45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 20

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 20 – Um dia pelas estações ferroviárias alemãs

Acordamos umas 9h e começamos a arrumar a mala, tomar banho, etc, pensando no trem. Mesmo assim ligamos pro maluco da carona – Adrian – pra ver se rolava. Não atendeu, três vezes. Decidimos que o jeito era o trem mesmo. Dei uma olhada no meu tornozelo, com um corte profundo desde 10 dias antes da viagem e finalmente ele fechou. Aliás, acho que é zica européia, da outra vez tinha vindo com um rombo no braço. Ambos causados pelo futebol: dessa vez por uma entrada assassina, da outra vez por cair em cima de uma pedra no campo de terra.

Saímos do projekt deixando um recado agradecendo e dizendo que gostaríamos de ficar mais. Teremos que voltar mesmo, Hamburgo merece ser melhor explorada. Da próxima vez acho que vou comprar antecipadamente aquele ticket de trem que você viaja quanto quiser por um determinado tempo e decide as idas e vindas na hora. Falando em trem, chegamos na Hauptbanhof (Haupt = principal, banhof = estação) de Hamburgo e fomos comprar o bilhete amigão. Seriam 11h32 minutos e 6 trocas de trem. Saída 11h50 de Hamburgo, chegada 23h32 em Regensburg. Depois de andar 5km com mochila nas costas, um dia de viagem sentadinho bonitinho em trem europeu tá suave. Na máquina de bilhete, outro senhor de idade pedindo um trocado. Na Alemanha foi onde mais vi isso, e sempre pessoas mais velhas. Algo me diz que tem a ver com o crescimento vegetativo negativo e a quantidade cada vez maior de pessoas idosas e sozinhas.

Faltava uma meia hora pro trem sair, então descemos pra plataforma e ficamos sentados no chão. Passaram pela gente um casal punk bebasso e um metaleiro brasileiro, que tava voltando do Wacken Festival 2012, um festival de metal grande segundo ele. Os dois tentaram se comunicar conosco, nós falamos um pouco, demos risada, e eles ficaram falando entre eles, o brasileiro analisando as cores dos moicanos dos punks. O do cara tinha as cores do Brasil segundo ele, o da mina era rosa. Nisso passou por eles e pela gente uma mina de cabelo comprido VERDE LIMÃO, e ficamos eu e Allan discutindo se era peruca ou não. Brilhava demais pra não ser, mas por que caralhos viajar de trem usando uma peruca a la Sailor Moon? Com a mãe, ainda por cima? Era uma mina da nossa idade. Allan apelidou ela de Wiena Hair e ficou cantando a porra da música do comercial a viagem toda.

Entramos no trem e conseguimos pegar um par daquelas cadeiras que fica de frente pra outro par, assim colocamos as malas à nossa frente. Tinha uma mesinha no meio. Andar de cima. Na primeira parada do trem, sei lá o que aconteceu, mas acho que eram os punks bêbados fazendo merda, só sei que o motorista lançou algo no microfone do trem que todo mundo riu, menos a gente. Ficamos sem sacar a piada em alemão, que achamos que deve ter sido do tipo “por favor, não se comporte como brasileiro dentro do trem”, hehehe. 

Trocamos de trem e ficamos de frente com a Wiena Hair, que passou pela gente e tirou a peruca, desfazendo o mistério. Fui ao banheiro e quando voltei tinha um metaleiro com chulé dormindo no banco da frente da gente. Porra. Aproveitamos pra comer nosso delicioso almoço: batata chips, Coca-Cola com laranja e chocolate. Nisso, o tal do Adrian, a quem tínhamos pedido carona, liga pra dizer que podíamos ir com ele. Já era meu querido, estamos no trem. Ele pareceu até mais desapontado que a gente. Chegou também uma SMS do Jonas, que não sabia que já tínhamos ido embora pra Regensburg e queria nos encontrar. Planos frustrados. Numa das paradas do trem, outro metaleiro, com uma barba enorme que o Allan pagou um pau, veio até perto da gente lendo um livro. Era Paulo Coelho. Como pode um país tão rígido como a Alemanha permitir a tradução e publicação de uma merda dessa? Socorro. 

Faltavam ainda quatrocentas e cinquenta horas pra chegarmos, então resolvemos jogar o baralho dos ditadores[1] que eu comprei. Super Trunfo de tiranos. Tudo em alemão, mas aos poucos fomos sacando o que era o que – no final da viagem sabíamos tudo. Tivemos que parar antes do fim porque chegamos em Leipzig, capital da antiga Alemanha Oriental. Estação de trem gigante, tempo de espera de uns 40 minutos. Vi um grafite do Halle FC, não conheço. Como eu ainda tinha fome, fui até um quiosque da Subway e comprei um lanche vegetariano. O cara me deu o troco exato, incluindo duas moedas de 1 centavo. Na Alemanha toda o tempo todo dão o troco exato. E eu achava que eu era metódico. Entramos no trem e ele era diferente dos outros, mais antigo, um calor desgraçado. Ainda bem que eram só umas 2 horas de viagem. Saiu da estação com 6 minutos de atraso, o único dos trens que atrasou. Voltamos a jogar o baralho dos ditadores e no final eu ganhei. O Hitler é o Super Trunfo, mas a gente não lembra como usa o Super Trunfo, hehe.

Nesse trem, na nossa frente, tinha uma mulher com seu filho. Olhava bastante pra gente. Allan achou ela linda e disse que tinha um olhar triste. Abrimos outro chocolate e ele achou que talvez eles estivessem com fome e ofereceu. Negaram. O filho estava com dor de cabeça, eram italianos. Conversamos brevemente com a mãe, bem simpática. Ficamos imaginando se ela seria mãe solteira. Conforme o trem ia passando pelas estações a gente observava e contava algumas coisas. A diferença das placas de nomes de rio da Lituânia e da Alemanha. Nossas transas, as boas e as ruins. Os grafites nos muros (vimos um “nazis raus”[2], alguns grafites nazis do Dínamo Dresden). Placas indicando o castelo de Crimmitschau. Mais floresta de taiga. 

Descemos do trem junto com um bando de metaleiros. Iríamos esperar mais uns 30 minutos pelo próximo. Comprei um suco de maçã que tinha gás, bizarro. Tínhamos sono. O sol resolveu se pôr mais cedo. Pegamos o último trem com um metaleiro mega fedido, tava pior que o Allan, hahaha. Na camisa dele vimos que no tal do Wacken tocaram mais de cem bandas, entre elas Sick Of It All, In Flames, Craddle of Filth, Napalm Death, DRI e Sepultura. Tinha também um treco escrito Zenirsula que eu não sei que porra era. Dormimos um pouco e finalmente chegamos em Regensburg.

Ver o Manuel chegando na estação meio esbaforido e atrasado foi engraçado. Saudades dele, uma das melhores pessoas que já conheci nessa vida. A casa dele era bem perto, 10 minutos andando, e chegando lá tinha comida nos esperando. Lindo! Sua namo[3]rada e a filha dela já dormiam, então ficamos nós três conversando. Falamos do SC Freiburg, time vermelho e preto que ele curte, e da nossa epopéia pra ver o St. Pauli. Ele me disse que o St. Pauli tá ficando modinha demais e que alguns torcedores desistiram dele e foram torcer pro Altona 96, time ainda menor de Hamburgo. Lembrei do Toro.

Depois a conversa mudou pros problemas que o time em que ele joga em Regensburg, futebol de sete, tem enfrentado. Parecidos com os do Auto, só que no caso do time dele gerou um racha e agora eles não sabem se terão time pra jogar a temporada que inicia em setembro. Falamos também sobre relacionamentos, piercings e tattoos, tudo regado a cerveja bávara e maconha. O céu em Regensburg é deslumbrante, estrela pra todo lado. A casa do Manuel é tipo uma casa de três andares em que cada andar mora uma família, como se fosse um prédio. Eles tem uma gatinha, a Mea, que lembra muito a Branca. Saudades da branquela.

Antes de dormir, ainda dei uma olhada na internet. Tenho trampo pra entregar, merda, e nem comecei ainda.


[1] Um “desapontamento” que tivemos foi o de que não tinha nenhum dos ditadores brasileiros.

[2] “Fora nazistas”.

[3] Relembrando, nosso amigo anti-futebol moderno mais radical.

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