45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 21

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 21 – Finalmente pelados na Europa

A cidade de Regensburg é bastante antiga e atravessada pelo rio Donau, segundo maior da Alemanha depois do Elba. Com suas ruelas tombadas pela Unesco, e por ser a cidade de origem do papa atual[1] (o irmão dele ainda tem negócios na cidade), recebe bastante turismo. Quando saímos da casa de Manuel com a namorada dele, Nicole, e sua filha, Mina, pra ir até o centro (eles iam ao médico fazer ultrassom, descobririam o sexo do filho deles, Nicole está grávida de 5 meses), fomos preparados pra dar uma volta e conhecer isso tudo um pouco. Manuel nos contou que Regensburg estava na “rota do sal”, com os navios passando pelo Donau, e por isso se tornou importante e conseguiu dinheiro. A cidade tem cerca de 1500 anos.

Antes de nos separarmos deles, deu pra perceber muitas bandeiras e negócios turcos e tailandeses. Eles se foram com Mina, que estuda numa escola montessoriana, e nós demos uma volta pela cidade. Tínhamos uma hora e um mapa. Visitamos uma ponte que atravessa o Donau e foi construída em 1200 e bolinha, conhecemos uma área verde e entramos na Regensburg Dome, imponente igreja ao estilo gótico no centro da cidade. Por conta dos mercadores de sal, Regensburg teve bastante imigração italiana, e dava pra notar isso na arquitetura. Vimos também uns stickers da Red Generation, torcida do time da cidade, o Jahn Regensburg. 

Reencontramos Manuel, Nicole e Mina e eles estavam com um amigo de Manuel. A idéia era almoçar. Mina queria tomar sorvete, hehe. Ela tem 8 anos e me lembrou bastante a filha de uma amiga no Brasil. Resolvemos ir comer num café vegan (até em Regensburg tem café vegan), e no caminho passamos por um monumento erguido no local onde descobriram – escavando – que existia uma antiga sinagoga. Interessante. Vimos também uma tenda de refugiados de guerra do Irã. Tomamos sorvete (bom pra carcete, segundo Allan o melhor sorvete de chocolate que ele já tomou na vida) e chegamos ao tal café. Lá pedimos hambúrgueres com fritas, porque pratos mesmo só de noite, e tava tudo bastante bom.

Saímos e o amigo deles se despediu, enquanto Mina e Nicole voltaram pra casa. Manuel, Allan e eu resolvemos ir até a estação de trem desenrolar nossa ida pra Suíça. No caminho, compramos um fecho pra minha pochete porque um deles tinha quebrado e passamos pelo castelo de uma ex-família real, privado. Essa família foi a primeira a implantar um serviço de correio na Europa. Chegamos na estação de trem e vimos que de trem não dava pra ir, ia sair uns 100 euros pra cada – a parte da Suíça é muito cara. Voltamos pra casa passando pelos jardins comunitários do bairro, pedaços de terra que você compra pra fazer um jardim, mesmo que longe da sua casa. Não pode morar lá, mas todos tem uma casinha pequena pra quando as famílias vem passar o fim de semana ou fazer churrasco. Ainda pegamos uma chuvinha de leve antes de chegar.

Em casa, tratamos de buscar caronas no Carpooling.co outra vez. Achamos algumas, Manuel mandou SMS, também falou com amigos de Munique pra ver se alguém ia pra Suíça. Tomamos uma sopa deliciosa na janta e eu falei com o Leo[2], que me disse que poderia nos pegar em algum lugar mais central da Suíça, como Berna ou Zurique. Mina e a vizinha de 5 anos do andar de cima corriam pela casa e na vitrola tocava Husker Duü e No Means No. O gosto musical do Manuel é excelente e ele tem uma pá de vinil bom.

Depois da janta, o plano era ir à sauna. Isso mesmo, sauna alemã, numa cidadezinha próxima. Allan nunca tinha ido numa sauna, eu tinha tido experiências na sauna do prédio onde uma amiga da família tinha apartamento no Guarujá, quando adolescente. O inusitado do rolê prometia, então pegamos roupões, toalhas e a porra toda e fomos de carro. No caminho, vi anunciada a copa do mundo de baseball – Regensburg tem um time forte – e Manuel nos falou que por vezes assiste hóquei no gelo – o time da cidade é bom também. No carro, Allan bolou uma maconha com tabaco, pra meu desgosto. Mas fumei. 

Chegamos na sauna, que é um prédio enorme que também tem academia e uma piscina com toboágua. Me lembrou um pouco o Sesc. Pegamos uma pulseirinha com chip e entramos no vestiário. Manuel foi dando as coordenadas. Primeiro um banho pra entrar limpinho. Iríamos pelados, de roupão. Os deles eram normais, o meu… era da Nicole, então eu fiquei meio parecido com o Frank Zappa segundo o Manuel, hahaha. Entramos na sauna e ela na verdade era um conjunto de várias salas, cada uma com um fim ou tipo de sauna diferentes. Primeiro fomos em uma só pra aquecer (literalmente, hehe). Todo mundo pelado, homens, mulheres, jovens, adultos. Sem nenhum problema ou comentário babaca. Um ambiente em que muitos dos nossos amigos não sobreviveriam sem dar risada ou fazer alguma piada.

Saindo dessa, tomamos um banho frio – o contraste é o que liga – e entramos em outra bem mais quente onde iria ter uma sessão. Ainda não sabíamos o que era isso. Sentamos pelados na nossa toalha e veio um cara fortasso, loiro, com um balde e uma toalha. Ele falou algumas coisas em alemão e Manuel nos explicou umas dicas pra gente não desmaiar, hehe. O cara jogava uma essência de água com ervas (tinha um cheiro meio de laranja) no fogo e ventilava com a toalha o vapor pra toda a sala. Recebíamos umas ondas de calor megaforte, que quando passavam davam um alívio bom. Depois de umas três dessas, todos saímos da sala e pegamos um potinho com sal pra passar no corpo inteiro. Fizemos isso e voltamos pra dentro, onde rolaram mais vaporizadas pro sal entrar na nossa pele. Tudo isso durou uns 30 minutos, sobrevivemos. Saímos e fomos direto lá pra fora, chuviscando, puta frio e a gente pelado e sem sentir frio por conta do corpo quente. Dali entramos numa sala-freezer com o chão congelando pra fazer o contraste e depois numa piscina mega gelada. Ficamos então fazendo contraste frio/quente nos pés até a próxima sessão, que dessa vez seria com mel. Ainda meio traumatizado da sessão anterior (ele sua muito mais que qualquer ser humano), Allan começou a indagar como seria. Respondi:

– Ah mano, vai ser melzinho na chupeta.

E ele começou a rir descontroladamente. Definitivamente, Davi não sobreviveria à sauna. Sema idem. Enquanto Allan ria, segundo ele não só do que eu falei mas do meu roupão modelito “banda do Walter” (piada interna inexplicável), Manuel pegava água com sabor de maçã pra gente beber. Ele tinha trazido três garrafas, porque não podíamos ficar ali sem hidratar. Seriam duas horas e meia de sauna, então bebemos água até o fim do mundo. O Allan se mexendo e falando tem me lembrado muito o Fê, meu meio-irmão que joga muita bola e tá lá em Ribeirão Preto. Saudades dele. 

Chegou a hora da sauna melada e nós temíamos que a sessão fosse aplicada por uma russa atleta que segundo o Manuel faz o barato ser três vezes pior. Imaginei uma versão feminina do Ivan Drago. Chegamos lá e não era ela, era uma outra menina. Assim como o cara da primeira sessão, ela estava com as partes íntimas cobertas. Todo mundo pelado menos eles, sei lá por quê. Começou a sessão e foi tudo do mesmo jeito, só que com mel ao invés de sal. Ela advertiu seriamente a todos pra não comer o mel, mas de um jeito que todo mundo riu. Foi tudo mais suave do que da primeira vez, se pá porque nossos corpos já tavam mais preparados – e as mentes também.

Depois do mel ainda fomos pra fora pra nadar numa piscina aquecida, pra depois entrar e descansar na sala de repouso. A sensação era ótima, quase que como uma brisa, corpo leve, mente voando. Pegamos no sono e acabamos atrasando pra sair, quando saímos todo mundo tinha ido embora já. Tomamos nosso banho de saída, tiramos fotos indecentes e nos fomos, pagando um pouquinho a mais por conta do atraso. Já era noite, 22h30, e na volta pensei que a minha mãe ia curtir muito um rolê desse. Chegamos em casa e comemos algo, depois fomos procurar carona outra vez. Achamos uma de Munique pra Berna, mandamos SMS porque já era tarde e ela disse que as vagas eram nossas. Liguei pro Leo e combinei com ele o ponto de encontro em Berna. 

Antes de dormir, ainda postamos nossas fotos indecentes no Facebook e demos risada geral dos comentários[3].


[1] Na época, o Joseph Ratzinger.

[2] Amigo suíço que fizemos hospedando no Brasil, via CouchSurfing.

[3] Como eu saí do Facebook há uns 4 anos, não tenho essas fotos também.

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