Sobre escolas e desejos de volta

Existe um grupo de pessoas no Brasil, que alguns veículos de mídia chamam de movimento e dizem ter mais de 150 mil membros, que defende que as escolas deveriam permanecer abertas, mesmo nos piores momentos de contágio da pandemia de covid-19. O nome que esse grupo de pessoas assumiu para si é “Escolas Abertas”.

Os argumentos trazidos pelo grupo parecem nobres: as crianças, apartadas da escola, tem apresentado perda de aprendizagem, mais significativa para as de menor idade; a escola tem uma função social, inegável, ainda mais em um país pobre e desigual como o nosso, principalmente no que se refere à alimentação; os casos de violência e abuso em casa aumentaram com as escolas fechadas.

Tudo isso é verdade. Posso afirmar porque sou professor de duas redes, a pública e a privada, na maior cidade do país.

(Não sou uma raridade: são muitos os profissionais da minha categoria – sendo justo: são muitas, já que é uma categoria majoritariamente composta por mulheres – que ocupam toda a vida dando aula em duas escolas pra conseguir ter renda suficiente para se manter.)

Para além desses argumentos, o discurso do Escolas Abertas para o retorno das aulas presenciais se baseia na realidade de outros países, como o Reino Unido, onde as escolas não fecharam mesmo com lockdown. Por lá, testagens massivas foram feitas para garantir esse retorno. Mesmo assim, quando o contágio aumentou demais, as escolas fecharam de novo.

É aí que começa o problema: sabemos, eu, você que está lendo e as pessoas que compõem o Escolas Abertas, que isso não aconteceu – e nem vai acontecer – no Brasil.

Nem lockdown de verdade, nem testagem massiva – na rede pública de São Paulo, a prefeitura testou apenas 17,7% do total que havia prometido, e ainda com o tipo menos confiável de teste.

Essa testagem aconteceu toda no ano passado – ou seja, todas as pessoas testadas podem ter se contaminado desde então.

Além disso, que não é pouco, existem diferenças gigantes de estrutura entre as escolas do Reino Unido e as daqui – e, principalmente, entre a rede privada e a pública no Brasil.

As pessoas que compõe o Escolas Abertas tem, em sua maioria, os filhos matriculados na rede privada, em grande parte dos casos nas escolas mais caras. Lecionando nas duas redes, experimentei na pele as diferenças, gritantes, entre elas. Da merenda, que por pouco não virou ração nas escolas públicas municipais, aos passeios de campo, que banquei do bolso na EMEF onde trabalhava até ano passado. Diferenças que vão muito além das questões materiais, sobre as quais não vou me alongar. Fiquemos com apenas um fato: mais de 500 escolas públicas em São Paulo não abriram por não ter equipe de limpeza no dia programado para o retorno, semana passada – e nas que tem essa equipe, e retomaram as aulas, não faltam relatos e apontamentos de que são insuficientes.

Se formos analisar a ventilação nas salas de aula, já que o principal modo de transmissão do coronavírus é por transmissão aérea em ambientes fechados, a situação piora ainda mais, e atinge tanto as escolas públicas quanto as privadas. Mas também não quero explorar esse fato, porque, de novo, todos sabemos disso: eu, você, o Escolas Abertas e qualquer um que perca dois minutos lendo as redes sociais e as notícias nos últimos dias.

Mesmo assim, o “movimento” insiste no retorno.

Não quero entrar nos motivos dessa insistência, que vão muito além da perda cognitiva ou da saúde emocional das crianças. Escrevo aqui impulsionado por outra razão: externar dois desejos meus neste momento.

No último domingo, recebi a notícia da morte de uma atendente escolar, da rede pública, com quem trabalhei nos últimos três anos. Ela era três anos, também, mais nova do que eu, que estou prestes a entrar nos meus quarenta anos.

No mesmo dia, mais tarde, a avó dela também morreu.

Mesmo com essa notícia, uma entre tantas outras que tem surgido diariamente, o meu primeiro desejo, o maior dos dois, é retornar para a sala de aula. Porque o ensino remoto é horrível.

Mas só quando isso não significar um aumento exponencial na possibilidade de morte, minha e de todas as pessoas com quem irei interagir nas duas escolas em que leciono, no caminho de casa até a escola (uma hora de trem), de uma escola até a outra (mais duas horas) e depois de volta pra casa (outra hora inteira). E das pessoas que, depois disso, irão interagir com essas pessoas.

Quero retornar para a sala de aula, sim.

Quando isso não significar, para além da morte, o aumento também no risco de nunca mais poder entrar em sala de aula, já que cresce o número de pessoas com sequelas que – ainda não se sabe – podem ser permanentes, entre elas perda respiratória e, vejam só, déficit cognitivo. É o caso de uma amiga, também professora, com quem dei aula muitos anos e que hoje vive no Pará. Mesmo com sintomas leves, mais de seis meses depois de ter sido contaminada, ela ainda não recuperou completamente olfato e paladar e tem se confundido com coisas simples do dia a dia, como lembrar de desligar o fogão.

Quero retornar para a sala de aula.

Mas não para atender os desejos fúnebres de pessoas que nem sequer estarão lá, e que se sentem bem em apostar as vidas dos próprios filhos nesta loteria macabra.

É aqui que entra meu segundo desejo, ligado umbilicalmente ao primeiro, bem mais simples, e que diz respeito às pessoas que fazem parte e defendem o Escolas Abertas.

Para elas, todas elas, eu desejo a morte.

Não por ódio ou vingança, longe disso.

Mas pela simples reciprocidade.

Porque elas, como eu e você, sabem muito bem dos riscos que essa volta significa, no pior momento da pandemia até aqui, com mais de mil mortes diárias todos os dias. E seguem gritando pelo retorno, porque não se importam com a vida – a minha e a de todas as pessoas que trabalham nas escolas, professoras, coordenadoras, faxineiras, atendentes escolares e seus familiares.

Morte por morte, desprezo por desprezo, então, eu deixo aqui meu desejo de volta.

São Paulo, 23 de fevereiro de 2021.

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