45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 43

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 43 – Re-conhecendo Bristol

Acordo e lá embaixo João assiste na TV pela internet, qualidade impecável, Atlético de Madrid x Athletic Bilbao. Reprise do dia anterior. Estamos preguiçosos e lamentosos, vendo fotos no Facebook dos dias do campeonato. Paulo Júnior já está em casa, e conversamos sobre escrever um jornalizinho do Auto, contar da Copa, escrever pro Impedimento. Pensamos que esse uniforme do Vova merece ser o uniforme dois do Auto. Idéia do Piva, listras negras e brancas contra o racismo, na horizontal pra simbolizar a horizontalidade das decisões, número e símbolo em vermelho. Vai ficar foda. Assunto pra tratar com o resto do time. Briso também em fazer faixas das parcerias, Auto-Vova, Auto-Easton, Auto-Che. Piva relembra a história do vômito enquadrado de Regi. Assim como em 2010, histórias repercutirão por muito tempo. Talvez pra sempre. Virarão mitos, marcos, referências na história autônoma.

De tarde, resolvemos sair, dar uma volta por Bristol pra quem não conhece conhecer e quem já conhece relembrar. A primeira parada é no Kebele, centro social, onde ficamos algum tempo vendo tudo, compramos livros e bottons. A biblioteca deles é muito foda, tem Paulo Freire traduzido, seção de ciências, seção de marxismo. Rola também uma sala de terapia/farmácia, com remédios feitos de ervas naturais. Inspirações mil pra Mafalda. Jesse aparece com camisas de presente pro pessoal em São Paulo, de times diversos. Não são muitas, algumas ele destina pra pessoas específicas, as outras a gente vê depois na hora.

Saímos do Kebele em direção ao restaurante onde Chalky trabalha. Lá rolaria de comer com ele servindo um prato bem servido. No caminho, passamos pelo que talvez tenha sido a coisa mais bizarra de toda essa viagem: uma ex-igreja transformada em centro de escalada. É o Bristol Climbing Centre, onde você paga pra praticar escalada pelas paredes, todas elas revestidas com aqueles bloquinhos típicos de quem faz escalada. Ainda dá pra ver, no alto, os vitrais da igreja. Clasher tira fotos divertidas.

Depois, passamos por um jardim comunitário, onde começa a chover. É verão inglês, sempre começa a chover. Depois pára, depois começa de novo. Ao lado do jardim há um criadouro de porcos. Interagimos um pouco com eles. Estamos no bairro de Montpelier, vizinho de Easton – não, não é Montpellier na França. Nele encontramos o Albany Park, espécie de praça onde rolam festivais e sound systems. Fico curioso pra visitar um dia. Depois chegamos ao Mike Pike, squat onde rolam festas. Está fechado. Fica já a poucos metros de Stokes Croft, lugar onde rolaram as revoltas de 2011 em Bristol[1], onde fica o restaurante em que Chalky trabalha – além de muitas outras casas e coisas interessantes. Alguns grafites do Banksy estão nessa rua.

Entramos no restaurante, chamado The Social, e vamos cumprimentar o Chalky. Tem alguns livros pra ler, pego uma autobiografia do Paul Gascoigne, meu ídolo na adolescência, e um Guiness Book do futebol. Começo a ler o livro do Gazza[2] e porra, é um gênio, louco, demente. Já fez tanta merda que deu vontade de comprar o livro pra terminar depois. Jesse me conta que uns anos atrás, um cara saiu da prisão, matou a ex, o novo namorado dela e baleou uma amiga. Fugiu e por dez dias a polícia não conseguia encontrá-lo, a mídia só falava disso. De repente encurralaram ele numa casa na floresta, e se armou o circo, helicóptero passando ao vivo, polícia negociando rendição. No meio disso, quem aparece do nada? Gascoigne, com um pacote de frango frito e uma garrafa de cerveja. A mídia se assusta e pergunta o que ele está fazendo ali. Ele responde que só quer entregar o frango e a cerveja pro cara, nada mais. Completamente maluco. Claro que a polícia não permitiu. No final, o fugitivo se matou.

A comida é cara e resolvemos dividir, acreditando que o Chalky vai poder nos servir bem. Mas ele não pode e comemos bem pouco, apesar de ser um rango delicioso. Batata, cogumelos, salsicha de vegetais, bom pra cacete. Saímos do restaurante e pra completar a alimentação pedimos uma pizza marguerita na kebaberia/pizzaria ao lado, que tem na parede um desenho insólito de um kebabinho abraçando um chapéu de cozinheiro com rosto que parece mais uma pipoca. Isso, ao lado do Reggae Reggae Tomato Catchup que tinha no The Social, renderam boas risadas.

Resolvemos voltar pra casa do Wilf por St. Pauls, bairro onde fica o The Factory. Passamos em frente a ele e paramos pra observar, meio nostálgicos. A porta está cimentada e no cimento há um pixo contra a gentrificação. Fiquei ali olhando e lembrando do Luquera entrando pela janela, o Sema chegando de madrugada. Caralho, história viva é outra coisa. Seguimos caminho e Natália e Allan não páram de cantar, cacete. Só música merda, pra ajudar. Nissim Ourfali, funk ruim, que falta de saudade do Brasil, viu. Quando chegamos no Wilf, finalmente eles tem que fazer silêncio, porque Manuel está dormindo. Resolvemos passar no The Plough de novo pra se despedir. Lá encontramos Peace, ex-Chaz, e também o Punky Steve. Noto que há adesivos do FC Vova por todo o bar. Os caras trouxeram muitos adesivos e colaram em todo canto imaginável pela viagem toda.

Pra terminar a sessão nostalgia, vamos até o posto de gasolina/kebaberia/pizzaria onde trabalha Raj, o “Sri Lanka”[3]. Comemos um hambúrguer com fritas e coca por 3,25 (em 2010 era 2,49) e fomos falar com ele, que lembrou da gente, abriu um sorrisão e concordou em tirar uma foto conosco. Essa foto, com certeza, é a mais pesada da viagem. Falei pra ele que a gente joga com a bandeira do Sri Lanka na grade e os olhos dele brilharam de felicidade. Os nossos também. Ficamos ali conversando sobre o Auto, coisas que pensamos, que precisamos conversar em São Paulo, e voltamos pra casa do Wilf. Antes de dormir, fecho a mala e deixo ela prontinha pra sair de manhã. Jesse se despede e diz que passa amanhã 9h30 pra ir conosco até o Megabus. Tá pra existir lugar com mais gente foda do que Bristol.

Mais uma vez, roubo um pedaço do colchão do Clashito lá em cima. É a última vez. Pelo menos por enquanto.


[1] https://www.theguardian.com/uk/2011/apr/22/bristol-riot-police-injured

[2] Apelido de Paul Gascoigne.

[3] Imigrante que conhecemos em 2010 e que rendeu ótimas histórias.

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