45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 17

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 17 – Feriado é sempre dia de não fazer nada

Hoje é 2 de “agota”, feriado autônomo decretado devido aos acontecimentos de 2 de agosto de 2010[1], conhecidos como “A revolução de Bristol” ou “O dia de 6h”, em homenagem ao herói revolucionário Felipe Sema, autor da famosa e conhecida frase “arte é zoar”. Por conta disso, Allan e eu seguimos o script e acordamos tarde, aproveitando que o rolê da família da Má era de compras e a gente não tava afim de compras (mais ou menos, como vocês verão). Na hora do almoço, que pra gente era hora do café, fomos até o 5o andar (conhecido como Paraíso do Allan) comer uns lanches. Fui querer comer um iogurte e derrubei metade de um outro pote GIGANTESCO no chão. Acabei de limpar, peguei meu iogurtinho, abri, sentei na cadeira pra comer e a cadeira quase desmontou, me fazendo derrubar iogurte de novo, dessa vez em cima do jornal e bem menos. Coisas de feriado. Antes de subir o Allan já tinha mandado uma ótima também: alguém colocou a máquina de lavar pra funcionar e ele foi ao banheiro bem na hora em que ela deu mais uma volta no ciclo (tava naquela etapa do gira um pouco e para), saindo exatamente no final do barulho. Virou pra mim e disse:

– Você percebeu que tem um sensor no exaustor desse banheiro, que liga quando você entra e desliga quando sai?

– É, chama máquina de lavar.

Lá em cima, descobrimos uma coisa fantástica: um zine punk anarquista que tem todos os eventos já marcados do mês e os locais, além dos endereços de tudo que é local ligado punk e anarquismo em Berlim. Hoje, por exemplo, tinha um evento queer num squat, reunião antifa em outro, cinema no Köpi e outras coisas. Pegamos o zine mas voltamos pra nossa preguiça.

Sentamos na frente do computador e resolvemos procurar na internet alguma loja de segunda mão pra ir procurar camisas de futebol usadas. Achamos uma chamada Garage, onde se vende roupa por quilo. Também resolvemos comprar o busão pra Magdeburg e confirmar com o Stefan a carona com os supporters do St. Pauli pro jogo a partir dali. Vimos ainda uma porrada de episódios do Marcelinho e ouvimos funk da Carol Bandida (esse aqui: http://www.youtube.com/watch?v=0WNaXIfbMow), Grupo Marra Pura (http://www.youtube.com/watch?v=aRJuglGsqoM) e Mama, da Valesca Popozuda (https://www.youtube.com/watch?v=pbpMyunh0wY). Aí a preguiça falou mais alto e voltamos a dormir. Só lá pelas 17h resolvemos finalmente sair e ir até a loja, e se pá depois colar no evento queer.

No caminho do metrô, depois de ter saído de casa pro lado errado (feriado), voltamos e paramos pra imprimir os ingressos do jogo. Logo em seguida, ainda antes do metrô, descobrimos a Yellow Sunshine, lanchonete vegetariana. Entrei e comi um Mexico Burger, que também tem na versão vegana. Encontramos o Luizinho lá, ele ficou falando da Giulia, pedindo conselho, hahaha, eu disse pra ele relaxar se não ia acabar incomodando a mina. O Allan e eu comemos batata-frita que uma mina largou no prato, e saímos pra finalmente pegar o metrô.

Na entrada, compramos uma coca com laranja (tá virando vício), e entramos sem pagar (dessa vez eram só cinco estações). No meio do caminho me ligou uma mina do St. Pauli, amiga da Cathy do Republica[2], pra confirmar o lance do Stefan e perguntar se já tínhamos lugar pra ficar (esqueci de falar que ontem a Mea, CouchSurfer de Hamburgo, me ligou e me disse que arranjou dois lugares pra gente ficar, um centro anarquista onde dormiríamos na sala e um projekt onde teríamos um quarto, escolhemos o projekt; essa Mea é sensacional, mudamos o rolê pra lá três vezes em três dias e a mina não se emputeceu e ainda fez de tudo pra nos abrigar, gente boa demais, demais). Dissemos que já (além dos da Mea teve outro cara que mandou email oferecendo), troquei uma idéia com ela e ficamos de nos encontrar em Bristol. Vimos do metrô uns pixos em alguns prédios feitos com extintor, moda que já pegou em São Paulo, e descemos em Nöllendorf Platz pra chegar à Garage.

A Garage fica no fim da Ahorn strasse, uma rua de um quarteirão que sai da Einem strasse. É uma loja grande, mas nada de enorme, com uma pá de roupa, muita mesmo. Metade tem preço fixo, metade é por quilo. Fomos logo atrás das de futebol, mas a primeira e única que encontramos foi uma de um clube desconhecido cuja sigla formava A.C.A.R., quase ACAB. Era só mudar o R com caneta pra tecido e pronto, hehehe. Atrás, número 24. Camisa de manga longa, tecido quente, bonita, azul, mas custava 10 euros, então nem levamos. Na parte por quilo, mais sorte: comprei uma camisa comemorativa da Nike do Brasil de 1958 e uma camisa de delegação da Colômbia da Copa de 1994, além de uma jaquetinha de um time qualquer azul escura com faixas vermelha e amarela nos braços, bonitona. Pesando tudo, deu 13 euros (o quilo era 18). 

Resolvemos, ao invés de ir pro evento queer, voltar pra casa e ver o que as meninas iriam fazer. Voltamos e elas não estavam, então fiquei de bobeira na internet, lavamos roupa, Allan tomou banho (como gosta de gastar água, ele). A Mea (a criança, no caso) e o Julian se divertem com o Allan, que imita monstro pra elas, brinca de pegar. Realmente um pedagogo. Ele ainda tá com um roxo enorme no braço do show do Sub-Humans, a cada dia fica pior. Pedi pra Eve carregar meu celular porque a recarga pelo telefone era em alemão . A Camila apareceu com uma amiga e mostrou pra gente o app de bateria, brinquei um pouco com ele, divertido. Falei pra elas que espero que seja proibido o download no Brasil (tem de baixo e guitarra também), porque vamos ter gente fazendo show ao vivo em boteco com três iPods, molecada fazendo um som no busão, desgraça e hecatombe total. O Luizinho desceu pra ver se a Giulia estava, não estava. Subimos os três pra comer, dessa vez os dois desceram antes de mim porque eu estava afim de laricar, e quando cheguei eles estavam no nosso quarto e as meninas já tinham voltado. Resolvemos chamá-las pra tomar cerveja, elas tinham feito uma pá de compras, e nem se animaram muito em sair ou pegar pra beber no andar de baixo (1 euro a garrafa), e a Má e a Giulia saíram pra comprar sushi. Elas voltaram, a gente pegou cerveja (Allan, Luizinho e eu) e ficamos no quarto delas conversando um pouco. Era visível o constrangimento do Luizinho pós bica da Giulia. Ficamos um pouco, depois o Allan foi fumar um com a Má e a Eve no quarto da Má, eu vim escrever isso aqui e o Luizinho foi embora. 

Agora tô aqui terminando o texto pra arrumar minha mala e sair pro metrô em algumas horas, pra finalmente ir pra Magdeburg e de lá pro jogo do St. Pauli. O Tomas, alemão da camisa do Fluminense (que aliás disse que desconhece o Flu e só comprou porque foi a única que achou em Salvador, não manja de futebol brasileiro), falou que vamos nos divertir e curtir, então estamos ansiosos.

Partiu fechar a mala então? 


[1] Nesse dia, três caras do Autônomos FC tomaram uma gota de LSD e ficaram mais do que alterados, o que rendeu muitas histórias e piadas internas.

[2] Republica Internationale, time antifascista de Leeds, Inglaterra: https://republica.international/

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