São Marcos

Lá pelas tantas da pandemia, o futebol voltou, se é que dá para chamar de futebol um estádio sem torcida. As câmeras de TV, sem o escape às vezes cômico, às vezes trágico que vinha das arquibancadas, precisaram procurar outros ângulos.

Os torcedores, de fora da festa, assistiam a tudo num misto de depressão e agonia. Eram as suas camisas em campo, os seus estádios, mas faltava o coração. Aquele cumprir obrigatório de contrato tinha tornado o jogo mais chato que videogame, onde pelo menos dá para controlar os jogadores. Nas redes sociais, criavam desafios durante as transmissões, enquetes sobre as cadeiras do estádio, lembranças de onde ficava cada faixa. Mas não tinha jeito: todos os gols carregavam em si um pouco de gol contra.

Em uma dessas partidas vazias e sem sentido, jogavam Corinthians e Flamengo. Se um estádio vazio já é catastrófico, como vender o jogo das duas maiores torcidas sem exatamente elas presentes? A bola rolava quadrada, nem na trave queria bater, e os emojis de sono e tristeza comandavam as hashtags pelo país afora.

Lá pelos trinta do primeiro tempo, no que parecia ser só mais um chute para fora, algo aconteceu.

Atrás de um dos gols, um normalmente invisível gandula deu uma ponte espetacular para evitar que a bola fosse longe. Caiu com ela no chão, puxou para junto do peito, e correu de volta pro seu não-lugar longe das câmeras. O narrador era um daqueles engraçadões, tentativa da emissora de compensar a falta de alma nas arquibancadas, desviar o foco do que realmente importa. E aquela cena foi repetida meia dúzia de vezes dali até o intervalo.

No segundo tempo, outro chute torto e outra defesaça do gandula, evitando o fosso do estádio. Dali até o apito final, sem gols, outras três vezes o garoto foi exibido, até em câmera lenta. Estava pronta a entrevista pós-jogo.

O repórter passou reto do centroavante, ignorou o goleiro e chegou até o menino. Que, até então, não sabia de nada.

– Posso falar com você?

– Ahn? Eu? É…

– Você, você. A gente percebeu os seus saltos pra pegar a bola, passamos até replay durante a transmissão. Você sempre fez isso?

– Então moço, não sei, é meu primeiro jogo, eu…

– Você treina no Corinthians? Faz parte da categoria de base?

– Não, eu jogo no campinho lá da praça perto de casa mesmo.

– Já pensou em fazer teste?

– Sei não, moço, eu nunca…

– Qual seu nome, garoto?

– Marcos.

Aquele pequeno Dida, de pele negra, alto, esguio, se chamava… Marcos.

As redes sociais foram à loucura. Torcedores de todos os times criaram um sem número de memes. As mesas redondas do final da noite só falavam disso. Todas as emissoras tentaram entrevistar o agora célebre gandula, mas ele desapareceu depois da partida.

Três dias depois, o assunto ainda estava vivo. O Corinthians jogaria novamente, e a expectativa não era nem pelo time, nem pelos desfalques: todos queriam saber se Marcos estaria em campo. Ou melhor, fora dele.

Passadas as escalações, o repórter de campo chamou o narrador. Tinha encontrado o garoto.

– Fala Marcos! Vai ter ponte hoje?

– É… se vier bola, é o jeito, né.

– Como você tá lidando com a fama?

– Ah, me mostraram umas coisas lá no bairro, mas eu não sou muito de internet não.

– Tá certo. Bom jogo, você é corinthiano?

– Sou sim.

– Então espero que dessa vez as bolas entrem, né?

– Do outro lado, eu vou ficar aqui atrás do gol do Corinthians.

Corinthians que, desacostumado a jogar sozinho, foi mal. Durante todo o jogo, Marcos apareceu sete vezes. Nas sete, alcançou a bola. Já o goleiro do Corinthians, na única vez em que realmente foi exigido, aceitou um chute fácil. O close na frustração do gandula foi mais repetido do que o próprio gol.

No final do jogo, outra entrevista.

– Marcos, e aí? Você tomava esse gol?

– Sei não, moço. Não sou goleiro.

– Muito chateado com o resultado?

– Ah, acontece, agora é aguentar a zoeira do Rogério.

– Quem é Rogério?

– Meu irmão palmeirense.

– Então na sua casa o Marcos é corinthiano e o Rogério palmeirense?

– Isso.

Era a cereja do bolo.

A gritaria foi tanta nas redes sociais que até o goleiro famoso, homônimo do gandula, idolatrado pela torcida rival, resolveu se manifestar. Em tom de deboche, deu risada dos memes, e provocou:

– O dia que ele salvar o time embaixo das traves a gente conversa, fora de campo não vale nada. Marcos goleiro mesmo só tem um.

Aquela resposta atravessada, gratuita, pegou o gandula de jeito. Não que admirasse o ex-goleiro do rival, mas era um ataque gratuito, desnecessário. A molecada no bairro e na escola não parou de tirar sarro. E o garoto bolou um plano.

O próximo jogo do Corinthians em casa era justamente um derby. Para evitar os repórteres, Marcos pediu ao chefe para entrar atrasado no campo.

– Não gosto dessas coisas de TV, chefe.

– Tudo bem, garoto, sobe com cinco minutos.

Não adiantou muito: assim que se posicionu atrás do gol, o gandula foi encontrado pelas câmeras. E toda vez que a bola rondava a área, a expectativa do narrador aumentava.

– Cortou, vai bater, quem será que pega, o goleiro ou o Marcos?

Mas o jogo foi truncado, quase sem chutes a gol. Na única vez em que trabalhou, o gandula teve que correr atrás da bola quase lá no escanteio, sem possibilidade de ponte. Passou os dois tempos com o plano na cabeça. Só precisava de uma chance. Achou que não teria. Mas ela veio.

Perto do fim, em um contra-ataque, o goleiro corinthiano teve que sair da meta. O atacante palmeirense chutou, e a bola rolou mansinho em direção ao gol.

Quase em cima da linha, enquanto todos os jogadores prendiam a respiração pelo gol iminente, Marcos entrou em ação. Driblou a trave com um jogo de corpo, deu dois passos, saltou rente ao chão e, com a ponta dos dedos, desviou a bola para escanteio.

Correu até as câmeras e gritou:

– MAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARCOS!

O time do Palmeiras inteiro saiu atrás do garoto, que procurou o túnel do vestiário. Foi bloqueado pelo goleiro reserva, que quase acertou seu rosto. Escapou por pouco. E correu em direção às arquibancadas, onde tradicionalmente estaria a Gaviões da Fiel.

Cercado e sem saída, Marcos mediu a altura do fosso ao redor do campo, e fechou os olhos. Lembrou do barulho do bumbo da bateria, das bandeiras tremulando, imaginou aquela torcida imensa gritando seu nome e tomou sua decisão final: mergulhou de cabeça naquele escuro infinito, de onde só sairia sem vida.

Tornou-se santo.

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