45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 18

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 18 – Via crucis pelos campos de trigo com final feliz – FORZA ST PAULI!

(senta que lá vem a história, mas essa vale muito a pena ser lida)

Saímos da casa da Má tendo que acordá-la pra abrir a porta pra gente, depois de arrumar a mala e ficar na internet vendo porcaria até dar a hora de partir. Agradecemos ela muitão porque o abrigo que ela deu foi foda, os rolês bem legais, e deixamos uma contribuição pela comida que comemos. Berlim é muito louco, o Valdívia disse que é tudo que SP poderia ser e não é, só que Berlim tem 3,6 milhões de habitantes e uma área enorme, então ao invés da superpopulação que a gente tem eles tem espaço de sobra pra expandir ainda. Fora que a Alemanha, até pela forma como se constitui, tem vários centros e não um só. Fora a desigualdade social e a constituição do Brasil como periferia do capital. Enfim, fora uma pá de coisa né.

Tomamos o último metrô free na capital germânica rachando o bico de uma camisa do Ralf Schumacher que tínhamos visto na Garage com a imagem dele comemorando um tempo de melhor volta, hahaha. A marca da camiseta é dele mesmo. Muito bizarro, lembrei das piadas com o Rubinho Barrichello por aqui. Descemos na estação mais próxima da ZOB (rodoviária central de Berlim) e chegamos logo lá, meio reclamando de carregar as malas enormes. Mal sabíamos o que nos esperava…

Na rodoviária, compramos os bilhetes pra Magdeburg e o atendente nos informou que o ônibus sairia da plataforma 7. Faltava pouco tempo, parou um bus da companhia que compramos. Quando fomos pedir pra colocar as malas no bagageiro, o tiozinho, de cabelos brancos, ignorantemente nos falou que o nosso bus sairia da plataforma 10. Fomos até ela e não tinha nada escrito no bus, então voltei pra confirmar com o tiozinho e ele, mais ignorantemente ainda, só gritou “GLEIS 10!”, apontando pra plataforma 10 de novo. Xinguei ele silenciosamente, sorri amarelo e fui pra plataforma 10, onde realmente estava nosso bus. A viagem até Magdeburg foi tranquila até, sem muitos problemas. 

Uma vez em Magdeburg, entramos num café e perguntamos do Rasthof Börde, posto de gasolina/restaurante que seria nosso ponto de encontro com o busão da Fanladen St. Pauli. A primeira mulher não sabia onde era, a segunda disse que era longe e que não dava pra andar a pé pela autobahn. Perguntamos no ponto de táxi, mostrando o papel escrito “Rasthof Börde – Autobahn 2”, e o taxista pediu 50 euros. Nem fodendo. Demos um rolê na rodoviária, que também era estação de trem, atrás de informação pra saber se era isso mesmo. Os atendentes de colete da própria rodoviária não nos deram muita info, membros assíduos da Legião da Má Vontade[1] provavelmente. Caçamos o centro de informação ao turista, mais má vontade, puta merda. Saímos da merda da central e perguntamos pra outro taxista, ele disse que de 30 a 35 euros. Não dava. Aí pedimos pra duas meninas, essas com boa vontade, nos ajudar com o inglês com o taxista. Perguntamos pra elas se dava pra ir de carona, elas disseram que na Alemanha as pessoas não dão carona, ao contrário do que tinham nos dito outros alemães e amigos. Vai ver em cidade pequena não rola.

Fodidos, resolvemos tentar descobrir onde era a autobahn, e achamos um anúncio na parede de outro centro de informação ao turista, esse a 600m de distância. Resolvemos andar até lá. No caminho deu pra ver que a cidade parecia um pouco com Berlim, pontos de ônibus e ônibus iguais, bikes, lojas, sem grandes prédios, e alemães de má vontade, hehe. Enquanto andávamos achei um pixo do 1. FC Magdeburg, o time da cidade, que deve estar na terceira ou quarta divisão. Quando já estávamos putos dos 600m que pareciam 2km, achamos o centro de informação ao turista, e finalmente duas alemãs de boa vontade (ok, a primeira era oriental). Nos deram dois mapas, mostraram onde era o Rasthof Börde e disseram pra voltarmos pra central pra pegar um busão de linha normal pra um vilarejo próximo e pedir pro motorista pra descer no Rasthof. Felizes por ter arrumado um jeito de ir, voltamos pra central. Ainda deu tempo de ver um cartaz anunciando algum jogo na cidade com a presença do grande craque AÍLTON[2], que na fotinho parecia um dançarino de axé fazendo joinha.

De volta pra central, achamos o busão que precisávamos e ainda um maluco no visu hardcore que, saberíamos depois, seria a causa da nossa desgraça. Trocamos uma idéia com ele, ele confirmou que era aquele bus mesmo, falamos um pouco da cena de punk por ali, de futebol (torcia pro Borussia Dortmund). Parou um busão todo decorado de SC Magdeburg, um time de vôlei e handebol, segundo ele, que é bom. O nosso bus, 614, chegaria 10h40, tínhamos que estar no ponto de encontro 12h, tava suave. Pegamos ele e pedimos ao motorista pra nos avisar onde descer, ele fez que entendeu mas não confiei muito não. O mano do hardcore sentou mais pra frente da gente e colocou os fones de ouvido. O Allan foi até ele e pediu pra ele nos avisar onde descer, e alguns minutos depois, por volta de 11h, ele disse que era ali, só atravessar a avenida. Felizes, com tempo (e fome), descemos em frente a uma loja de beira de rodovia que vendia tênis por 5 euros, alguns bem legais. Tínhamos tempo, entramos e acabamos comprando um par cada um. Aí atravessamos a rua e… fodeu.

Aquela porra NÃO ERA o Rasthof Börde. A mulher – mais uma de má vontade – apontou uma direção pra gente e disse que seriam uns 3km, 35 minutos andando. Malas de 15kg nas costas, ia ser foda. Saímos já apressando o passo e perguntamos pra outro tiozinho. Ele apontou a mesma direção e disse os mesmos 35 minutos. Começamos nossa caça pela autobahn, achando que daria pra caminhar por ela, mas sempre parávamos em alguma grade que separava lojas/postos de gasolina das estradas vicinais adjacentes à autobahn. Tentando contornar a grade, paramos um cara num carro, estacionamento de um hipermercado. Ele foi bem gente boa, mas não falava inglês, nos apontou um mapinha e disse que não dava pra ir pela autobahn porque a polícia podia pegar a gente (é proibido andar pela autobahn, daí tanta cerca, acho; já tinhamos tentado pular uma), que tinha que ser por dentro mesmo. Disse que era uns 40 minutos dali – a gente já tinha andado uns 15 pelo menos. Nesse meio tempo trocávamos mensagens com o Stefan, da Fanladen, pra ver se eles não podiam nos pegar em algum outro posto de gasolina ou mercado, dizendo onde estávamos, e ele – pra nossa sorte por um lado – disse que eles atrasariam mais ou menos 1h mas que motoristas de busão não saem da autobahn nesse tipo de rolê. Continuamos caminhando, mas o mapinha era mais um croqui do que um mapa e não dava pra entender nada. Tentamos parar uns carros pra pedir carona, nenhum parou.

Uns 10 minutos depois encontramos um moleque e uma mina andando, ouvindo Anti-Flag segundo o Allan. Perguntamos mais uma vez e ele nos disse pra seguir em frente até o chão mudar de aspecto (segundo o Allan ele quis dizer “rua de pedrinhas”) e que seriam uns 40 minutos, DE NOVO. Fomos seguindo a rua ainda tentando parar uns carros, encontramos um ponto de bus onde passava o bus do qual descemos antes (MALDITO MANO DO HARDCORE) e pedimos informação de novo, mais umas duas vezes. Um tiozinho nos falou completamente em alemão pra seguir em frente, mais uma vez. Ao longe, pra além dos campos de trigo, víamos a autobahn. Pelo menos nosso senso de direção tava certo, porque ninguém nos mandou voltar. Continuamos indo até que começamos a passar no meio de um monte de plantação de trigo pra todo lado, geradores de energia eólica (tinha uma pá), porra, estávamos no meio de uma zona rural na Alemanha, sem saber onde, com 15kg nas costas, calor desgraçado. Teve horas que deu vontade de desistir, mas aí teríamos que voltar TUDO. Nem pelo Corinthians eu sofri tanto por um jogo.

Passados os campos, mais pedaços de vida urbana, com casas antigas e ruas de pedra. Seria essa a “rua de pedrinha”? O cara do mapinha tinha desenhado duas rotatórias também, passamos por uma e pensamos, bom, se pá juntando todas as orientações a gente tá indo certo. Um caminhão parou, tentamos ir falar com o cara mas ele saiu fora antes de chegarmos até ele. Atrás da gente vinha um maluco de bicicleta. Perguntei pra ele em inglês, ele não falava. Mostrei o papelzinho, a essa altura todo amassado, cagado, semi-rasgado, e ele deu a entender que não sabia ler. Quando ele tava quase saindo fora gritei, “AUTOBAHN?”, e ele fez pra virarmos a esquerda. Estaríamos chegando? HA HA HA. 

Descemos a ladeirinha e ela terminava em outra rua. Direita ou esquerda? Direita. Um quarteirão e dava numa estradinha de terra. Parecia errado. Passou um carro bem devagar, pedimos pra parar, não parou, Allan mostrou o dedo do meio. Nisso as SMS com o Stefan aumentavam, eles tavam quase lá já. Viramos pra voltar pela mesma rua e o cara do carro que não parou tinha parado 100m adiante – ao que parece pra deixar a avó em casa. Meio ressabiado e xingando o Allan, perguntei pro cara, que ao que parece não tinha visto o dedo do meio e foi mega gentil, disse que estávamos quase lá, era “só” virar a direita. Saímos literalmente correndo, ele passou por nós, apontou uma ruazinha de terra e disse, “vira aí’. Viramos, sorrindo, 15kg nas costas, mais de 1h30 de caminhada já, puta merda, eu só queria deitar no chão e não levantar nunca mais. Passaram dois carros puxando caçambas com motos de motocross, sujas de barro. Deu pra sacar onde estávamos? Então. Dos dois lados, MAIS MALDITOS CAMPOS DE TRIGO. Depois de um pouco de caminhada percebemos que a estradinha de terra era grande e passava por baixo da autobahn. Dava pra ver o Rasthof Börde ao longe. Seguimos, corríamos um pouco, felizes, e parávamos. Os dois sentiam dores fodidas na região da virilha. Ao que parece carregar peso fode a virilha, fica a dica. Talvez não fazer sexo esteja relacionado, só que não. Era o peso mesmo, que desgraça. 

Enfim, vimos uma plaquinha “Rasthof Börde Nord”. Allan quase foi subindo quando eu lembrei que o Stefan tinha mandado SMS, dizendo que já estavam lá, que era Rasthof Börde Süd. Passamos por debaixo da autobahn acreditando que do outro lado teria a subida pro Süd, e tinha mesmo. Tiramos foto de Allan agradecendo embaixo da placa por termos chego e subimos a rampinha correndo pra nos deparar com… MAIS ESTRADA DE TERRA. Tínhamos que contornar um PUTA campo de trigo pra chegar até a porra do estacionamento do barato. Cogitamos ir pelo meio do trigo. De bermuda? Não. Fomos, fomos, fomos até chegar na “esquina” do campo e ver que dali pro estacionamento era bem menos do que parecia de longe. Já dava pra ver o busão branco, placa HHTB 3800, com uma pá de gente de marrom e preto[3] andando em volta, olhando em direção ao campo de trigo (eu tinha mandado SMS dizendo que estávamos contornando o campo). Corremos um pouquinho e tinha uma cerca. TOMAR NO CU. A alternativa era ir pelo meio do mato. Fomos. CHEGAMOS CACETE, CHEGAMOS PORRA!

Nossa felicidade e cansaço eram tantos que nem dava pra falar direito. Ver eles gritando de longe foi muito louco. Stefan nos disse pra por a mala no bagageiro e subir pra descansar no bus. Subimos, sentamos (tinha bastante lugar vago até) e ele anunciou no microfone interno algo em alemão com a palavra “brasilien” e todo mundo bateu palma e gritou. Agradecemos e mano, estávamos quase chorando de estar SENTADOS num ônibus com ar condicionado. Os caras pareciam meio espantados com nosso esforço pra ver um jogo do St. Pauli fora de casa. Mas nem vieram falar com a gente no bus nem nada. Se fosse ao contrário, dois alemães no Brasil, geral já tinha cercado eles pra bombardear de pergunta, oferecer maconha e a porra toda. Um pouco depois, numa parada, nos deram uma cerveja, já valeu, estávamos sem comer nada desde as 5h. Ofereceram um bandeco também, perfeito pra aliviar as dores nas costas e pescoço (eu achava, depois que bateu acentuou minha sensação de incômodo, a maconha sempre me faz isso, alivia dores mas acentua as sensações boas e ruins), e trocaram uma idéia. Nos deram uns adesivos dos Ultras St. Pauli (que na sigla fica engraçadamente USP) escrito 1910 – 1312, sendo 1312 uma correspondência numérica pra ACAB, o famoso “All Cops Are Bastards”. Allan e eu combinamos de tatuar isso em homenagem a essa porra toda. Talvez metamos um 0308 por conta da data também. Aliás, 02 de agosto de 2010, 03 de agosto de 2012… tenho medo de 04 de agosto de 2014 viu[4].

Dali até Aue demorou pra cacete. Entramos no bus no Rasthof Börde eram 12h50 mais ou menos, chegamos em Aue só lá pelas 16h45. No bus tocava o tempo todo hardcore, punk, ska, reggae e deu pra sacar que o St. Pauli tem uma aliança bem forte com a torcida do Celtic. A camisa do Stefan era verde com o símbolo das duas equipes e umas frases. Chegando em Aue, o busão passa pelo meio da torcida adversária, que é ROXA e branca, e nada demais. Sem maiores provocações, nem violência. Na porta do visitante também, uma pá de torcedor da casa passando, tudo nos conformes apesar da porrada de polícia. Uma pá de cadeirante passou pela gente, devia ter uns 15 assistindo ao jogo. Nosso ingresso era pro bloco H, que é misto das duas torcidas, mas quando tentamos entrar lá, por volta de 17h30, o cara nos mandou pro G. Queríamos entrar pra comer, sem nada no estômago até então. Chegando na porta, um monte de segurança privado, com coletes amarelos, muitos com cara de nazi. Depois o Stefan nos disse que vários tinham tatuagem de suástica ou outros símbolos nazistas. Fomos passar, um deles olhou pra gente, comentou algo com outro e nos chamou. O cara nem me revistou de verdade, só olhou minha camiseta (eu tava com a “good night white pride” do Auto) e começou a falar groselha, primeiro em alemão, depois meio em inglês. Deu pra entender que ele falou que aquilo era errado, que não podia antifa no estádio. Disse um nome também, não sei se de algum babaca nazista. Me mandou tirar a camisa e colocar ao contrário. Fiz isso e entrei. Falou que se eu desvirasse a polícia me tirava do estádio. Lá dentro, uma pá de cara com a mesma camisa. Ou seja, ele só quis tirar uma comigo mesmo. Depois de um tempo, claro que desvirei. Nazista de merda.

Logicamente, tudo que tinha pra comer no estádio tinha ou salsichão ou porco ou peixe. Vai se foder. Sem chance de pedir algo sem carne e alguém entender. Desistimos de comer e fomos pra torcida do St. Pauli escolher um lugar. Nossa bancada era atrás do gol, cimentão mesmo, sem cadeirinhas, e o estádio devia ter capacidade pra umas 15.000 pessoas. O placar mostrou no segundo tempo que tinha 12.200 no estádio. Achei estranho esse público redondinho, então se pá é essa a capacidade total, mas nem tava lotado. No nosso lado, estimo que éramos entre 500 e 700 torcedores, sendo que vieram 3 ônibus e mais uma pá de carro do St. Pauli. Não havia muita hostilidade entre as torcidas, e tinha uma pá de faixa (uma do Bristol Rovers[5] inclusive) e bandeiras com mastro (é, a violência, sabe, a culpa é do mastro né). O locutor anunciou a escalação do Aue de uma forma engraçada: ele lia o nome e a torcida gritava em coro o sobrenome[6], hehe. Nenhum jogador conhecido, nenhum brasileiro dos dois lados. Do lado do St. Pauli, a gente conhecia Ebbers, o centroavante eterno; Brüns, meia pela esquerda; Tschauner, goleiro; Bartels, que acho que era meia direita (os dois meias jogam bem abertos, estilo linha de quatro inglesa mesmo); e mais alguns outros. Tinha uma pá que a gente conhecia (a maioria o Allan) mas já saiu do time. Tudo graças ao Fifa[7], hehehe. Na torcida, uma pá de punk, uma pá de skin antifa, várias minas, crianças, alguns tiozinhos e tiazinhas “roqueiros”, muito louco. São impressionantes a capacidade e a vontade alemãs de pintar o cabelo, independentemente da idade. Começou o jogo e o Aue atacava mais, com o St. Pauli defendendo e tentando um contra-ataque. Até conseguiu alguns, mas nada demais no primeiro tempo, quando eles atacavam pro lado em que estávamos. Brüns deu um bom chute depois de tabela rápida pra defesa do goleiro. Mas o que impressionou mesmo foi a torcida: não pára nunca de cantar e tem uma porrada de música. Eu fiz uns 463346867 vídeos, hehehe. Tem até versão de Laura Pausini, Shakira e Beatles (Obladi-Oblada). Pra agitar, fica um cara trepado na grade, de costas pro jogo, com um megafone, puxando as músicas. Dois bumbos formam a “bateria”, beeeem ruim e fora de tempo e ritmo, deu vontade de falar “dá aqui essa porra” e tocar. Já a torcida do Aue, formada majoritariamente por famílias segundo o Stefan, é bem fraquinha. Só canta nos momentos em que o time cresce. Os ultras deles tinham uma faixa “Diffidati con noi[8]!”, em italiano, que eu já vi em algum jogo do campeonato italiano mas nem sei o que significa. Piva[9], ajuda ae!

Duas músicas me chamaram mais a atenção: a famosa música “do Vova” que o Auto aprendeu em Bristol e uma que é praticamente um poropopó, com todo mundo de braço dado, mas pulando mais pra cima do que pro lado. No segundo tempo, os dois times tiveram mais chances, e o jogo ficou um pouquinho melhor nos últimos 15, 20 minutos. Nada de excepcional. Também, estréia dos dois, nenhum deles grande coisa, na segundona alemã. Não dava pra esperar muito mais. Ebbers cabeceou uma bola pro chão que o goleiro deles pegou no susto. Teve mais umas duas jogadas do St. Pauli, que toca bem a bola mas não chuta (deu pra sacar a torcida reclamando disso mesmo em alemão). O Aue meteu uma bola na trave no finalzinho, não entrou por muita sorte. No fim do jogo, chamou a atenção o goleiro reserva do St. Pauli vindo até a torcida pra trocar uma idéia, além de recolher, dobrar e levar ele mesmo uma das faixas (depois o Stefan nos explicou mais sobre ele, leiam mais abaixo). Saímos do estádio e a galera ficou fazendo uma baguncinha de leve, que em termos de Alemanha é menos do que 5 minutos no vestiário do Auto, hehehe. Encontramos Stefan e ele disse que tinha mandado uma SMS pro técnico do St. Pauli falando que tinha dois brasileiros no jogo que foram a pé de Magdeburg até o Börde e que era pra ganharem. Não deu, mas o 0 a 0 fora foi melhor que o ano passado, quando perderam as duas pro Aue.

Entramos no bus e a viagem de volta foi tranquila e demorada. Geral dormiu uma boa parte do tempo. Numa das paradas, FINALMENTE COMIDA. Pra não dizer que não comemos nada, na saída do estádio tínhamos “reciclado” uns pães de uns lanches que o povo largou. Entramos na loja, compramos um lanche, um salgado e um refri de cola com laranja (DELÍCIA!), além do Allan ter comido restos de batata frita e sanduíche largados pelas mesas. Ganhamos mais um salgadinho e um Snickers. Comemos vorazmente e capotamos quase todo o resto da viagem. Acordamos um pouco antes de chegar em Hamburgo com os caras passando na TVzinha do busão gols de jogos aleatórios do St. Pauli (começou bizarramente mostrando um gol da Marta pela seleção brasileira contra a Noruega, hahaha). Os gols de quase todos os jogos passaram duas vezes, acho que com narrações diferentes, sei lá. Destaque para o Max Krüse, que não tá mais no St. Pauli (parece) e mandava vários gols, e pra virada em casa contra o Frankfurt: perdiam de 2 a 0 até os 10 do segundo, com 17 tava 3 a 2 pro St. Pauli já. No final acabou 4 a 2, três gols do Krüse. Esses jogos eram da temporada passada, quando o St. Pauli terminou em quarto na segundona. O terceiro, o Dusseldorf, venceu o Hertha Berlim, antepenúltimo da primeira divisão, e subiu. E foi por conta de UM mísero gol que o St. Pauli terminou em quarto. Além disso, quase todos os gols mostrados foram de contra-ataque. Viva o futebol retranca, morre Barcelona.

Em Hamburgo, Stefan nos levou para a sede da Fanladen. Eram quase 4h da manhã. Stefan, nós te amamos, preciso dizer mesmo sabendo que você nunca vai ler isso. O cara nos DEU dois jacos animais do St. Pauli, três camisetas, um cachecol (pra Casa Mafalda) e uma pá de adesivos. Além disso, eu ainda comprei quatro camisetas (duas pra mim – home e away – e duas pra amigos que me deram a grana pra isso) da temporada passada, só que sem o patrocínio, no lugar tem o nome de um projeto da Fanladen pra juntar 400 mil euros e comprar um espaço no próprio estádio pra servir de sede[10]. Preço? Bom, como só tinham sobrado tamanhos que ninguém compra (ou seja, P e XXL), míseros 20 euros cada. Normalmente vendem por 40 e na loja do clube custa 60. Comprei também uma outra camisa, estilo polo, com as coordenadas do círculo central do Millerntor (estádio do St. Pauli) na frente. Coisa de geógrafo. Quase comprei um quadrinho feito pelos ultras pra por na Casa Mafalda, 20 euros, mas ia ser foda ele chegar inteiro ao Brasil. O Allan ganhou mais uma camiseta, estilo Lonsdale, escrito St. Pauli. Em retribuição a tantos presentes, demos uma camisa do Auto pro Stefan, que pareceu gostar. Trocamos uma idéia sobre futebol, o St. Pauli e outras coisas. Tinham várias faixas de torcidas parceiras, com destaque para o Celtic. Stefan nos contou do goleiro reserva, Piquet, que ele disse ser o jogador mais identificado com os torcedores: já roubou faixas do Dinamo Dresden[11] de dentro do campo, faixas ofensivas aos antifa e ao St. Pauli; depois de um jogo contra o Hansa Rostock, saiu pelas ruas de Hamburgo junto com os torcedores caçando os nazis da torcida deles, maior rival ideológico do St. Pauli (o derby mesmo é com o Hamburgo); e a faixa que retirou e dobrou no jogo do Aue era uma homenagem a um ex-sócio do clube que morreu dois dias antes, com 92 anos, tendo passado 82 deles participando ativamente da vida do St. Pauli. O cara é quase um torcedor que joga. Segundo Stefan, ele está “se esforçando pra ser profissional”, mas quando foi pego caçando nazis, por exemplo, quase jogou a carreira no lixo. Grande Piquet.

Perguntei a ele ainda de brasileiros. Disse que ultimamente tiveram dois, Nascimento e Macau, nunca ouvi falar. Nos anos 90 jogou por lá também Leonardo Mancini, que eu igualmente não sei quem é. Por volta de 5h, ele saiu da Fanladen, deixando um outro torcedor que chegou porque ia pegar o trem das 6h30 e queria tirar um cochilo tomando conta, e nos levou pro projekt onde mora a Rascha (ok, podem fazer piada, a gente também fez), amiga da Mea que iria nos hospedar. Na andança até lá pelo bairro de St. Pauli, que é meio que o bairro do agito, balada e CURTIÇÃO MÊO, com muita gente na rua, percebemos que em Hamburgo parece haver mais calor humano que em Berlim. St. Pauli é também o bairro da luz vermelha, então tinha muitas prostitutas pelas ruas. Nos lembramos de São Paulo e da Augusta antes das proibições e baladizações. O projekt era parecido com o de Berlim, e a Rascha foi bem gente boa conosco, nos disse pra comer o que quiser, tomar banho, usar toalha. Ela ficou acordada até chegarmos. Na parede do lado de fora, Stefan ainda nos mostrou uma foto dele numa campanha com várias personalidades locais contra a construção naquele quarteirão de um prédio de gente rica. É a gentrificação, em todo lugar do mundo tem.

Antes de dormir, comemos (AAAAAH, COMIDA!), conhecemos a gatinha que mora na casa, deixamos ela entrar (tava miando na varanda) e eu ainda dei uma mijada em mais uma privada com descarga perfeita. Sempre que isso acontece me lembro da diferença entre a eficiência das descargas na Europa e no Brasil e Argentina, hehehe. Tenho certeza que o pessoal dos Alagados[12] e o Trafani[13] vão entender o porquê da comparação. 

Deitamos e… FINALMENTE terminou o dia. 


[1] Esquete do Hermes e Renato: https://www.youtube.com/watch?v=Zup0FlwsCgo

[2] Acho que era esse Aílton aqui: https://www.transfermarkt.com/ailton/leistungsdaten/spieler/516

[3] As cores do FC St. Pauli.

[4] Nada especial aconteceu nessa data (eu esperei por algo de verdade).

[5] Time/torcida que conheci em Bristol, em 2010.

[6] Depois descobri que isso acontece meio que em todo jogo na Europa.

[7] O jogo de videogame mesmo.

[8] “Cuidado conosco”, canto famoso de algumas torcidas italianas, pelo que pesquisei.

[9] Amigo juventino que curte o futebol italiano.

[10] Três anos depois, voltei a Hamburgo com outro time (o Rosanegra Ação Direta e Futebol) e junto com o Allan e o Zé tocamos com a banda que tínhamos (mesmo sem o batera, levamos a bateria gravada pra acompanhar) dentro da nova sede, já embaixo da arquibancada do estádio. Inesquecível.

[11] Time conhecido por ter uma torcida nazi.

[12] Apelido da casa onde Allan e eu morávamos.

[13] Outro amigo juventino, que já nos hospedou em Buenos Aires.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s