Princípios

Tem nascido menos children

do que se produzem carros.

(EDGAR, “O amor está preso?”, 2018)

Em Quarentena, havia muitos carros. Sempre. Era comum que as famílias da cidade tivessem até mais de um veículo em casa – afinal, cidade grande, destinos longínquos, transporte público caro e ineficiente. A solução era um carro para cada um, ou pelo menos dois carros para poder driblar o dia do rodízio. Algumas famílias passavam mais tempo dentro de seus carros do que em casa, e essa realidade fez nascer comércio drive-in e drive-thru para tudo.

Os Souza eram uma dessas famílias. Amavam seus carros, o pai, a mãe e as duas filhas, que apesar de não dirigir ainda tinham passado tanto tempo dentro deles que era como se fosse um cômodo extra do apartamento. A mais nova, quando pequena, só dormia se fosse levada para dar uma volta de carro. A mais velha contava os dias para tirar sua licença de motorista. Foi ali, naquele carro, que as duas escutaram pela primeira vez sua banda preferida. E foi na volta de um show, com a família toda reunida, que tiveram a ideia de começar um fã-clube, com direito a blog na internet, página em todas as redes sociais e, a maior conquista de suas vidas, um vídeo gravado pelo vocalista agradecendo o trabalho delas, citando inclusive seus nomes.

Foi um baque grande, então, quando a pandemia fechou tudo. Impedidos de sair, os Souza, assim como todas as famílias de classe média de Quarentena, passaram meses sem entrar em seus carros. O trânsito da cidade, que há anos era o termômetro de sua saúde, diminuiu absurdamente. Obrigados a trabalhar como nunca, dava para ver o sorriso dos entregadores mesmo de máscara.

Em casa, não restavam muitas opções de lazer para os Souza. Não aguentavam mais as lives, mesmo as da banda preferida. As séries de streaming não tinham mais temporadas. A reprise de futebol do passado tinha atingido um saturamento. Já não tinham mais jogos de tabuleiro, de cartas, de videogame para explorar. Os pais seguiam trabalhando, então ocupavam parte do tempo, mas as filhas, depois de meses de aulas online, agora vagavam pelas férias decretadas fora de hora sem fazer quase nada.

Quando anunciaram aquele show drive-in, então, foi um alívio. Porque era a banda preferida e porque era uma novidade para explorar depois de tanto marasmo: dentro de um estádio, cada família dentro de seu próprio carro, piscando os faróis e buzinando no lugar dos aplausos. O pai não pensou duas vezes para comprar aquele ingresso, que custava mais da metade de um salário mínimo.

O dia do show foi um dia de reencontro com o carro principal da família. Simularam até um abraço coletivo no veículo. Souza pai deu um banho de mangueira no estacionamento do prédio mesmo, a mãe Souza arrumou o resto de bagunça no interior, as filhas decoraram a lataria com pôsteres da banda. Saíram cedo de casa, para evitar o trânsito que o show prometia trazer de volta para a cidade.

A fila para entrar no estádio era grande, mas andava. Trinta minutos depois de chegar, estavam na porta de entrada. Cancela baixada, o atendente pediu o ingresso. Tudo certo. Até que veio a surpresa.

– O estacionamento custa oitenta reais, senhor.

– Estacionamento? Que estacionamento?

– Para ver o show. O ingresso garante apenas a entrada.

– Quê??? Que absurdo é esse?

– Estava escrito no contrato de compra que o senhor aceitou na internet, senhor.

Souza pai não tinha lido aquelas letrinhas minúsculas. E não se conformava em pagar estacionamento para ver uma banda tocar de dentro de um carro. A discussão esquentou. Veio o gerente. Na fila, os carros buzinavam. Faltavam menos de duas horas para o início do show e nem metade dos carros tinha entrado ainda. A mãe Souza resolveu usar a carta da autoridade. Disse que era filha de advogados, ameaçou chamar a imprensa, a polícia. Mas nada que pudesse fazer iria resolver a situação a tempo.

No banco de trás, as filhas se desesperavam. Pediam aos pais que pagassem logo, disseram para tirar da mesada. Ofereceram até serviços domésticos por um mês. Encurralado entre a dignidade e o choro das duas, Souza pai teve uma ideia. Quem iria retirá-los do gramado, se entrassem sem pagar a taxa de estacionamento? Como? Se tivesse multa, não pagaria, entraria na justiça, deixaria a coisa se estender por anos. Deu ré, como se tivesse desistido e fosse pegar o retorno para sair do estádio, e acelerou para cima da cancela.

O atendente, percebendo o que estava para acontecer, apitou. De trás das cabines, com a sirene ligada, o carro da empresa de segurança surgiu de sopetão, bloqueando a entrada. Souza pai, no reflexo, girou o volante todo para a esquerda. O carro derrapou, raspou a lataria contra o carro da segurança e bateu de lado na base da estátua do maior ídolo do time dono daquele estádio. Com o impacto, a estátua balançou. Rompeu na altura do tornozelo e caiu sobre o carro, rolando suavemente para o lado e bloqueando totalmente as portas do lado do motorista ao chegar ao chão. Do lado do carona, as portas também não abriam, impedidas pela base da estátua. A buzina do carro disparou. Ninguém, fora o orgulho, ficou ferido.

Os Souza passaram as horas seguintes entalados ali. De dentro do estádio, com o público apenas pela metade, ouviam buzinaços a cada final de música. De fora, a buzina raivosa de quem estava na fila e foi impedido de entrar por conta do acidente. O trânsito na região era o maior em trinta anos. Os bombeiros não conseguiam chegar para resolver a situação. E a buzina do carro da família seguia a todo vapor.

No meio daquele inferno sonoro, a filha mais velha dos Souza reconheceu, ao fundo, um estribilho de guitarra. As buzinas dentro do estádio sendo tocadas freneticamente.

Era sua música preferida.

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