Lambe-lambe

Ontem completou-se um mês de greve nas escolas municipais. Como forma de marcar a data, saímos, duas professoras e eu, para colar lambes perto dos pontos de ônibus da região central de São Paulo. Corrigindo: duas professoras, eu e a cachorra, que foi junto aproveitar o passeio.

Convivo há muitos anos com o centro. Morei nele, moro perto dele ainda, e passei vários anos da vida circulando por aqui. Foram muitas as situações de vida, tantas outras de morte. O centro lateja, de prazer, de miséria e de dor, e esse latejar se torna mais pulsante à noite.

Ontem não era uma noite qualquer. Para além do mês de greve, já vai quase um ano “oficial” de pandemia. Um ano em que a população de rua aumentou enormemente pelas ruas e viadutos da cidade. Não foi surpresa, então, que no nosso primeiro ponto de parada um homem, de máscara, tenha nos pedido dinheiro. Confusos entre tantas ações simultâneas – passar a cola de lambe na parede, fixar os papeis, passar a cola de novo, cuidar da cachorra, responder ao convidado inesperado na nossa ação – nossa interação com ele foi toda entrecortada por dispersões de atenção. Ele pegou o dinheiro, foi, e voltou com um cigarro, oferecendo-o para uma das professoras, que negou o regalo enquanto tentava colocar mais um papel na parede. Nesse meio tempo, outro homem, de bicicleta (estávamos rente à ciclovia), parou para perguntar do “grude”, onde compramos, ao que respondemos que fizemos em casa, e em menos de 5 minutos outra interação inesperada atravessou nossa ação noturna de propaganda.

O homem do cigarro pediu um papel. A professora entregou um dos lambes. Ele pediu a cola, pedimos para ele esperar terminarmos, e ele desapareceu noite adentro, quase ao mesmo tempo do homem da bicicleta. A cachorra, agitada, olhava para o outro lado da rua, enquanto lambia minha perna.

Seguimos para o próximo ponto de colagem, e nesse as interações foram menores. A parede, dessa vez, era colada com o embarque/desembarque de um ponto de ônibus, e assim nos tornamos obstáculos no caminho de quem desembarcava. Do outro lado da rua, uma mulher vendia balas em frente a uma farmácia, ao mesmo tempo em que parava transeuntes para pedir algo, as mãos juntas em posição de oração, um apelo-desespero pungente. Ela nos viu colando os papeis e atravessou a rua. Observou os escritos por alguns instantes e perguntou:

– Vocês são contra as aulas presenciais, né?

A tensão tomou conta de nós três, que seguimos lambuzando a parede de cola. Uma de nós respondeu:

– Isso. Nesse momento não tem condições.

– Não tem mesmo! Eles querem matar todo mundo? Agora até as crianças…

Um certo alívio invadiu nossos corações, não estávamos loucas nas reivindicações. Os lambes faziam sentido: por que a câmara de vereadores está fechada para conter o contágio se as escolas estão abertas? Por que as escolas estão abertas se o contador de mortes subiu vertiginosamente de 700 diárias para mais de 2000, em apenas dez dias?

A mulher se afasta e retorna para a frente da farmácia. Nós terminamos e seguimos para o próximo ponto. A cachorra, sempre agitada, fica feliz por nos movimentarmos: há muitos cheiros para descobrir no caminho.

Nossa terceira parada não tem interações, mas é no meio da ciclovia. Fico de guarda para avisar quando vem alguma bicicleta, a cachorra comigo, enquanto elas lambem a parede em frente ao metrô. Terminamos, e decidimos voltar, quando uma transexual, descalça, nos para. A máscara no queixo.

– Oi, desculpa atrapalhar vocês. Eu tô na rua, tô descalça, será que vocês não podiam comprar comida pra mim ali no mercado?

– Olha, a gente tá no meio de uma coisa, se a gente te der a grana você consegue comprar?

– Eu não quero dinheiro, eu vou gastar com droga. Eu precisava de comida.

Nos olhamos e decidimos atender ao pedido. Enquanto as três entram no mercado, eu fico na porta com a cachorra.

Lá dentro, após quase ser barrada pelo segurança, ela faz pedidos: um chinelo, salgadinhos, chocolate. Pega um dos ovos de páscoa mais caros que tem. A fome se mistura aos desejos, em um ponto impossível de mensurar entre a necessidade e os símbolos de consumo. As professoras pagam o que podem. Ela sai do mercado, as professoras ainda na fila, e me agradece na passagem.

Enquanto isso, a mulher que vendia balas na farmácia se aproxima de mim.

– Moço, lembra de mim? Então, eu moro nos predinhos ali, tem muita criança, nossa senhora, e com isso de pandemia tá faltando tudo, será que você não compra uma bala, ou se puder, uns lenços umedecidos?

– Lembro sim. Eu tô com a cachorra, assim que elas saírem aqui do mercado eu passo na farmácia contigo, pode ser?

– Pode sim, muito obrigado!

Ela se afasta e volta para a porta da farmácia. Eu pego o celular, olhando para os dois lados, que estamos no centro. Depois de algumas olhadas, relaxo, e vejo vindo da minha esquerda mais um ciclista, de capacete. Muitos passaram por nós enquanto colávamos os lambes, usam a ciclovia para treinar. Ele se aproxima, eu respondo uma mensagem, e quando percebo sua mão tenta puxar o celular das minhas, sem sucesso. Sinto raiva enquanto vejo a bicicleta quebrar à direita a toda velocidade, e alívio por não ter perdido mais um celular. Guardo o aparelho no bolso enquanto meu estômago se contorce em ácido, sintoma direto da situação, e penso no quanto um simples capacete me fez interpretar a pessoa como não sendo um perigo. O centro é o centro, e todas as estratégias de sobrevivência são possíveis.

As professoras saem do mercado e eu passo na farmácia. Compro os lenços umedecidos, a mulher diz obrigada.

– Olha, eu higienizei as mãos, pega uma balinha!

Coloco meu braço ao redor do ombro dela.

– Obrigado. Eu não gosto de bala, não é questão de higiene. Força com as crianças.

Ela olha dentro dos meus olhos, agradece outra vez, e volta a atenção para uma mulher sem máscara que vem do outro lado. Eu penso há quanto tempo não chupo uma balinha, eram de eucalipto, tento lembrar porque parei. Não foi uma decisão, acho, apenas aconteceu, e de alguma forma as balas, essas de chupar, deixaram de fazer parte do meu cotidiano.

Reencontro as professoras com a cachorra. Nossa última parada é uma das únicas escolas estaduais do bairro. Chegamos até ela e as luzes das salas de aula do andar de cima estão acesas, mas não vemos ninguém. A sensação de dar aula, estar em sala, toma a minha mente, mais de um ano longe, e aquele vazio iluminado parece condizer com o desalento que é o ensino remoto. Cogitamos colar os lambes no portão, ou no poste em frente à entrada. Resolvemos voltar outro dia, outra hora, melhor sem a cachorra.

No caminho de volta para casa, paramos para comprar comida. O horário do “toque de restrições” se aproxima e não tivemos janta. A cachorra, sabedora do que acontece ali, liga a atenção no máximo. Olho para baixo e encontro os seus olhos azuis fixos nos meus.

Ela aproxima o focinho do meu joelho e, com afeto, e desejo, e esperança, me oferece a última lambida da noite. O ácido no meu estômago, corroído pela fome, finalmente se desfaz.

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