45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 23

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 23 – Uma cidade tomada pelo A

O Manuel realmente tem um gosto bom pra música. Acordamos escutando o vinil split do Leatherface com o Hot Water Music. Davi iria curtir. O gosto do Manuel e o jeito dele me fazem lembrar o João Branco, do Ordinaria Hit. Até no jeito de jogar bola se parecem. Como tínhamos que estar em Munique pra carona às 14h, tomamos café e saímos atrasados pra pegar o trem barato que nos deixaria no destino às 13h15.

Na estação, enquanto eu tirava dinheiro, Allan e Manuel deram sorte e encontraram três caras que iam pra Munique naquele trem e tinham um ticket válido pra 5 pessoas. Custava 40 euros, então saiu 8 euros pra cada um. Lindo! Antes de partirmos, Manuel disse que ele e Patrick, do Kampferde Hertzen, time que nos eliminou em 2010[1], estão sem time pra jogar e querem jogar conosco. Ótimos reforços. No trem, dormimos até chegar em Munique, com pouca interação com os caras – eram dois afegães e um alemão. A cabine, de segunda classe, era ótima.

Chegando em Munique, pegamos o metrô – sem pagar – para a estação onde encontraríamos Ellen, nossa carona pra Berna. Enquanto ela não vinha tomei um café. Quando chegou, era uma garota, mais nova, 24 anos, acompanhada de outra, Luna, mesma idade. Iam pra Berna porque tem parentes lá e porque ia rolar um megafestival de rua. Elas foram na frente, a gente atrás. Ellen mais séria dirigindo, Luna trocando uma idéia conosco. Liguei pro Leo e combinei com ele na estação de trem de Berna.

Ellen e Luna moram em Munique, mas a primeira é de uma cidade na Alemanha central e a segunda de Hamburgo. Luna tem um irmão morando em São Petersburgo que também já morou na Costa Rica, daí que já viajou com ele um bocado. Falamos de olimpíada, de futebol, do St. Pauli (ela gosta, mas disse que acha a torcida perigosa, haha). No som, rolaram duas bandas que eu não conhecia e até achei legais, Black Keys e Kraft Klub. Ellen estuda terapia ocupacional, Luna arquitetura. Falamos com elas do encontro anarquista, que depois de chegarmos na Suíça foi anunciado até no rádio, haha.

Precisávamos usar cinto de segurança mesmo atrás e isso me incomodava. No meio da viagem, recebi uma ligação. Em alemão. Era engano. Engano em alemão, haha. Nossa tensão maior era a fronteira, documentos, etc, porque não tínhamos carta-convite da Suíça. Mas atravessamos a Áustria e entramos na Suíça sem controle nenhum, ótimo. No caminho, eu via aviões cruzarem os céus, que por conta da temperatura deixavam rastros de fumaça. Tem sido uma constante na viagem, se esses relatos virarem livro a capa tem que ser isso[2]. Em determinado momento, descendo a serra, tivemos uma vista linda da Suíça lá embaixo, não lembro que cidade. Me lembrou a vista de Santos descendo a Serra do Mar. No mais, floresta de taiga. De novo. Cogitamos morar na Europa, mas acho que eu não aguentaria muito tempo. Vimos ainda um estádio, AFG Arena, sei lá de quem. Começou a tocar o hino dos EUA na guitarra em uma das músicas e Allan vira e me fala, “olha, tá tocando a Internacional”. Porra Allan, já fez propaganda do Snickers, agora confunde o hino dos EUA com a Internacional? Duas fora, na terceira vai ter que entregar a carteirinha de anarquista.

Na altura de Biel, cidade já próxima a Berna, vi montanhas que pareciam ter o pico nevado. Fiquei em dúvida sobre se eram os Alpes ou não[3]. Logo depois entramos em Berna, dez minutos depois do horário combinado com o Leo. As meninas nos deixaram a uns 300m do local certo, nos despedimos e fomos, com as malditas mochilas pesando mais que o mundo. A banhof onde iríamos encontrar o Leo, assim como quase todas por que passamos, tinha cinemas perto. Pessoal é esperto: se tu perder o trem ou tiver que esperar um monte por uma transferência, pega um cineminha.

Chegamos na estação e nada de Leo. Liguei pra ele e ele disse que tava “parkeando” o carro, haha. Dois minutos depois ele apareceu, com sua namorada colombiana que está de visita, Marcela. Nascida perto de Manizales, estuda sociologia. Bem gente boa e interessada com o que se passa na cena anarquista – descobriríamos depois que ela é marxista. No caminho do encontro, Leo foi contando que surgiram há uns tempos uns squats nazi na Europa. Igualzinho um squat punk, mas nazi. Bem bizarro. Falou ainda que a Suíça tem quatro capitais (Berna, administrativa e a oficial pro resto do mundo; Zurique, financeira; Basel, industrial; e Genebra, política) e contou da imigração portuguesa, espanhola e italiana em três levas, anos 60, 70 e 80, o que faz com que se fale muito português por aqui. O Leo mesmo, de pai espanhol, fala castelhano, português e francês. Brinquei que é por isso que são ricos, o país já é trilíngue e ainda importa mais línguas junto com os trabalhadores. 

Bolamos um no estilo brasileiro (“Brasil NO MIX!”; SEMA, Felipe[4]) e fomos fumando enquanto falávamos de um possível racha no encontro, entre os especifistas[5] e os não-especifistas. Não sabíamos se tinha rolado, mas era uma possibilidade. Tinha gente querendo fazer um encontro paralelo dentro do encontro, bizarro. Passando por Bienne, Leo falou que lá a venda de maconha já foi legal, por vários anos, mas que hoje é legal apenas plantar, mas não secar nem vender. Mesmo assim, ainda rola muita venda, e segundo ele se você perguntar pra qualquer pessoa na rua ela sabe te dizer onde compra e de que tipo. Um pouco mais pra frente, agora com certeza, os Alpes! Leo falou que se a gente quiser pode ir lá um dia, seria louco[6].

A Suíça é um país bem caro e o franco está para o euro na proporção de 1,20 (1 euro vale 1,20 franco suíço). St. Imier fica num vale no meio das montanhas do Jura, na verdade na encosta de uma delas. Nosso medo era estar numa cidadezinha com tudo mega caro e sem poder ir muito longe pra comprar algo mais barato. Leo nos contou que a região tem/teve muita indústria mecânica de precisão, e daí a longa história do movimento anarquista por ali. Ele chutou cerca de 2 mil habitantes pra cidade e disse que por ali o absinto custa o mesmo que uma cerveja (uma dose custa o mesmo que uma lata). No caminho, vimos uma galera brincando com avião de controle remoto e Leo contou também de um grupo no Jura chamado de “bodes” que colocou cimento no trilho do trem pra bloquear a chegada da produção a Berna anos atrás. Falou ainda da destruição repetida de uma estátua alemã construída na região. O governo construía, o povo do Jura arrebentava. Até que desistiram de construir. O Jura é uma região francesa no meio da parte alemã da Suíça, daí os conflitos. De tantos, o Jura acabou conseguindo se libertar administrativamente, e hoje é região autônoma.

Chegamos em St. Imier e a cidade é minúscula. O encontro está dividido em oito lugares diferentes, cinco minutos andando um do outro. Anarquistas e punks por todo lado. Tomamos a cidade, e eu brinquei que se quiséssemos poderíamos ocupar ela inteira. 5 mil habitantes (um pouco mais do que o Leo chutou), e uns 3 mil anarquistas. Quase dobramos a população. Leo nos deixou em frente a Salle du Spetacle, um dos locais do encontro, e ali pegamos um programa e descobrimos que perdemos a palestra do Gabriel Kuhn sobre esporte e anarquismo por conta de duas horas. Merda. Tentamos descobrir onde era o camping e onde fazíamos inscrição e a má vontade dos francófonos com quem não fala francês é ridícula, ainda mais num encontro anarquista. Descobrimos que era no Espace Noir, uma espécie de centro social autogerido de lá, e fomos nos inscrever.

Preço da inscrição? OITO euros. Achamos absurdo, mas pagamos. Depois descobrimos que o camping era no topo da montanha, 400m acima, e que pra chegar lá tinha que pegar o “funiculaire”, tipo um bondinho do Pão de Açúcar. Preço dele? SEIS francos CADA VIAGEM. Só que com a pulseira do encontro, não precisava pagar. OK, os 8 euros faziam sentido agora. Já era hora dos eventos noturnos, shows, esses sim com preço salgado: 8 euros pra ver todos os shows da noite (no máximo três). Deveria ser preço livre, como a comida (a sugestão era também de 8 euros pra comer o dia todo, mas podia não dar nada ou dar pouco se quisesse). Acabamos não entrando em nenhum, e fomos comer. Encontramos com o Wally Rosell, francês que também deu a palestra junto com o Gabriel Kuhn e que escreveu um livro sobre futebol e anarquismo. Ele ficou felizaço de nos ver, perguntou se éramos do Autônomos e quando dissemos que sim abriu um baita sorrisão. Abriu o livro e o que tava lá? Foto do Fora de Jogo[7] com o convite pra Copa América Alternativa[8] traduzido pro francês! Hahaha.

Na fila da comida, ainda conheci um venezuelano gente boa, que se admirou da gente ter vindo do Brasil – ele mora em Gênova. Comemos, comida boa até, e fomos pro funiculaire depois de se despedir do Leo, já noite. Ia ser foda montar a barraca no escuro. Pra piorar, chegamos no funiculaire (impossível não cantar ‘funiculi funiculá’) e já tinha partido o último, agora só dali duas horas. Puxei conversa com uma britânica e uma alemã e elas estavam esperando uma carona morro acima (não sabíamos que dava, se soubéssemos tínhamos pedido pro Leo). Sobraram dois lugares no carro, demos sorte!

Chegando lá em cima, tinha dois campings. Um papel de “safer space” indicava uma tenda onde se pode pedir ajuda em caso de alguma agressão ou ataque sexual. Não vimos chuveiro, só banheiro, e escolhemos o camping menos cheio, mais pra cima da montanha. Péssima idéia: chão duro desgraçado. Ficamos mais de uma hora pra montar a barraca no escuro, só com uma lanterna. O Allan enxerga mal, e a gente não é nenhum escoteiro. Montamos do jeito que deu e pensamos em ir pra junto da galera na fogueira, mas todo mundo tava falando alemão ou francês e resolvemos ir dormir.

Com certeza, a pior noite de toda a viagem. Osso duro no chão, só com um saquinho de dormir, não dá. Ainda mais naquele chão que parecia o Bicudão depois de chover e alguém jogar em cima: aqui tá duro, aqui tá menos duro.

Foi difícil encaixar a bunda em um buraco e a cabeça em outro.


[1] Na Copa do Mundo Alternativa.

[2] Ou não.

[3] Pesquisando na internet, parece que eram sim.

[4] Em 2010, em Bristol, nosso amigo Sema impediu britânicos de colocarem tabaco no baseado com essa frase, que virou piada pra sempre.

[5] O anarquismo especifista é uma corrente anarquista: https://protopia.fandom.com/pt-br/wiki/Especifismo:_A_Pr%C3%A1xis_Anarquista_de_Construir_Movimentos_Sociais_e_Organiza%C3%A7%C3%B5es_Revolucion%C3%A1rias

[6] Não fomos.

[7] Banda formada por cinco jogadores do Autônomos, na época.

[8] Organizamos essa Copa junto com o pessoal do CSAD Che Guevara na Argentina, no começo de 2012. Aqui um relato: https://www.efdeportes.com/efd168/copa-america-alternativa-experiencia-futebolistica.htm. Aqui uma matéria sobre: https://tvuol.uol.com.br/video/autonomos-fc-vence-1-copa-america-alternativa-veja-o-gol-04028C9C3366E0A12326

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