45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 44

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 44 – O dia em que Allan rodou

Conforme combinado, às 9h30 Jesse chega. Pra nossa surpresa, de van, emprestada do Simon. Facilita bastante a nossa vida, as malas estão pesadas. Vamos conversando e nos sentindo sempre em risco de morte por conta da mão inglesa, hehe, e Jesse confirma que vai pra Argentina “haja o que hajar”. Fico feliz com isso, o dublê de Tom Cruise bom de bola pela ponta esquerda voltará ao Brasil. Entramos no Megabus às 10h30 e dormimos bastante, acordando já em Londres, curiosamente em frente à Tite Street, escrito assim mesmo, T-I-T-E.

Descemos na estação Victoria, lotada, e conseguimos entrar no metrô sem pagar. Em Londres dá mais medo que em outros lugares, medo que no final do dia se tornará palpável, vocês verão. O combinado era ir pra casa da Rê, em Archway, então rumamos pra lá e quando chegamos, tento mandar SMS achando que ainda tenho crédito no celular, mas não rola: uma SMS custa 0,10, eu tenho 0,08. Uso o orelhão público, que me rouba 2 libras, mas consigo falar com ela, que vem nos buscar no metrô.

No caminho da casa dela, desgraçadamente subida, perguntamos se o estádio do Arsenal é longe, já que vimos placas indicativas. Ela diz que não, mas custa 17 libras pra entrar, então desencanamos. Na esquina da rua dela, um casamento srilankês acontece, com muita festa e comida. Temos fome, mas Rê, mais uma dessas pessoas foda que é sempre bom ter por perto, já tava com o almoço quase pronto: arroz, FEIJÃO (viva!) e almôndegas de soja, deliciosas. Depois de comer, planejamos nossa ida ao aeroporto e compramos com o cartão dela – o meu bloqueou misteriosamente – o bus pra Stansted. Sairia 3h45 da manhã, e  a gente poderia pegar até o ponto de saída um night bus às 2h40. Tudo certo, ela tem que ir trabalhar, a gente quer ir pra Camden Town. 

É um belo rolê até lá, uns 40 minutos andando. Pela primeira vez em toda a Europa, vejo um pet shop. Por todo lado, propagandas das Paraolimpíadas espalhadas. Começam hoje, e espera-se trânsito pela cidade. Chegando em Camden Town, já tarde, algumas lojinhas estão fechando. Allan quer conseguir um presente pro amigo dele que vai buscá-lo no aeroporto, eu ainda penso em comprar algumas coisas. Numa das muitas lojas, ele tenta manguear um pipe embaixo da manga. Um dos caras da loja percebe e, quando estamos pra sair, puxa ele pelo braço. Eu, que não sabia que ele tava tentando manguear, não entendo nada. O cara ameaça bater nele, ele quer devolver o pipe, o cara diz que não e que agora era 25 libras (já tinha oferecido antes por 10), eu tenho 5 libras no bolso, penso em intervir. Antes disso Allan tira 50 euros da carteira e diz que é tudo que tem, o cara pega os 50 euros, dá o pipe pra ele e devolve 15 libras de troco. Fazendo a conversão, deu 25 libras mais ou menos. Saímos de lá, Allan branco, eu meio alerta, meio querendo rir, e daí até o final do dia é só disso que ele consegue conversar. É a primeira vez que rodou. Eu disse, Londres é outra pegada, não é Suécia nem Alemanha. Já eram suas economias, guardadas pra comprar whisky no duty free e revender em São Paulo. Acontece. 

Continuamos andando pelo bairro, entramos na loja de esportes, dessa vez sem nenhum ânimo de tentar manguear. Depois entramos numa livraria, compramos uns presentes legais. Sharas, lituano marido da Rê que até hoje eu não conheço, nos liga pra nos encontrar, já saiu do trabalho. Trombamos ele na estação do metrô e o maluco é muito gente boa, demais mesmo. Quero comer, então paramos numa kebaberia que eu reconheço de 2010, e comemos falafel. Ele nos paga uma cerveja e chama pra fumar um no canal. No caminho, pega mais uma cerveja, e me paga uma cidra. 

No canal, perto dos caras passando droga, a água é imunda. Um pato solitário se aventura. O skunk com tabaco bate forte, e resolvemos ir até o trampo da Rê, que é num pub. Andamos pra cacete até lá, chegando com a ajuda do GPS do Sharas, e o lugar é meio chique demais pra gente. Sharas paga mais uma cerveja que eu, dormindo sentado praticamente, não consigo terminar, e ele nos leva pra casa. São 22h ainda, mas teríamos que levantar 2h da manhã, então deitamos logo.

Fui dormir pensando na brisa, no Sharas dizendo que rir produz vitamina C e eu pensando que falta vitamina C em São Paulo, que Sema é uma palavra engraçada e que rir é como se nosso cérebro desse tilt seguidamente, cada risada um tilt, nos impossibilitando de fazer qualquer outra coisa, nos tirando o controle do próprio corpo. E é bom.

Rir nem sempre é o melhor remédio, mas com certeza é nosso melhor bug.

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