45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 40

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 40 – Da beleza de se classificar no último segundo

Dessa vez fui mais esperto ao sair do camping: já levei toalha e roupa, e o troféu, mas esqueci a cola que a Harry tinha comprado pra mim junto com a escova de dente – uma fofa ela. Fomos tomar café e nos preparar pro nosso jogo, que era o segundo do dia, contra o Kolektivo Hebton Bridge (junção de dois times, Kolektivo Victoria e Hebton Bridge), e podia encaminhar bem a nossa classificação. Como havia três times a menos no campeonato, a tabela foi refeita pra esse dia, e cada jogo teria dois tempos de 25 minutos ao invés de 20. No dia anterior, o Red Star Bedminster tinha ganhado do Kolektivo Hebton Bridge por 3 a 1, e o grupo estava assim:

1o – FC Vova – 4 pts, 2 jogos, 1v, 1e, 0d; 5gp, 4gc, sg: 1

2o – Red Star Bedminster – 3pts, 2 jogos, 1v, 0e, 1d; 4gp, 3gc, sg: 1

3o – Auto – 1 pt, 1 jogo, 0v, 1e, 0d; 3gp, 3g, sg: 0

4o – Kolektivo HB – 0 pt, 1 jogo, 0v, 0e, 1d; 1gp, 3gc, sg: -2

Sendo: v = vitória, e = empate, d = derrota, gp = gols pró, gc = gols contra, sg = saldo de gols. Assim, uma vitória nossa nos colocava ao lado do FC Vova, eliminava o Kolektivo e nos permitia jogar pelo empate contra o Red Star Bedminster. Tínhamos mais jogadores – Téo tinha chego, Luisinho, Jack Daniells, ótimo zagueiro do Easton, poderia jogar na zaga pra gente, Oleg no gol – e escalamos o time com Oleg; Allan, Jack Daniells, Piva e Jack Kelly; Mandioca, Paulo Júnior, Téo e Phil; Valdívia e Clasher. No banco, Qaz, Gabriel e Luisinho. O time do Kolektivo tinha Patrick, que jogou SEIS jogos no dia anterior por times diferentes (assim como o Qaz), mas era bem desmontado, com apenas 5 jogadores e o resto emprestado. Dominamos o primeiro tempo e abrimos 1 a 0 com Gabriel, que entrou aos 10 no lugar do Téo, em belo passe do Valdívia nas costas da zaga. Entrou na área e tocou no canto, na saída do goleiro. Apesar do nosso domínio, o Kolektivo assustava às vezes, e numa dessas proporcionou à Oleg escrever seu nome na história rubronegra: a la Rodolfo Rodriguez, no mesmo lance, fez TRÊS defesas monstruosas à queima-roupa, a última saindo com a cara e a coragem nos pés do Patrick. Isso nos permitiu ir pro intervalo com alguma calma.

Na volta, cadenciamos mais o jogo, não sofremos sustos e liquidamos a fatura, primeiro em bela jogada de Valdívia pela esquerda, que cruzou pra trás pra Paulo Júnior fuzilar da marca do pênalti, e depois em cruzamento que Clasher escorou, virou sobre o zagueiro, chutou e, antes da bola entrar, meio Tupãzinho, meio Viola, Piva, contundido, completou pra dentro, de carrinho, e saiu comemorando como louco. Luisinho, que entrou no segundo tempo, mostrou ser rápido e habilidoso, criou várias chances e fez Piva e eu acreditarmos que era mesmo a mística esse moleque ter aparecido e jogar tudo isso. Vitória garantida, assumimos a liderança e agora era torcer pro empate – improvável – entre FC Vova e Kolektivo. Mesmo com dor no tornozelo, inchado, e na batata da perna, ainda joguei um tempo pro Kampfende Lunas antes de fazer gelo na ambulância que ficava ao lado dos campos. Gente boa demais os enfermeiros, e o “gelo” era na verdade um saco que quando agitado ficava gelado e funcionava muito bem por 15 minutos, depois perdia o efeito. Tempo suficiente pra melhorar muito a dor, e eu fiquei encucado sobre o que tinha naqueles saquinhos. O Kampfende Lunas perdeu pro Wessex All Stars, time muito forte, de apenas 3 a 2, dois gols do Téo pro Kampfende.

Pouco antes de começar o jogo do Vova, fui almoçar. Voltei a tempo do segundo tempo, e espantosamente o resultado final foi 1 a 1. Com isso, um empate com o Red Star Bedminster não só nos classificava como nos deixava em primeiro do grupo; por outro lado, perder significava a desclassificação. Havia ainda um jogo antes do nosso, e nesse meio tempo nos concentramos. Piva não jogaria por conta da dor, eu jogaria mesmo com ela. Oleg, exausto por ter jogado três jogos na sequência, estava fora. Veio Angelo, que no dia anterior tinha feito uma defesa monstruosa pelo Easton Cowboys, impressionante mesmo. Ele já jogou conosco no Brasil, muito bom goleiro. Dave, bom zagueiro, também do Easton, faria a zaga pra gente junto com Jack Daniells. Escalamos com: Angelo; Allan, Jack Daniells, Dave e Jack Kelly; Mandioca, Paulo Júnior, Luisinho e Gabriel; Valdívia e Clasher.

Antes do apito inicial, demos ao Red Star uma camisa do Auto com dedicatória, retribuindo a bola que nos foi regalada em 2010. Com a bola rolando, ao contrário dos outros jogos, começamos mal. Desarrumados atrás, meio lentos, eu sentia o calcanhar, as pernas mais lentas que o cérebro. Nisso, numa bola espirrada, um problema de linguagem nos custou o gol. A bola sobrou pro Allan, Jack Daniells gritou “clear!” pra ele tirar ela de qualquer jeito e ele entendeu que Jack tava pedindo a bola. Foi passar, a bola foi interceptada e o placar aberto. Tratamos de levantar a cabeça do Allan e da zaga e fomos pro jogo, mas o time do Red Star Bedminster jogava o mais puro futebol inglês: defesa sólida e bola longa nas costas da zaga pro contra-ataque. Sem inspiração e errando muitos passes, fomos pro intervalo perdendo.

No meio-tempo, conversamos pra tentar arrumar. Frustrado pela dor, dei lugar pro Phil de volante. Jack Kelly e Luisinho, que estavam se complicando no posicionamento, o primeiro adiantado demais e o segundo avançado de menos, tentaram se arrumar. Clasher saiu pra entrada de Téo no ataque. Mas voltamos sem conseguir furar a retranca do Red Star, espécie de Democrata, time que joga contra o Auto no Bicudão, versão inglesa. Ainda faziam cera, demoravam pra cobrar tudo, faziam substituição toda hora. Tipicamente su-americanos, só que ingleses. Pode isso, Arnaldo? Do lado de fora, Alejandro, que tinha filmado todo o segundo tempo do nosso 3 a 0 e filmava esse jogo desde o começo, se dividia entre narrar o jogo pra câmera e falar comigo pra voltar no lugar do Phil, que “esse gordinho tá fodendo o time”. Mas eu estava sem forças e com dor, e Phil, mesmo errando muitos passes e um pouco nervoso, entrou vibrando, brigando por todas as bolas, gritando, fazendo faltas. Tava dando ânimo pro time. Então, Allan, percebendo que pouco fazia no jogo, pediu pra sair, dizendo pra eu entrar que era mais ofensivo. Entrei, meio sem forças, e tentei fechar atrás e aparecer na frente, mas a gente errava passe atrás de passe. Errava, recuperava a bola, errava de novo. Nervosismo. Clasher voltou no lugar de Téo. Escanteio, Paulo Júnior bate pra fora. Novo escanteio, dessa vez ele bate no segundo pau, ninguém. O juiz avisa que faltam 2 minutos. Tentamos e tentamos. Lá atrás, Angelo, machucado das pernas, não consegue chutar, o que atrasa ainda mais nosso tiro de meta. Último minuto, conseguimos um escanteio. Último lance, provavelmente. Todos pra área, menos eu e Angelo. Paulo Júnior cobra, alto, o vento leva a bola, faz ela cair no travessão! Fica viva dentro da área, alguém chuta, não consigo ver quem, a bola bate no zagueiro e… estufa a lateral da rede! É gol! Gol! GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!

Loucura em campo e fora, alguns Vova invadem pra celebrar junto. O Red Star dá a saída, tenta algo, mas não dá mais tempo de nada: Manuel encerra o jogo, Auto classificado no último lance! VAMOOO VAMOOO… loucura, descontrole, caralho, que sensação foda empatar no último lance! O Red Star não acredita, merecia ter levado até, mas falou mais alto a nossa mística, de novo. Lembrei de estar na situação oposta meses atrás em Osasco[1]. Dessa vez não. Estávamos dentro, porra! Com dor e tudo, que se foda! Descubro que quem chutou foi o Gabriel, e ele brinca que um marxista classificou o Auto, hahaha. Depois disso, fui fazer gelo na ambulância, feliz pra caceto, e tomar banho, ainda feliz pra cacete. Na saída do banho, último jogo do grupo A, o grupo da morte com três times muito fortes (Easton Cowboys principal, The Yard, time inglês bem forte, e Kilchon, time escocês novo na competição que classificou em primeiro ganhando todas), de onde sairia nosso adversário nas quartas. Surpresa: quem classifica em segundo é o Bristol Refugees Rights, time que veio só com um jogador e virou na verdade outro time formado por Cowboys e treinado pelo Jesse, contundido, que era pra estar jogando pra gente. Ao saber do cruzamento, animamos um pouco por ser um time a princípio menos organizado, e ao mesmo tempo desgostamos por ser o time do Jesse, assim como ele por sermos nós. E fomos jantar. O Vova, em segundo, pegaria o Kilchoan. Pedreira.

Durante a janta, rolou um debate sobre homofobia e futebol, bastante prejudicado pelo barulho e, no meu caso, pela dificuldade em entender o inglês britânico falado rápido demais. Mas deu pra trocar uma boa idéia sobre futebol, gênero e sexualidade, e falar dos casos pelo mundo de jogadores assumidos e dos exemplos dos clubes amadores como os nossos. Quando terminou, troquei uma idéia com Alejandro, que nos deu a dica de jogar no 4-1-4-1, comigo à frente da linha de quatro da zaga, os dois caras mais altos pelo meio pra brigar pelos tiros de meta, dois meias rápidos abertos e um centroavante. Guardei a idéia pro dia seguinte e fui falar com o resto sobre ela e sobre o que faríamos no show de talentos no palco principal, qual seria nosso ato[2]. A princípio cantaríamos o Vamo Vamo, mas a maioria deu pra trás, então bolamos outra coisa, com Allan e eu participando.

Seríamos os últimos, e antes disso encontrei Kim, a Cowgirl, e Jojo, sua cachorrinha-mito por levar das boladas em 2010. Fiquei conversando com alguns Vovans, felizes por termos classificado ambos, entre eles Za, bêbado, que chamou Wilf, cujo moicano está pintado nas cores da bandeira da Lituânia, de “parrot guy”, hahaha. Chegou nossa vez de fazer o ato e fomos lá: falamos do Auto, da Mafalda e depois dissemos que, como todos sabiam, os brasileiros eram os melhores futebolistas do universo, e que iríamos demonstrar toda a nossa técnica. Enquanto isso Allan alongava no palco. Joguei uma bola pra ele, que tentou chutar, errou e caiu (era esse o combinado). Falei “Thank you” e saímos do palco. Não foi um grande sucesso, e ao andar pela prancha pra sair do palco (lembrem-se, tudo estava relacionado à pirataria), tanto eu quanto ele ganhamos beliscões na bunda, haha. 

Pra minha surpresa, os atos estavam bastante lotados, mas como o palco era bem baixo não dava pra ver muito. Antes de sairmos, descolei duas placas de espuma pra servir de colchão na hora de dormir. Nessa hora me veio uma coisa: porra, o Luisinho é o Saldiva que deu certo, haha. Falei isso pro Allan e ele riu um monte. Então fomos dormir, porque o dia seguinte seria pesado: quartas de final (talvez tendo que jogar pelo Vova também), sem Piva, sem Jack Daniells, eu baleado, o resto também cansado que nosso preparo físico é bem pior que o dos outros times, que costumam treinar durante a semana. Mas foda-se, era Auto, era Vova, poderíamos chegar ambos na final, tínhamos que nos superar. Paulius parou de beber logo depois do 1 a 1 do Vova, e disse que ia jogar pra gente também.

Capotamos, dessa vez com colchão improvisado. O dia seguinte era da de final de Copa do Mundo. Estaríamos nela?


[1] Quando perdemos um jogo com um gol no último lance de um time beeeem melhor que o nosso.

[2] Todos os times apresentariam algo.

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