45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 39

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 39 – Vinte e quatro de agosto de dois mil e doze

Não sei dizer se acordei ou parei de tentar fingir que dava pra dormir. Só sei que levantei junto com todos os que vestiriam rubro-negro, de um lado ou de outro[1], e fui pra tenda do Kebele tomar café. Café da mamãe, que tinha morango, cereais e todas as coisas que dona Célia adora. Comemos e corremos pro campo, e o FC Vova já estava todo lá, trocadinho, mesmo os mais bêbados ligados e fazendo um bobinho. Brinquei que era um absurdo eles estarem se aquecendo e que aquilo era uma desonra pra história do Vova, pra tirar um pouco o peso, e fui junto com os outros do Auto me trocar no vestiário.

Voltamos e o jogo já estava um pouco atrasado. Aos poucos os que iriam completar nosso quadro foram chegando, menos Téo, do Pelada da Esquerda, que chegara no aeroporto de Bristol 8h15 e ainda estava no caminho. Alinhamos com Ted, do Republica Internationale, time de York, Inglaterra, improvisado no gol; Allan, Qaz improvisado, Piva e Jack Kelly, nosso ala-esquerda cowboy rápido e habilidoso; Mandioca, Paulo Júnior, Gabriel e Phil, o Fat Gerrard; Valdívia e Clasher. Éramos 11 contados, sem reserva nenhum. O juiz chamou os capitães, Paulius e eu, e perguntou se já nos conhecíamos. Dissemos que na verdade éramos marido e marido e demos um selinho. Tiramos o cara ou coroa e a bola, além da incumbência de bandeirar o jogo seguinte, ficou conosco. 

Quando o apito soou, a dor no meu tornozelo desapareceu. Era futebol, era Mundial e era Autônomos x Vova. Era muito mais do que eu tinha sequer sonhado na minha adolescência de devaneios futebolísticos. Começamos bem o jogo e na jogada mais manjada do Auto, Paulo Júnior lançou Valdívia nas costas da zaga pra tirar do ótimo Oleg e fazer 1 a 0. Começamos bem, mas o Vova tinha dois ótimos meio campistas, um atacante veloz e brigador e ainda Patrick, o Infinito, jogando emprestado do Kampfende Lunas[2] pro Vova. Com a zaga mal posicionada e Qaz improvisado por ali, tomamos 3 gols iguais: enfiada nas costas pro atacante fechar da ponta pro meio sem chances pro nosso goleiro. Oleg ainda salvou uma cabeçada certeira de Piva e terminou o primeiro tempo.

Confesso que no intervalo eu estava meio pessimista. Eram apenas dois tempos de 20 e seria foda fazer 3 ou 4 gols. Mas Phil disse pra gente se acalmar e, no segundo tempo, com Piva cobrindo Qaz e a gente apertando mais na frente e no meio, as chances foram surgindo. Em bela jogada, Paulo Júnior engoliu Paulius pra lá e pra cá e quando ia finalizar viu Valdívia roubar seu gol e diminuir pro Auto. Aumentamos a pressão e Oleg fez pelo menos duas defesas sensacionais, uma em chute de Jack Kelly e outra em chute de Valdívia. Quando o jogo caminhava pro fim, falta mais ou menos perto. Peguei pra bater, Paulo Júnior também, mas Qaz, que se sentia culpado pelos gols no primeiro tempo, pediu a bola e disse “let me score a goal for Autônomos”. Lembrei de que alguém, no dia anterior, me disse que ele era ótimo batedor de pênaltis, virei pro Paulo e falei: deixa, é a mística. Não deu outra. Bola na área, Paulius deu condição e Clasher, de costas pro gol, se agachou pra desviar e empatar o clássico. Comemoramos como loucos.

Ainda deu tempo de um susto: escanteio pro Vova, fui tirar a bola no primeiro pau e Qaz me acertou em cheio na batata da perna, a mesma do tornozelo inchado. Achei que a bola tinha batido em mim e entrado contra, mas pra minha sorte não, então fiquei só com a dor que me acompanharia pro resto do campeonato. Pouco depois o jogo terminou e eu disse pro Paulius que era a minha previsão se confirmando, empate e depois classificação dos dois. Corri junto com o Vova e agradeci a torcida deles, bêbados malucos que cantaram sem parar – e sem nos desrespeitar. É possível que esse tenha sido o maior jogo da minha vida. O tempo dirá[3].

Como nosso segundo jogo seria contra um dos times que não vieram, só iríamos jogar de novo no dia seguinte. Aproveitei e joguei pelo Kampfende Lunas, mistura de Kampfende Herzen com Lunatics. Joguei de centre midfielder, que seria o nosso volante mas no futebol europeu acaba sendo mais um meia. Depois de um jogo com poucas chances e duas bolas na trave – a nossa numa linda bicicleta de Rodrigo Erib, que tirou suspiros da torcida – fiz no final uma boa jogada de ponta esquerda, cortei pra dentro e cruzei na cabeça de Patrick. O artilheiro, que normalmente não perde, errou feio, e a bola foi até pra trás, pra desespero dele pelos próximos 5 minutos. O jogo terminou 0 a 0. Em seguida, Paulius me chamou pra jogar pelo Vova, contra o Red Star Bedminster, time que enfrentaríamos no dia seguinte. Fui left wing, o meia-esquerda aberto deles. Depois de tomar 1 a 0, conseguimos virar pra 2 a 1, e comemorei como se fosse vitória do meu time, que no final acaba sendo também. Depois de jogar pelo Vova na Lituânia em 2010, com torcida e tudo, me sinto mais do que feliz e no meu lugar jogando pra eles de novo. Ainda quase marquei um gol, salvo primeiro pelo zagueiro e depois pelo goleiro. O time do Vova é forte fisicamente, seguro atrás e veloz na frente, vai dar trabalho.

Três jogos no dia tava de bom tamanho, então fui almoçar com os outros Autos. No almoço Allan engrandeceu ainda mais sua coleção de frases falando sobre uma ponte subterrânea, que no final concluímos ser nada menos que um túnel. Seguimos pras barracas pra pegar toalhas e tomar banho e no meio do caminho quem apareceu? Luisinho! O mito que inventamos pra sacanear Rodrigo Erib, o jogador de mentira que atua na mesma posição dele enquanto ele tá na Europa, agora existe! É André Luís, amigo de trabalho do Toro, um moleque gente boa que chegou com a namorada, loirinho, cabeludo. Dissemos que só jogaríamos de novo no dia seguinte, 11h30, e ele desapareceu novamente.

Voltamos pro camping pelo caminho de sempre, tirando uma com a suposta rua que serviria de atalho que Rodrigo Erib disse ter pegado no dia anterior e que simplesmente não existia, apesar da teimosia dele. Pegamos a toalha e todo o necessário pra noite, que seria fria de novo (em toda a viagem só fez frio mesmo no alto da montanha em St. Imier e agora na Inglaterra), e voltamos pro vestiário pra tomar banho. No caminho encontramos a Zoey que nos pediu ajuda pra carregar algo pro vestiário do time dono dos campos, o Berrow FC, e o vestiário deles era pique profissional mesmo, com lousa pra desenhar jogada e tudo. Depois do banho, estava montada a tenda de venda de produtos dos times, e fomos lá com a idéia de colocar os nossos. Mas já estavam pra fechar, então só deu tempo de reservar uma cópia do livro do Easton pra pagar no dia seguinte. Saímos de lá e fomos pro debate sobre futebol contra o muro na Palestina.

Esse debate, tocado pelo Will, outros Cowboys e gente do Republica Internationale, que foram pra Palestina, aconteceu enquanto jantávamos e foi na tenda-refeitório. O tema era o muro que Israel constrói aos poucos pra isolar os palestinos e as atividades desenvolvidas pelos Cowboys e pelo Republica por lá, incluindo o Banksy[4], que já jogou pelos cowboys e fez, na primeira viagem deles pra lá, grafites no muro que ainda estão lá. Eles citaram um documentário chamado Goal Dreams[5], que preciso buscar, e de novo falamos de anti-deutsch e as pirações alemãs. Felizmente os alemães presentes eram mentalmente saudáveis e contra o muro. Um cara do The Yard falou também de sua experiência por lá junto com a ONG Football Beyond Borders e disse que estava indo pro Brasil “jogar com os índios” em Natal dentro de duas semanas. Troquei uma idéia com ele sobre isso depois.

Depois disso tocaram duas bandas muito boas, uma de folk com contrabaixo acústico que o Lipe teria adorado, e outra maluca misturando violino, sax, bateria e música eletrônica, bem interessante. Reencontrei o Quim, português que vive em Bristol e é produtor de shows, e peguei gelo pra colocar no tornozelo. Sentei pra fazer gelo e lá fora o FC Vova causava, cantando suas músicas por todo lado. Entramos na onda e cantamos junto. Começou então uma baladinha na tenda de cocktails e eu reencontrei a Chiquinha[6], que perguntou pelo Leandro. Depois fiquei trocando idéia com a Mini sobre a pesquisa dela com grupos indígenas sul-americanos e me divertindo com o Qaz dançando e, cena rara, Punky Steve também! De repente o FC Vova tomou conta do ambiente de novo, copando tudo, e eu saí e ouvi do lado de fora gente comentando meio descrente, meio achando muito louco que “the vovans are crazy”, e imitando eles, haha. Tá explicada a regra 9 do camping, que diz que se você for do FC Vova ou tiver hábitos noturnos similares, fique longe da área do camping reservada para famílias. Ainda rolou um “We all live in the Casa Mafalda[7]” encabeçado pelo Punky e resolvemos ir dormir, que no dia seguinte teríamos dois jogos. De novo as Autônomas não dormiram na barraca, hehehe. 

Deitei, dessa vez mais cansado, por conta do dia intenso, da cerveja e da maconha, e pensei: inesquecível esse dia 24 de agosto de 2012. Celebrarei essa data daqui por diante.


[1] Tanto o Autônomos quanto o FC Vova são rubro-negro.

[2] Mistura do Kampfende Herzen, de Freiburg, com o Lunatics, da Bélgica. No Mundial Alternativo você pode jogar pra quantos times quiser – ou aguentar.

[3] Não foi, mas por motivos que serão descobertos nos próximos dias deste diário.

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Banksy

[5] https://www.idfa.nl/en/film/f6f50f92-7e3f-4317-8767-25415cf78db6/goal-dreams?gclid=Cj0KCQjw2PP1BRCiARIsAEqv-pQ3bDMwmLbWhR7g2FEyuMoeV48Ym191ydaczfjehnQ4Z2QDOGWedhwaAhhSEALw_wcB

[6] Uma das Easton Cowgirls que apelidamos assim em 2010 por conta do Chaves.

[7] No ritmo de “We all live in a yellow submarine”, dos Beatles.

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