primeiro a conseguir, na primeira tentativa, antes do Valdívia (hahaha) que só conseguiu na segunda. Conforme as pessoas iam conseguindo, se formavam rodinhas de três, onde Caro e Anni passavam exercícios de passe, primeiro domina e passa, depois sem dominar, depois bola no alto. OS DOIS CARAS QUE FAZIAM COMIGO SE MACHUCARAM. No último exercício acabei sozinho fazendo bolinha, hehehe. Foi legal, faz uma falta do cacete o ter treino, se tivesse no Auto a gente melhorava em vários fundamentos com certeza.

Depois veio treino de cruzamento, de escanteio e de falta, com uns quatro defensores mais o goleiro e oito atacantes. Um moleque que não sei a nacionalidade e era a cara do Messi só que bem mais alto foi escolhido pra cruzar. Valdívia, Allan e eu, os três, estávamos entre os atacantes. A ordem era depois da bola na área o jogo correr até ser gol ou a bola sair, mas no começo ninguém entendeu direito e se o cara cruzava e o zagueiro tirava todo mundo parava. Num cruzamento do “Messi”, corri no meio da zaga e fiz de cabeça o primeiro gol do treino (pega Sema[4]!). Num outro cabeceei entre dois (um deles o filipino, que era bom de bola mas, descobriria depois, fominha) e passou rente. Bruno Tevez[5], pode ir pra lateral que agora o 9 vou ser eu, hehehe.

Chegaram um alemão com camisa do Fluminense, o Tomas, e outra menina, a Alina. Quando o escanteio mudou de lado, falei pro Allan ir pedir bola pro batedor e cruzar ele mesmo, estilo cobrança curta. Ele fez isso e no primeiro cruzamento saiu gol, no segundo a bola foi direto, bateu numa trave e correu na linha, geral achou que foi gol e parou, mas ela bateu na outra trave e saiu, hahaha. Ficamos nisso um tempo até que Anni parou o treino, duas balizas menores foram colocadas nas laterais da metade do campo e jogamos com o campo reduzido (éramos em 14). O time do Valdívia, de branco, era bem melhor, com caras mais lúcidos, alguns bons, mas sem goleiro e com o moleque. Tocavam e tocavam e cansávamos de correr. Nosso time era uma zona, sem posições definidas, mas com vontade. Nosso goleiro, Iman (não confundir com o Wee Man[6]), não tinha um dos braços, e ainda assim era muito bom goleiro. Nos contra-ataques, o filipino criava correria, mas sempre era fominha ou fazia merda no final. Alina, no nosso time, ficava parada no mesmo lugar e quando a bola vinha não sabia direito o que fazer, o que provocou um certo paternalismo por parte do goleiro e de outros tocando a bola pra ela desnecessariamente pra ela participar, enquanto a maioria dos adversários não ia em cima (só Samir, o moleque de 12 anos, que ia; pior que ele sabia jogar, e me pegou pra cristo, me puxando, chutando, hehe, mas nem assim mandei ele se foder, viu Allan?).

Depois de uns 15 exaustivos minutos (sol pra caralho também) paramos pra água, alguns pararam de vez, Allan, com o pé doendo, quase entre eles. Voltou o “segundo tempo” e o jogo foi até virar aquela pelada que ninguém mais corre. Fiz o último gol do jogo depois de dar durante todo ele umas quinze assistências pro filipino esfomear. Allan partiu pra cima do Valdívia duas vezes e incrivelmente (ou não) passou, hehehe, tendo sido afobado depois da parte mais difícil da jogada que era driblar o adversário. Terminado o jogo falei com a Caro sobre o projeto deles, que chama Futebol Sem Fronteiras e trabalha com refugiados de guerra, gente com problemas físicos, etc. Estão ligados a um outro grupo chamado Because Football Connects, esse é só um dos projetos, e pra usar o parque (que ao final não é tão público assim) fizeram parceria com o Hansa 07, time amador da Alemanha que tem autorização pra jogar lá. Troquei contatos e falei de um possível encontro com o Auto ano que vem. Allan e eu deixamos o campo, mas como ia rolar mais um jogo depois, dessa vez de outro projeto, o Valdívia ficou, mesmo bem cansado (ele vai negar, mas tava sim). 

Voltamos pra casa pra tomar banho e ir ao bar com a Má, amigas e amigos dela e a família, e no caminho vimos uma loja que faz impressões, pra podermos ir no dia seguinte imprimir nossos ingressos. Antes do bar, tentamos caronas pra Magdeburg, entre elas uma em que ligamos pro cara, de nome Andre, e o cretino disse que se não conhecemos o lugar de onde ele sairia não tinha como ser (isso porque era carona paga, 10 euros hein?). Ainda dissemos que estaríamos com roupa identificando, com plaquinha, pedimos um ponto de referência tipo uma loja (o ponto era numa estação bem movimentada de metrô, no estacionamento), a placa do carro dele, mas o cara não quis. Puta cuzão, ainda quis dar de generoso dizendo “tenho certeza que vão encontrar algo”. Saímos para o bar meio putos e ainda sem saber como ir pra Magdeburg, mesmo tendo confirmado com o busão do St. Pauli o ponto de encontro lá.

No bar, conhecemos alguns amigos e amigas da Má, entre eles um carioca com cara de Los Hermanos, que namora com uma portuguesa, e uma gaúcha, a Camila, bem gente fina. Não sei por que nos últimos tempos meu santo tem batido bem com meninas gaúchas/do sul, mas taí, tô nessas. Ela tinha que escrever um artigo sobre um app novo de iPod que é uma bateria eletrônica, quer ir amanhã na Má pra que eu possa ajudar a testar (já que fui o único baterista que a Má conseguiu indicar naquela hora) e ela escrever com as minhas impressões. Tomei ali a melhor cerveja dessa rolê, chamada Bitburger Premium Pils, 2,80 a garrafa 400ml, gostosa pra cacete, puta merda. Ainda comemos cerejas e queijos trazidos pelo pai da Má, falamos bobagem, conversamos com uma outra amiga da Má bem gente fina que não disse o nome. Os pais dela e alguns amigos se foram, e a gente foi pra ponte ali do lado, em cima do rio onde uma pá de gente fica o dia todo molhando os pezinhos na água, e fumamos um. O carioca ficou tentando nos convencer de que Cone Crew Diretoria era algo bom dentro do contexto do rap carioca, mas nem rolou. Falou um monte com o Allan e nos convidou pra ir na casa dele ver as mudinhas dele.

Enquanto isso, a Giulia abriu uns nutellas genérico que pegou no avião e começamos a comer com os dedos, lambuzando tudo. Voltamos pra casa e foi cada um pro seu quarto, não antes do Luizinho aparecer, jogar mais um xaveco nela enquanto a Gabi tomava banho, e pelo visto tomar a bota de vez. Segundo ele, ele disse que curtiu ela e passou vontade de beijá-la, ao que ela respondeu que ela era legal com todo mundo, não esperava isso e foi pro outro quarto. O cara ficou bem frustradinho, e foi dormir. O Allan também capotou e eu fiquei vendo no YouTube o “Marcelinho lendo contos eróticos”[7], que se você não conhecer precisa conhecer. Esse é o melhor: http://www.youtube.com/watch?v=rQeKsW0-vF4. Esse também é campeão: http://www.youtube.com/watch?v=-uUcdoi7ARE

Depois fui dormir, já tarde pra cacete, pensando que eu não sabia direito o que queria fazer amanhã e que ainda não tínhamos resolvido a carona pra Magdeburg – a opção mais viável até ali estava sendo um busão de 16 euros.


[1] Allan sempre foi um ótimo curador de besteiras.

[2] Cara sensacional que conhecemos quando eles vieram jogar conosco no Brasil em 2009.

[3] Nessa viagem de 2009, resolveram fazer um uniforme igual ao do Autônomos como homenagem.

[4] Na época, o Sema (outro amigo do Auto) e eu brincávamos um com o outro sobre fazer gols de cabeça.

[5] Centroavante do Auto na época (e até hoje).

[6] Anão que participava daquele péssimo programa Jackass (https://en.wikipedia.org/wiki/Jason_Acu%C3%B1a).

[7] Fui rever hoje e achei uma merda. Oito anos mudam muita coisa.

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