45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 22

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 22 – Cervejas bávaras e futebol

Tomamos um café da manha saudável enquanto pensamos em idéias pra organizar a nossa casa ao voltar pro Brasil. Era o dia do futebol que o Manuel tinha organizado, no fim da tarde. A vida tranquila de Regensburg era contagiante e eu não conseguia nem pensar em terminar meu trampo, que tinha que entregar dali três dias. Allan e Manuel cozinharam um prato húngaro pro futebol do fim da tarde – chama goulash o prato – e a gente ainda jogou com a Mina e a Nicole um jogo de tabuleiro que é metade War, metade SuperTrunfo. Pra criança, comparando animais do mundo todo. Bem legal. A Mina ganhou no final.

Almoçamos também goulash e eu aproveitei pra costurar o fecho novo da minha pochete. As aulas de costura na infância, pra controlar a ansiedade, e a vida punk ajudaram a não esquecer como costura. Ficou torto mas funciona, então tá valendo. Antes de sair, ainda aparei o bigode, que tava quase entrando na boca, e tomei bastante água (acho que a sauna desidratou um pouco; aliás, eu ENGORDEI[1] na Europa, uns 2 quilos), que a Nicole serve numa garrafa com pedras dentro pra energizar. A Nicole, que aparenta ser mais velha que o Manuel (ele tem 34 anos), pareceu o tempo todo meio cansada, desanimada. Manuel disse depois que ela tava estressada do trampo, mas acho que a gravidez ajuda a cansar também. Ela não interagiu muito conosco, sempre esteve meio distante.

O plano da tarde, antes do futebol, era visitar o Glufke (Stefan Glufke), amigo do Manuel que é produtor cultural e tava prestes a sair de férias pra Portugal. Antes de ir recebemos o OK da carona pra Berna e ficamos aliviados. 24 euros pra cada um, até que um preço justo comparando com as outras opções. Fomos de carro pra casa do Glufke, parando pra comprar cerveja – Manuel comprou 6 cervejas diferentes e disse que teríamos uma sessão de experimentação. No caminho, ele nos contou que Regensburg tem 160 mil habitantes e duas universidades – cerca de 20 mil estudantes.

Glufke mora numa casa não tão grande mas com um jardim enorme, com pés de maçã, pera e ameixa. Chegamos e ele estava recolhendo maçãs do chão. Pela casa, ele paga 600 euros mensais – nunca em SP dá pra achar uma casa daquela metragem por esse preço (cerca de 1500 reais). Nos apresentamos, conversamos um pouco e ajudamos ele a recolher as maçãs antes de partir pras cervejas. A conversa passou pela comparação entre os metrôs de SP e Alemanha, pausa pra tomar um rum de pera que ele mesmo faz em casa, um centro social na esquina que era uma casa alugada e que os gestores conseguiram comprar (aaaaah, Casa Mafalda…) e finalmente as cervejas em si. Manuel foi trazendo sem dizer qual era, e a gente falava o que achava ao final de cada uma. A primeira era a mais suave.

Falando em cervejas, rolou uma comparação entre Brasil, Alemanha e Bélgica. O Brasil não tem leis de produção de cerveja que prestem, assim as nossas cervejas tem um monte de milho. Na Alemanha e Bélgica, há leis estritas sobre isso. A lei da Bavária – todas as cervejas que o Manuel comprou eram bávaras – é ainda anterior a da Alemanha, e a Bavária tem, segundo Glufke, o maior campo de plantação de cevada do mundo. Fiquei brisando que a Bavária é tipo o Rio Grande do Sul da Alemanha, já que rola uma identidade regional diferente[2]. Nisso, uma outra mina que tinha dito que não rolava a carona ligou pra dizer que agora rolava, e ficamos com duas caronas diferentes. Escolhemos a que era mais tarde e Manuel desenrolou com elas.

Passamos a falar do significado dos nomes, já que Manuel e Nicole estavam pensando no nome do filho – Manuel brincou dizendo que seria Hörst, que segundo eles é um nome horrível. Depois, Glufke falou de ossos e outras coisas que já encontrou no quintal, e eu brinquei que era um pet cemetery, hehe. Ele começou a contar a história do absinto, sobre os cogumelos alucinógenos que iam nele e que depois a igreja proibiu na idade média, e falou de um rum, chamado Captain Morgan, que tinha 70% de teor alcoólico e que continha o ancient trumphet, um dos cogumelos. A todo instante, maçãs caíam das árvores, e eu já tava vendo a hora em que alguém ia levar um Newton na cabeça. Glufke disse que na Bélgica tomou um rum com 80% de álcool, e eu disse que com esse dá pra limpar a casa tranquilamente[3]

Ele contou ainda uma história de ter tomado óleo de máquina no lugar do rum por engano e ter tido uma brisa muito louca em que ele via o Papai Noel enquanto cagava óleo no quintal, hahaha. Depois falou da história do Red Bull, que também era uma bebida local camponesa bem mais forte do que essa que vendem hoje e que foi apropriada e suavizada porque dava brisa também, era tipo uma vodka. Contou ainda que na região rola um trabalho ilegal de poloneses transportando lixo químico de Köln pra Regensburg, e que isso gerou manifestações na cidade.

Já estávamos lá pela quinta cerveja quando Glufke falou de um experimento que fez pra desestressar, tomando 4 cervejas por dia na varanda depois do trabalho, hahaha. Perguntamos por que algumas cervejas tem escrito “hell” no rótulo e ele disse que significa “läger”, sei lá se em bávaro antigo ou o quê. O sol se movia no céu (tá, eu sei, heliocentrismo e tal[4], mas foda-se que o movimento é só aparente, fica mais bonito escrito assim) e a gente buscava a sombra das árvores. Glufke contou que só ele ainda mantinha essas árvores antigonas no quintal, e falou do vizinho que cortou todas e agora não tem sombra e nunca fica no quintal. Manuel falou do cabelo do Glufke, que era “vokuhila”, termo em alemão inventado com a primeira sílaba das palavras que formam a frase “curto na frente, comprido atrás”, moda nos anos 80. A versão alemã do tupãzinho, mullet ou rollinga, escolham aí.

Antes de ir embora, ainda deu pra falar do problema europeu com a falta de abelhas, que transformou isso num negócio bizarro (o dono das abelhas ia com elas pra um lugar, soltava as bichas por duas semanas pra elas polinizarem geral e depois ia embora), e do Manuel nos mostrar as cervejas. Quatro eram de Regensburg, uma de uma área no meio da floresta onde vivia o Manuel (Hecklberg) e uma de Munique. Eu gostei mais da Hecklberger, Allan da primeira, que eu não lembro o nome. Guardei as tampinhas de toda forma. Nos despedimos do Glufke e fomos pra casa, parando antes pra comprar não lembro o quê. Tomamos um refri horrível que o Allan tinha comprado, muito ruim, e eu comi uma rosquinha alemã, totalmente delícia.

Chegamos em casa em cima da hora pra arrumar as coisas pro futebol. Fizemos isso em 5 minutos, esperamos um amigo do Manuel que iria de carona conosco e partimos. Não lembro o nome do cara, mas era gente boa e tinha assumido a bronca de gerir o time do Manuel. Formado em Física, me lembrou do Zé. Antes de chegar no campo, paramos pra comprar cerveja pro pós-jogo. Eu tava de boa de cerveja, já que as seis de antes foram divididas em quatro pessoas, ou seja, uma garrafa e meia pra cada. Levamos o goulash também. Na loja, ganhamos duas cervejas de graça por ajudar a mulher a colocar uma pá de cerveja no refrigerador.

Como o time do Manuel, que chama Blut Grätsche (significa “tackle sangrento”, ou “carrinho sangrento”, haha), tá em crise, eles combinaram de jogar misto com um time feminino chamado Kosmos Ost, que já tem mais de 10 anos. Chegamos pra jogar e éramos em 12, 6 pra cada lado, oito caras e quatro minas. O jogo foi bem suave, sem ninguém se matando muito, todos revezando nos dois gols. Terminou sem nenhuma falta. Allan fez dois gols, eu fiz um. Uma das minas, enorme de alta, jogava muita bola, era foda jogo de corpo com ela. Aliás, todos em campo jogavam direitinho. O futebol alemão é incrivelmente constante, até mesmo no amador.

No campo ao lado, num jogo mais pegado, jogava um outro time da liga alternativa da qual o time do Manuel participa, com um cara de camisa do Boca Juniors incluso. Não saquei se ele era alemão. Os campos, de graça, eram na beira do rio Donau, e se alguém desse um bico a bola ia parar no rio. Sorte que ninguém deu. Acabado nosso jogo, uma multidão de crianças invadiu os campos, e ficamos comendo goulash e tomando cerveja enquanto víamos criancinhas alemãs correndo de um lado pro outro, meninos e meninas, e um moleque que corria pra cacete e tinha o cabelo quase branco de tão loiro. Conversamos com o Manuel sobre a liga alternativa, feita sem juízes, com duas divisões. Legal pra cacete, inclusive pelo sistema de rebaixamento, que é anual: primeiro todos jogam contra todos uma vez, depois os melhores jogam a primeira divisão e os piores a segunda divisão. Todo ano é assim.

Saindo do campo, fomos conhecer o estádio do Jahn Regensburg, que deve ter capacidade pra 7 mil pessoas. Dia 20/08, jogam ali pela Copa da Alemanha Jahn Regensburg x Bayern de Munique, e o estádio estava estranhamente totalmente aberto, de forma que conversamos enquanto andávamos dentro do campo mesmo, indo até a baliza onde atrás ficará a torcida do Bayern. Manuel nos explicou sobre o time, que tem o menor orçamento da segunda divisão alemã mas sempre tem uns jogadores loucaços. Falou também que querem construir outro estádio mais pra fora da cidade, maiorzinho, pra 20 mil pessoas, mas que nem precisa porque a média de público não passa dos 4 mil. Os ultras são contra essa mudança e prometem causar caso levem ela pra frente.

Depois, passamos nas quadras onde a liga alternativa acontece. Dois campos de 11 enormes, passíveis de serem divididos em quatro de  futebol 7, mais um bar e vestiários. Tinha uma galera bebendo lá ainda, apesar de ninguém mais jogando, porque já eram mais de 22h. Manuel nos falou que o dono é um tiozinho bem gente boa. Na volta, um coelho atravessou na frente do carro. No dia anterior tinha sido uma raposa. Se tivesse jogo do bicho aqui eu apostava, hehe. Manuel decidiu não ir pra casa e fomos pra um bar, onde as minas do Kosmos Ost se conheceram e se encontram. É um bar com um cinema DIY[5] do lado, bem legal. Lá tinha um calendário das minas, muito louco, com elas em cenas inusitadas, como dançando abraçadas numa bola de futebol. 

Nesse bar conhecemos Klaus, amigo do Manuel que estava tomando conta naquele dia. Viciadaço em pebolim, fomos jogar e o time em que ele estava ganhou todas (menos quando era ele e o Allan, hahaha). Apareceu também um pessoal jogando dardo e um casal de amigos, Toni e Stefani, que ficaram nos desafiando no pebolim. Fomos jogando mudando as duplas, perdendo umas, ganhando outras. Num dos jogos baixou uma inspiração no Allan e ele fez 7 gols seguidos. Antes de ir pra casa ainda rolou um shot de uma bebida local, tipo uma cachaça, que nos deixou zumbizando até a hora de capotar.


[1] Em letras maiúsculas porque eu só fui passar dos 60kg depois dos 30 anos.

[2] Comparação mais ou menos, já que a Alemanha tem várias identidades regionais, resultado do processo histórico de formação de seu Estado nacional.

[3] Um tanto irônico estar postando isso em meio à pandemia de coronavírus…

[4] Nessa época a terra plana ainda não era uma questão.

[5] DIY = do it yourself, ou faça você mesmo. Um cinema independente.

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