45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 45

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 45 – O adeus é um Kick-Off

Podemos até jogar pelo FC Vova, mas isso não nos faz lituanos. Toda a cerveja e o skunk apagaram nós dois, e acordamos com a Rê nos chamando às 3h10. Já era o busão pro aeroporto. Na internet, lemos que o bilhete pode ser usado até 60 minutos antes e depois. Teríamos que pegar o das 4h20, mas torcendo pra ter lugar. A outra opção é um táxi pro aeroporto: 40 libras. Escolhemos essa opção. Rê nos ajuda a conseguir o táxi, levanta, vai com a gente até o ponto de busão. Foda, Rê, foda, sem palavras pra agradecer tudo. Pegamos o táxi e chegamos no aeroporto com tempo de sobra.

Vim pra Europa com três agasalhos, volto com oito. Deu pra entender? Tive que vestir quatro deles, os outros quatro foram na cintura. Tudo pra não rodar no vôo da RyanAir, o último deles, finalmente. Passo um calor desgraçado, então dentro do avião tiro tudo e já aviso o Allan que ao chegar vamos ter calma, ser os últimos a sair se for o caso. Feito isso, eu fui o último, só que não sabia que o avião parava na pista e de lá tinha ônibus pra nos levar ao desembarque, então uma das comissárias de bordo disse no microfone, o avião vazio, só eu dentro:

– Sir, there are two buses waiting just for you, thank you.

Saí meio pensando “foda-se” e meio envergonhado, nem olhei na cara de ninguém no bus, que demorou menos de 30 segundos pra chegar ao desembarque. Gente apressada sem motivo fode. Milão e São Paulo, tudo a ver. No desembarque, termino de me arrumar. Somos os últimos na imigração. Depois de passar por ela, um policial brinca com seu cão farejador, fazendo ele correr na esteira de malas. Cena bizarra, a Itália é um pouco Brasil mesmo. Pegamos o busão pro metrô e lá não dá pra manguear o metrô, tem fiscal, então pagamos 1,50 euro pra chegar de novo no Villa Vegan, squat do qual não tínhamos muitas saudades dada a pouca hospitalidade dos moradores.

Dessa vez, no entanto, é diferente. Walter, o morador com quem fizemos contato, está de saída pra Turim no exato momento em que chegamos. Na porta da casa principal encontramos David e Asia, dois anarquistas israelenses, gente boa demais. Conhecemos também Paul, um alemão, e Caroline, londrina que, coincidentemente, morou com a Lilian Rodrigues, amiga minha portoalegrense. Caroline vai pra Porto Alegre morar três meses com a Lilian daqui um mês. Além disso, ela e Paul nos reconhecem de St. Imier, e Allan reconhece ela como a garota que leu o manifesto vegan no dia em que cercaram a churrasqueira.

Reencontro também Ivana, e ela me cumprimenta com entusiasmo. Dessa vez, Mattia e Ponch, moradores do squat, estão mais falantes, então enquanto eles cozinham o almoço a gente troca idéia e eu leio uma revista anarquista italiana chamada Fenrir que tem uma matéria sobre Pinheirinho[1]. David e Asia resolvem sair. Antes do almoço ficar pronto, vou com Allan até uma loja de brinquedos ali perto ver se um jogo que eu tinha visto no começo da viagem, chamado Kick-Off, ainda tava lá. Estava, mas a loja estava fechada porque era hora da siesta, então voltamos pra comer. Depois de almoçarmos todos juntos, sendo a sobremesa deliciosos cupcakes vegans, incrivelmente molhadinhos, feitos pela Caroline, Allan resolve dormir e eu aproveito pra escrever sobre a viagem.

Nisso, Caroline se despede. Está indo pra Londres passar uma semana antes de ir pro Canadá e depois, finalmente, pro Brasil. Paul aparece e me chama pra ir até um internet café que ele tinha mencionado, e no caminho eu passo pela loja do Kick-Off e finalmente compro o jogo, que vai ficar de presente pra Casa Mafalda e pro Auto – prevejo muitos campeonatos dessa joça, hehe. É um tipo de futebol de mesa, onde os jogadores encaixam no campo com uma molinha e com isso podem ser movimentados pra bater na bola, que corre pelo campo todo e cai nos vãos em volta dos jogadores. O goleiro é estilo aqueles goleiros de botão de plástico, com um cabinho pra mexer por trás do gol[2]

Usamos a internet e na volta resolvo passar na loja pra ver se tem mais algo legal, e começa a chover muito. Paul resolve ir embora e Allan e eu ficamos lá olhando as coisas da loja até a menina que trabalha lá – na verdade toda a família, chinesa, trabalha lá, deve ser dona da loja – avisar que vai fechar. Nos abrigamos no café ao lado, pedimos um expresso longo e aproveitamos que a chuva não passa pra montar o Kick-Off e jogar. Ficamos uns 40 minutos jogando, primeiro eu goleei o Allan mas depois ele pegou o jeito e ficou mais equilibrado. PUTA JOGUINHO LEGAL, MÊO! Se eu não me engano tem um documentário italiano sobre o fim da produção dele.

A chuva pára e voltamos pro squat. David e Asia chegam, ficamos conversando no quarto e ele nos dá um CD da banda de hardcore dele, tudo escrito em hebreu, e cantado em hebreu, hehe. Uma das moradoras, Luana, bate na porta e diz que “c’è mangia!”, ou seja, tá na hora da janta. Comemos todos juntos, falando de muro na Palestina a milícias no Rio de Janeiro, e ainda rola cupcakes de sobremesa. Cansados de tanta viagem, Allan e eu vamos pro quarto, mas antes pego o contato de toda a galera.

Antes de dormir, passei no free shop do squat e arranjei mais uma mochila pra dividir o peso da minha mala enorme. São duas mochilas, a mala e o Kick-Off, vai ser foda carregar isso. Allan capota, David e Asia chegam e ficam vendo algo no laptop deles, e eu escrevo sobre o campeonato, pra tentar mandar pra todo mundo ler lá do aeroporto. Tá terminando tudo isso, falta pouco, em um dia estarei no Brasil de novo.

Como meu voo é 9h30, vou dormir lá pelas 2h, pra acordar 6h, sair 6h30 e pegar o bus pro aeroporto 7h, chegando lá 7h30. O ticket do bus já tá comprado, então é acordar e sair. Tomara que a chuva pare, se não vai ser foda pular o portão do Villa Vegan com tudo isso de mala.

Não sou bom nem gosto de despedidas. Foram 45 dias de norte, intensos, malucos, corridos, arriscados, divertidos. Terminados com um Kick-Off. 

Parando pra pensar, faz sentido. Todo adeus é um Kick-Off. 

Bah, chega de enrolação e metáforas toscas com futebol. Acabou. Vou dormir antes que eu perca a hora e o vôo.


[1] https://pt.globalvoices.org/2012/01/24/brasil-pinheirinho-massacre/

[2] Aqui dá pra entender como é: https://www.amazon.it/Gioco-Calcio-da-tavolo/dp/B00F7OJSMA

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