45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 38

45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia X

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 38 – A vida é um sorteio – e muitas viagens

Dormi num colchão horrível, puta merda. Dava pra sentir as molas no corpo, tava pior que chão de barraca. Acordamos com os lituanos sem noção ouvindo street punk bem alto. Falei pro Paulius se tocar e fui tomar banho, no quarto do Michael que é onde tem banheiro. Ele tava puto, perguntando que porra era aquela, e eu disse que também achava desrespeito. Entrei no banheiro e quando saí ele tinha ligado música no quarto dele pra tentar dormir.

Desci e a música agora era crust. Afternoon Gentleman[1], eles disseram. Gostei, do nome e do som. Terminei de arrumar minha mala e percebi que perdi minha escova de dente. Terei que comprar outra em algum canto. Depois de muita enrolação, saímos do squat e andamos até a estação de trem pra pegar a linha até Victoria, de onde sairia nosso Megabus pra Bristol. Tava difícil de entrar sem pagar, então alguns compraram ticket e o resto entrou atrás. O trem chegou rápido em Victoria, e o clima era um tanto festivo por estar finalmente chegando a hora do campeonato. Dentro do Megabus a coisa não mudou muito, e sentamos Mari, Natália, Allan e eu no mesmo banco de quatro lugares com uma mesinha no meio. Do meio pro fim da viagem dormimos um pouco.

Descemos no Colston Hall em Bristol e eu já senti o cheiro da nostalgia. Lembrava perfeitamente daquilo tudo! Logo de cara já encontramos o resto dos Autônomos, Paulo Júnior, Clasher e Piva, e de cara Clasher e Allan acertaram os ponteiros e espantaram qualquer possibilidade de clima pesado. Reencontramos também Wilf e Simon, do Easton Cowboys, e entramos todos no coach bus que eles alugaram – saiu 2 libras pra cada – em direção a Berrow. Não demorou muito e músicas do Vova e do Auto foram entoadas. No meio do caminho, paramos pra pegar vinte mulheres do time feminino do St. Pauli. Junto com elas – ele é treinador delas – estava quem? Alejandro, o mito, o germano-uruguayo que narrou os jogos em 2010. Logo nos sentamos todos e seguimos pra Berrow, animados pelo que viria. 

No caminho, Clasher soltou essa: Nápoles é tipo o Cambuci com praia, haha. Fiquei com vontade de ir conferir. Numa próxima vez (se tiver), coloco no roteiro. Outras pérolas surgiram conforme o ônibus andava e nos afastávamos da cidade. Fazendas começaram a surgir, campos de trigo, e de repente vimos dois cavalos vestidos. Cavalos com roupa, um vermelho e outro azul. Mal sabíamos que depois da curva seguinte estariam eles: o centro das atividades de um lado da estrada e os campos de futebol do outro. O camping era mais ou menos um quilômetro de lá, um pouco menos, e o ônibus parou no meio dos dois, ou seja, tivemos que andar um pouco. Ao chegar no camping os reencontros começaram a acontecer sem parar.

Qaz, o iraqui-britânico de 60 anos que parece uma criança jogando, e com mais pulmão que todo mundo junto; as Cowgirls, Zoey, Tash, Annie, Harry – que ficou de comprar uma escova de dente e cola pra gente terminar o troféu; Phil, o “Fat Gerrard”; Will Simpson, o homem que escreveu o livro de 20 anos do Easton; Chalky, o sempre carinhoso ala direito; e o nosso Rodrigo Erib, o Valdívia, tomando uma com as Cowgirls. Ficamos ali trocando idéia e esperando Patrick, Sabrina e Manuel chegarem com o resto das nossas coisas, e o Wayne, o mais brasileiros dos Cowboys, pai de Jack Kelly, que ia nos emprestar a barraca. Manuel chegou logo e enquanto o Wayne não vinha ficamos chutando bola, aquecendo as mentes e corpos pro que estava por vir.

A barraca era enorme, pra 8 pessoas. Começamos a tentar montar. Sem chance. Brinquei que precisávamos de um alemão pra entender aquilo. Manuel não se arriscou. Wilf ligou pro dono, ele demorou uma meia hora mas chegou, e aí foi rapidinho: em 15 minutos tava tudo de pé, nossas coisas dentro, e partimos pro espaço central de atividades, com as saudosas tendas de circo, atrás de comida. O evento foi nomeado pelos Cowboys como “Skullduggering by the sea”, um termo fazendo referência aos piratas, e assim tudo tinha algum nome relacionado a piratas, mar, Moby Dick etc. Duas tendas de comida, uma vegana e outra não. A vegana era mantida pelo pessoal do Kebele[2], centro social que conhecemos da outra vez. Compramos um programa do campeonato, com tabela a ser preenchida e tudo, e jantamos por ali mesmo, já pensando no sorteio dos grupos que estava por vir. Na tenda-bar encontramos, junto com o ídolo sagrado Punky Steve, a Mini, basca que tinha ficado lá em casa no começo do ano, e jogamos um pebolim.

Antes do sorteio, na tenda-show, uma coisa que eu sempre quis ver: a ex-banda do Paulius, Pendelis[3], que significa pênalti em lituano. Boa, bem boa. Meio street punk, meio melódico, meio skapunk, tocaram todas as músicas do CD “Tribute to FC Vova”. Me deu saudades do Fora de Jogo e mais vontade ainda de continuar levando o Defensores. Quem sabe ano que vem não somos nós a tocar[4]?

Chegou então a hora do sorteio. Antes dele, Paulius tinha dito que essa era uma oportunidade única de FC Vova e Auto se enfrentarem, e que seria legal cair no mesmo grupo. Eu disse que era melhor na final. Conforme Tom, o pirata, ia atirando balas de canhão que eram devolvidas a ele e de dentro saíam os nomes dos times, a apreensão dos pequenos grupos que concentravam a “delegação” de cada time aumentava. Seriam 20 times, quatro grupos de cinco, mas três deles não vieram. Assim, um grupo teria cinco times, os outros quatro. O FC Vova entrou como cabeça de chave do grupo C. Pensamos, seria legal se caíssemos no C também. Quando a segunda bola do grupo foi aberta e Tom leu pausadamente “Autônomos FC”, parecia mentira, perfeito demais. Gritamos em uníssono, Auto mais ao centro da tenda, Vova mais pra direita do palco. Gritamos, pulamos, celebramos a chance de jogar contra nossos irmãos lituanos, naquele que seria o primeiro jogo de um clássico há muito escrito e jamais disputado. Busquei o Paulius e quase demos um beijo na boca de felicidade. Brinquei que empataríamos e classificaríamos ambos depois.

Depois do sorteio tocou o Spanner[5], banda que mistura ska com hardcore, altamente politizada, membros do Kebele, muito boa. Enquanto tocavam, a gente bebia. Conforme ficava bêbado, Paulius dizia que talvez não fosse bom jogarmos contra, que não queria me machucar, que não ia ser de propósito. Pedia desculpas antecipadamente. Eu ria. Prometi a ele que seria tudo animal e ninguém sairia machucado. Repeti que empataríamos e classificaríamos os dois. Depois de um tempo, cansados e ansiosos – nosso jogo seria o de abertura no campo 2, às 10h da manhã -, fomos dormir, todos e todas do Auto. Quer dizer, quase todas, mas isso não vem ao caso agora.

Enfiei a cabeça dentro do sleeping bag e tentei fechar os olhos. Foi difícil. Em parte por conta do chão duro, mas principalmente pela ansiedade. Eu estava de novo do outro lado do oceano Atlântico celebrando o futebol de todos e para todos, e jogaria contra meu melhor amigo, contra o time dele que eu aprendi a tomar como meu também[6], Vova desde que descobri a existência.

No quarto do lado, e em outras barracas do camping, eu sabia: não era o único que naquela noite dormiria quase nada. Estava chegando a hora.


[1] https://theafternoongentlemen.bandcamp.com/

[2] https://network23.org/kebele2/

[3] https://soundcloud.com/pendelis

[4] Não rolou, mas do Defensores surgiu a Fracasso: https://fracasso.bandcamp.com/releases

[5] https://spanner.bandcamp.com/track/punk-as-fuck

[6] Em 2013, passei três meses na Lituânia, jogando pelo FC Vova.

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