Nós, passarinho

Décadas depois da pandemia, o bairro da Borda ainda sentia. Limite municipal de Isolamento, com um pedaço de floresta tropical ombrófila mista em seu território, a Borda terminava bem no meio do Parque Nacional da Serra da Resiliência. Depois do parque, havia uma descida em queda íngreme até a depressão periférica do rio dos Corpos, que ganhou esse nome depois de descobrirem a desova de mortos por parte do governo. E, em qualquer outro lugar que não o parque, o solo era infértil, uma mistura de consequências relacionadas ao clima e aos fatores antrópicos, o nome que se dá quando a culpa é da nossa espécie.

As explicações dos moradores da Borda eram mais simples: excesso de asfalto. E lixo. Muito lixo. A maioria não entendia por que é que aquele resto de floresta continuava lá, cheio de sobrevivência, enquanto no bairro se morria de fome. Muitos tentaram invadir o parque, cortar árvores, colher frutos, matar qualquer animal que fosse comestível – e até alguns que não. Mas as Tropas Oficiais guardavam a cerca e atiravam com as famosas balas letárgicas, desenvolvidas especialmente depois da pandemia e da Grande Crise Carcerária. Não matavam, diziam, mas tornavam os corpos inertes por dez anos. Eram o julgamento e a própria pena: os atingidos entravam em um estado de coma, e ficavam sob a tutela do estado nos novos Hospitais-Prisão, onde seus sinais vitais eram mantidos até que os efeitos da bala passassem. Quem já havia entrado em algum dos hospitais descrevia a cena como um empilhamento de corpos, uns sobre os outros, em beliches precários, com drenos de entrada e saída de líquidos conectados a cada um. Nunca ninguém havia voltado de um Hospital-Prisão, e os boatos eram de que o coma induzido pelas balas seguia mantido enquanto o caso não fosse resolvido no Tribunal. A fila de casos era tão grande que a expectativa do primeiro julgamento relacionado a uma bala letárgica acontecer estava ainda a anos de distância.

Na Borda, a fome e o medo caminhavam juntos. Mas também havia solidariedade. Grupos de moradores se reuniam em segredo para caçar passarinhos, uma das formas de combater a falta de alimentos. E aqueles de idade avançada ou de mira ruim ficavam com a tarefa de cozinhá-los. A prática era crime em Isolamento, dada a chance de uma nova pandemia pelo consumo de animais muitas vezes silvestres, mas entre o risco e a fome, a maioria escolhia o primeiro. Também existia apoio entre os que ficaram conhecidos como “órfãos da pandemia”, crianças que perderam seus pais para o vírus e que foram adotadas informalmente por parentes, amigos e vizinhos. Alguns habitantes de outros bairros, quase sempre professores e funcionários das escolas da Borda, também organizavam suas ações de solidariedade, mas a fome não via seu fim, já que a população do bairro era não só numerosa como indesejada pelo resto da cidade. Mais de setenta por cento dos habitantes do bairro não tinha emprego, e quase metade não tinha acesso aos testes e vacinas de imunidade fornecidos pelo governo. A época da Maior Recessão, aliada a chegada ao poder do Partido da Eliminação Social, fez com que o sistema público de saúde fosse privatizado, e os valores de um convênio médico só eram praticáveis para quem morava da Ponte para lá. A Ponte era o único acesso à parte central de Isolamento, e havia controle para atravessá-la. Sem teste negativo para as principais doenças e atestado de vacina, ninguém passava.

Pouco depois da pandemia, houve uma tentativa de combate às políticas do Partido da Eliminação Social. Foi quando surgiu o Movimento dos Sem-Teste, logo depois da privatização dos hospitais públicos. Erguiam uma bandeira preta com uma cruz vermelha que escorria, em alusão ao sangue e ao luto dos mais pobres. Era composto essencialmente por mulheres e, junto às Mães de Luto e Luta, uma resposta ao assassinato e encarceramento contínuo de jovens pobres em Isolamento, formavam a principal oposição ao governo. Os dois movimentos eram muito fortes na Borda, o que levava as Tropas Oficiais a realizarem um sem número de operações sob o discurso de “coibir práticas sanitárias ofensivas à saúde pública”.

Foi em meio a uma dessas operações que surgiu a Lenda do Passarinho. Dois adolescentes que caçavam passarinhos fugiam das Tropas Oficiais quando ouviram um estouro dentro do Parque Nacional da Serra da Resiliência, seguido de uma enorme revoada de pássaros de todos os tipos. Um dos pássaros (alguns dizem que era um guará, outros juram que foi um tiê-sangue) pousou sobre a cerca do parque, bem em frente aos dois jovens, e cantou tão bonito que os fez esquecer do estilingue. Assim que bateu asas, os adolescentes perceberam que, exatamente atrás de onde havia pousado, uma enorme jabuticabeira carregada, com os galhos pronunciados para fora da cerca, oferecia seus frutos. Aquela noite ficou conhecida como a Noite das Jabuticabas, e daquele dia em diante espalhou-se pela Borda a lenda de que onde pousasse um passarinho vermelho, haveria fartura. Verdade ou não, o fato é que nenhum morador do bairro ousou mirar em qualquer pássaro cor de sangue dali em diante. Mas ninguém nunca mais encontrou frutos.

Um grupo de moradores, que acreditava na lenda de forma mais intensa, resolveu começar a seguir os raros pássaros vermelhos que voavam por ali. Sempre que havia um, uma romaria se formava pelas vielas da Borda, seguindo o vermelho pelas árvores até que invariavelmente partiam para longe. Por duas vezes, as aves adentraram o parque, e os moradores, na tentativa de segui-las, foram interceptados pelas Tropas Oficiais.

Na terceira vez em que isso aconteceu, a Lenda do Passarinho se ampliou. Irritado com outra aglomeração que entendia ser sem sentido, um dos guardas mirou no passarinho e atirou uma bala letárgica. Enquanto a multidão assistia a ave vir ao chão, o guarda esboçava um sorriso por ter acertado o tiro. Mas, rente ao solo, o pássaro abriu as duas asas e levantou voo para dentro da floresta. À fartura, foram adicionadas a imortalidade, a superação, o renascimento.

Para os céticos, o pássaro atingido e aquele que viram voar não eram o mesmo. Mas pássaros vermelhos eram tão raros no parque que acreditar em dois ao mesmo tempo era quase tão difícil quanto crer na lenda. Os moradores da Borda continuaram procurando e seguindo os passarinhos vermelhos, sem nunca de fato encontrar fartura outra vez.

Até que um grupo encontrou um pássaro vermelho morto, no meio do bairro. Ninguém nunca tinha visto aquela espécie antes. De um vermelho vivo, cintilante, que ofuscava a vista. Trazia um sentimento de completude a quem olhava, mesmo morto. Ao seu redor, estranhamente, cresciam flores. No processo de preparação do que seria uma refeição para quatro, o grupo encontrou um estranho artefato na barriga da ave. Era a bala letárgica.

Ao invés de comê-lo, os moradores da Borda resolveram enterrá-lo no mesmo lugar onde foi encontrado. Aquele seria um pássaro mítico, o mito fundador de uma nova era na comunidade. As inexplicáveis flores naquele pedaço de terra cresceram. O solo, antes infértil, parecia ter recuperado a vida. Uma das lideranças das Mães de Luto e Luta plantou ali uma semente de feijão, que brotou em pouco tempo.

Meses depois, o que era uma cova tinha se tornado uma pequena horta. Cuidada por todos, que se revezavam durante a semana no plantio, na rega, na poda. Algumas plantas alimentícias não convencionais já podiam ser consumidas. O pé de feijão cresceu quase até as nuvens. E o culto ao pássaro vermelho se enraizou pela Borda.

No dia em que aquela pequena plantação de esperança foi oficialmente inaugurada, com direito à apresentação das crianças em um coral que simulava o canto de um pássaro, um dos moradores, pouco afeito às coisas sem explicação, apontou para a possibilidade de que os elementos químicos daquela bala letárgica, misturados ao funcionamento orgânico do passarinho, tenham produzido a fertilidade do solo. Mas o motivo pouco importava: a lenda era maior do que o fato. O futuro era um passarinho.

Na manhã seguinte, quando a moradora mais velha da Borda abriu a janela da sala para aproveitar os primeiros raios de sol, não acreditou no que viu: enquanto as crianças trepavam no pé de feijão, subindo e subindo rumo ao firmamento, uma revoada de tiês-sangue, pousada por toda a extensão da cerca, guardava a horta como se fosse um ninho.

Há quem diga que eram guarás.

Tiê-sangue - Ramphocelus bresilius

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