45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 25

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 25 – O poeta Proudhon e a merda na churrasqueira

No camping de baixo dormimos bem melhor, um pouco por estarmos chapados e um pouco pelo chão ter mais grama. Lá rolava café, então depois de tomarmos banho, pegamos um treco pra comer. Por conta das reclamações do mural, vestimos eu a camisa do Palestino[1] e o Allan uma “The wall must fall”, dos anarquistas israelenses contra o muro. Nisso, um maluco com camiseta do Queretaro FC, time do México, veio nos interpelar. Explicamos do Auto, nem tocamos no assunto Palestina (nem ele). Ele era alemão, e de um princípio desconfiado passou a um certo interesse pelo rolê futebol e anarquismo.

Ainda no camping, conversei com o Bob, da fala antifa do dia anterior, sobre o FC United. Ele me mostrou a camisa do FC Kolektivo Victoria, time da cidade dele (Manchester) que segundo ele se pá vai pra Copa do Mundo Alternativa em Bristol. Conhecemos também uma mina holandesa enorme, a Nesca, que tinha acabado de chegar. Tocava violino e tava procurando um companheiro que tocava acordeon e ia tocar com ela durante o encontro. Falei que eu vi um cara tocando acordeon na noite anterior, mas nem sabia onde ele tava. Ela disse que provavelmente era ele. Allan me contou ainda que no banho, um alemão que era nosso vizinho de barraca e tinha nos amado, nos parando em todo canto que encontrava, perguntou pra ele se no Brasil tinha ÁGUA QUENTE. Socorro.

Descido o funiculaire, andamos pelas ruas de St. Imier pra chegar na conferência sobre anarquismo na América Latina. Nesse caminho vi uma bandeira de Portugal numa janela (algumas ruas estavam sendo reconstruídas, provavelmente alguns trabalhadores eram portugueses como disse o Leo), um bar chamado “Pogo Dancing Bar” e o supermercado DENNER[2], hehe. Encontramos os outros cariocas (Beto e Sheila desceram pouco depois da gente) e entramos na conferência. Como eu tinha descoberto na noite anterior que havia internet wi-fi por todo o encontro (inclusive no camping), levei meu notebook, que foi usado por mim, depois Allan, depois Mix. Prestar atenção mesmo, nem rolou muito, até porque o que estava sendo falado era bem introdutório, coisa que no geral já sabíamos. A Mix falou pra gente que os latino-americanos tinham combinado de se encontrar ao meio-dia num dos locais do encontro pra pensar a possibilidade de um encontro latino-americano, então quando deu quinze pra meio-dia resolvemos ir pra lá.

Essa reunião informal era do lado de fora da IFA, sigla pra Internacional das Federações Anarquistas, onde estava rolando um congresso fechado só pra quem era de alguma das federações. Alguns torceram o nariz pra isso, mas eu achei que tava certo, porque se você não faz parte de uma federação, porque raios quer participar de um congresso de federações, onde estão sendo discutidos problemas e dinâmicas internos das próprias federações? De toda forma, aquilo era meio estranho, e em alguns dias haviam conferências que eram abertas a todos. Hoje, por exemplo, 21h, rolaria a conferência que eu mais queria ver: “Geografia e anarquismo, lutas urbanas, lutas rurais, comunalismo e federalismo”. O Rodrigo Rosa, da Biblioteca Terra Livre, participaria da mesa.

Lá pelo meio dia e meia, com o almoço começando a ser servido, chegou todo mundo e começamos a reunião. Um representante da Federação Anarquista Francófona perguntou se podia participar, ficou um debate sobre se sim ou se não, no final ele ficou. Cada um apresentou seu grupo (estavam presentes a Biblioteca Terra Livre e a Casa Mafalda, de SP; o Ativismo ABC, de Santo André; a Federação Libertária da Argentina, de Buenos Aires; a Federação Anarquista Mexicana, de Cidade do México; a Federação Anarquista Uruguaia e também o Espaço A, de Montevidéu; um grupo de estudos chileno que eu esqueci o nome; e a Organização Anarquista Terra e Liberdade, do Rio), todos falaram um pouco de seus projetos, e ficou combinado que na semana da Feira do Livro Anarquista de São Paulo, que será dia 04/11, os grupos tentarão ir a São Paulo conhecer os espaços nossos e reencontrar-se. Nessa reunião, ouvindo o pessoal da FLA e da FAU falar de seus ateneus, fiquei confabulando sobre criarmos o Curso Livre Casa Mafalda[3], e conversei com o Rodrigo Rosa sobre o Congresso Autônomo. Curtimos demais também um dos tiozinhos uruguaios, figuraça, engraçadão.

No meio de tudo isso almoçamos, e logo depois fomos pro funiculaire pra colocar uma roupa, já que de noite sempre esfriava. Antes, porém, passamos na feira de livros pra ver sobre a venda das camisas do Auto, e já tinha vendido TODAS. Ficamos felizaços, mais umas duas pessoas ainda vieram perguntar se tinha mais depois. Combinamos de pegar a grana no dia seguinte e rumamos ao funiculaire. Apesar das recomendações “no dogs, no masters” da organização do evento, tinha cachorro pra cacete em St. Imier, com seus donos o tempo todo. Eles podiam circular por todo lugar, inclusive o funiculaire. Chegamos na barraca, nos vestimos e voltamos, porque ia rolar uma conferência sobre o anarquismo como luta de emancipação social ou de integração ao capitalismo. Corremos pra ela mas chegamos tarde demais: lotado. Vimos então que estava marcado no quadro de atividades pensadas durante o evento um futebol, pras 16h do dia seguinte. Embaixo, a frase “mas não temos bola”. Peguei uma caneta e escrevi, “nós temos a bola, só falta a bomba pra enchê-la”, e saímos convidando todo mundo pra jogar. Nisso conheci um maluco da Macedônia, o Bogoljub, que disse que ia; depois, na fila da janta, conheci o Biko, da Zabalaza[4], organização anarquista da África do Sul que eu já conhecia porque um outro membro, o Jonathan, esteve no Brasil uns anos atrás falando da Copa do Mundo por lá.

A conferência continuava lotada e nem entramos. Do lado da janta, um DJ colocava músicas ao ar livre, com a energia elétrica provida por captadores solares. O Nelson do RJ nos apresentou o Byron, um canadense que já tinha lido sobre a gente e queria trocar idéia. Ele ficou feliz de nos ver e conversou conosco a janta toda, meio que quase entrevistando sobre o Auto e tudo mais. Depois conhecemos o Marquinho, um carioca que mora em Chaves agora e estuda etnomusicologia (ahn!?). O cara já chegou a jogar profissional pelo Flu e outros times pequenos do Rio, jogou na base do Corinthians também e era membro da OATL quando tava morando no Rio. Claro que eu falei do futebol e ele topou – mais tarde falei do Auto e do campeonato e ele chegou até a procurar passagem pra se juntar a nós em Bristol.

Me encaminhando pra lavar os pratos e tentar pegar o final da fala do pessoal do Ativismo ABC sobre educação ou a fala sobre espontaneísmo e anarquismo, vi um grego tomando um pito de uma mina por estar tirando fotos sem perguntar antes se tudo bem. O cara tava bem bravo porque acho que a mina insinuou dele ser um infiltrado, e sei lá, eu pelo menos não trombei ele em nenhum outro lugar, vai saber qual era a dele. Chegamos a pegar a fala do Ativismo no final, sobre a escola moderna, experiência de educação libertária em São Paulo no começo do século XX, mas como prevíamos que a conferência das 21h ia lotar, corremos pra lá.

Claro que não éramos só nós que esperávamos por ela, a sala lotou mesmo. Formaram-se grupos menores pra tradução simultânea em trocentas línguas, e como a Raquel tava lá rolou tradução pro português. O Rodrigo Rosa, que iria falar sobre a relação do Reclus, geógrafo anarquista, com a educação, acabou quase fazendo ponta na mesa, já que ninguém tocou muito nesse assunto. As falas foram legais, embora nem tenham conseguido tocar o tema anunciado no título por completo, porque os debatedores resolveram falar só 5 minutos cada e abrir pra debate. Nisso fiz uma pergunta, que nenhum deles respondeu satisfatoriamente, provavelmente porque eu não soube fazer direito. A Raquel manda muito na tradução, mas o Beto e o Allan quando se juntam viram o Davi e o Sema, impossível, piada o tempo todo. Chegou uma hora que um maluco subiu numa cadeira pra fazer uma pergunta. Ele tava numa pose estilo poeta francês e falava virando o rosto um pouco pra cada lado da sala, com um olhar fulminante, engraçado demais. Falou, falou, falou, no final citou Proudhon e acabou apelidado pelo resto do encontro de Poeta Proudhon. A Raquel sofreu pra traduzir a fala do cara, enquanto todo mundo rolava no chão de dar risada.

Na saída dessa conferência, vi um maluco com uma camisa escrito “A África é o futuro”, e fiquei pensando futuro do quê. Reserva de espaço pro capitalismo? Essa coisa de projetar na África um futuro por conta da marginalidade no sistema me soa bem paternalista, pra dizer o mínimo. Enfim. Saímos causando na rua e fomos até o Espace Noir, onde, conforme havia circulado o boato, os veganos tinham colocado merda de cachorro na churrasqueira pra protestar contra a venda de carne no evento – na verdade, pra protestar contra essa venda sem ter havido debate sobre ela. Rolava ainda outro boato de que o Frank Mintz, um anarquista conhecido europeu, teria levado uma tortada na cara por ter supostamente negociado com a polícia durante uma greve, causando a prisão de alguns anarquistas. No final quem levou a tortada foi outro cara, não ele.

Sem muito o que fazer, fomos pra maconha, hehe. Surgiu um violão e o Marquinho, todo animadão, tocou uns sambas. Apareceu também uma incrível garrafa de FARMER COLA, uma coca-cola feita artesanalmente (nem é tão ruim), e a música passou pra Valeska Popozuda, Michel Teló e La Bamba. Meio tarde já, resolvemos subir no funiculaire da 1h, e de novo fomos cantando brincando com uns italianos, meio que amigos dos nossos amigos, hehe. Um deles ficou de ir jogar bola conosco no dia seguinte. Sentados esperando o funiculaire, ainda encontramos a Luna, da Indonésia, com amigos italianos dela. Um deles começou a cantar meio alto e pronto, lá estávamos nós outra vez tirando uma com o cara, hehehe. Maldito Vanucci[5].

Subimos e dormimos.


[1] Time da comunidade palestina no Chile. https://palestino.cl/en/

[2] Craque do futebol brasileiro, morto precocemente em 1994. https://pt.wikipedia.org/wiki/Dener_Augusto_de_Sousa

[3] Em 2015, acabamos criando na Casa Mafalda o Cursinho Livre da Lapa (CLL), depois de uma tentativa frustrada de curso livre em 2014. O CLL continua existindo.

[4] https://zabalaza.net/

[5] https://www.youtube.com/watch?v=KE8nN90ewlI

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