45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 11

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 11 – Um dia em dois países ou Allan vai ao paraíso

Nosso último dia na Loirécia foi meio corrido. Acordamos nem tão tarde, por volta de 11h, e fomos pra casa de Stina nos despedir e imprimir nossos cartões de embarque do vôo pra Berlim. A Ella tava com temperatura que indicava que os filhotes iriam nascer a qualquer momento, então a Amanda ia ficar lá com elas a tarde toda. Nos despedimos das três, hospedagem sensacional, e ainda tomamos um café com elas com vários tipos de queijo. Tirei uma foto pra lembrar, grandes pessoas. Só não rolou a impressão – impressora sem tinta.

Com a chave da casa da Amanda, nosso plano era ir até Södermalm comprar a camisa do Hammarby e arranjar um bico de bomba pra murchar a bola e poder levá-la na mala, imprimir os cartões, passar pelo café da Tové pra dar tchau e comer mais uma das delicinhas suecas que elas preparam por lá e por fim conhecer o Stadion municipal, antes de voltar pra casa pra pegar as malas e ir pra estação. Não deu tempo de fazer tudo.

Pegamos o metrô mais uma vez burlando a catraca. O mais incrível de tudo é que em TODAS as vezes tinha um/a fiscal na cabine olhando, as catracas bem na frente dele, e em nenhuma ele ou ela fez nada. Não era função deles/as. Muito bizarro pular catraca sem a mínima chance de ser pego mesmo com o guardinha vendo. Aqui os pequenos poderes não seduzem ou corrompem tanto, ao que parece. Na viagem até o centro ficamos pensando que é meio ruim essas viagens com três dias em cada lugar, quando estamos começando a gostar já vamos embora. Por outro lado acaba sendo uma “amostra grátis” de cada espaço, hehe. Ainda notei no metrô alguns pixos escrito “Memory”, igual a outros pela cidade. Em Vilnius também, tinha vários “Vilnius full of space”. É meio moda aqui esses pixos enigmáticos, se bem que em São Paulo também né.

Descemos em Södermalm e me impressionei mais uma vez com a quantidade de ciclovias pela cidade. É mais fácil ser atropelado por uma bike do que por um carro em Estocolmo, se bobear. Ainda mais pra gente que vive em uma cidade inimiga das bikes (e das pessoas cada vez mais). Antes da loja de esportes, achamos um café com internet e imprimimos os cartões, 3 kronas cada página, mas o cara da loja cobrou 10 kronas de uso mínimo da internet – que nem usamos, tava salvo em pdf no pen drive já. Chegamos na loja de esportes e enquanto eu tentava encontrar uma das camisas de 200 kronas do Hammarby que me servisse – não achei, a menor que tinha era XXL – o Allan experimentava bonés. Acabou levando um verde do Hammarby de graça, enquanto eu peguei o bico de uma bomba e uma faixa pro tornozelo boa pra cacete também de graça. Ficou a frustração da camiseta.

Andamos até o café da Tové com Allan cantando sem parar e eu de mau humor pela cantoria e por estar sem comer porra nenhuma. Antes do café, do lado dele, paramos na livraria queer de novo, e eu aproveitei pra comprar com o dinheiro que era da camiseta do Hammarby uma xícara com armários desenhados que quando se coloca algo quente dentro eles abrem e de dentro saem gays famosos/as. Comprei também um presente, não vou estragar a surpresa de pra quem é[1] mas nem é nada demais. Allan comprou um presente também. Descemos até o café na esquina e demos um abração na Tové, que tava puta com o trampo e o chefe como sempre. O cara é um baita babaca escroto, demitiu uma mina porque “o salário dela era alto demais” e nem quis conversa, mesmo a mina trampando lá faz tempo e tendo um filho pra criar. O bizarro é que ela ainda tava lá trampando, se pá algum tipo de aviso prévio, não sei. Tové nos presenteou com mais duas facturas (caralho, lembro o nome em espanhol mas não em português) com chocolate deliciosas e um café.

Saímos de lá e não dava mais tempo pra ir ao Stadion, então voltamos de metrô correndo pra casa. Teríamos 20 minutos pra arrumar a mala e lavar a louça. Almoçar? Sem chances. Chegamos em casa e fizemos tudo o mais rápido possível, mas mesmo assim não deu pra lavar a louça. Saí de lá morrendo de culpa por isso e já pensando na mensagem de desculpas pra Amanda. Deixamos na caixa de correio a chave dela e quando saímos do apartamento o monitor do metrô avisava que já tínhamos perdido o metrô por 2 minutos, o próximo só dali a 18. Que merda, sem chave, não dava pra lavar a louça nem fazer nada. Resolvemos comprar um saco enorme de batata chips na lojinha barata e um suco de 2 litros, mais um chocolate no mercado (tudo isso com os meus últimos 40 kronas) e, junto com as maçãs e bananas que Stina tinha nos dado, acabamos tendo nosso “almoço” enquanto esperávamos o trem. Ficamos sem banho também, o que foi bem ruim.

No metrô, pra variar, situações. Primeiro uma mina com um rottweiler, pode qualquer cachorro em qualquer lugar aqui, shopping, mercado, banco, tudo. Meu pai acharia um absurdo, já que ele acreditava que tem raça de cachorro que é “agressiva por natureza”. Depois um bebezinho no carrinho sentado do nosso lado ficou rindo sem parar quando olhava pra gente, muito feliz demais. Foi foda, mó sensação boa dá essas coisas pequenas. Pra terminar, um tiozaço bebaço, bebaço, com boné escrito “I love Jesus”, sentou do nosso lado e começou a puxar papo, primeiro em sueco, depois em inglês, querendo saber se o chocolate que a gente tinha era suíço. Tava junto com um gambiano[2] e no que sentaram do nosso lado, perguntaram de onde éramos e ele se apresentou, apresentou o amigo e ainda apresentou duas pessoas desconhecidas dizendo que um era da Polônia e outro do Japão, causando risadas. O “polonês” ainda teve algum momento de interação/atrito com o bebaço.

Corremos pra pegar o busão pro aeroporto já com algumas roupas a mais no corpo, porque chegaríamos em cima da hora do vôo e não podíamos correr o risco de perder tempo pra ter que colocar roupas pra diminuir o peso ou tamanho da mala depois. O busão foi bem tranquilo, aproveitei pra escrever. Chegando no aeroporto, calor desgraçado com aquele monte de roupa, e uns quatro caras atrás da gente na fila de verificação de babagem, meio playboyzinhos, ficaram numa de tirar onda dos outros. Uns baita babacas, como comprovariam logo depois. Tive que desmontar minha mala por conta da lanterna – bizarro – e depois remontá-la. Nisso, eles passaram na nossa frente na fila, até aí sem problemas. Só que quando uma mulher com um filho quase de colo chorando pra cacete pediu pra passar na frente pra acalmar logo o moleque os babacas disseram “no way”. Dois deles eram namorados, o que não muda nada. Ser gay não garante bom caráter. Babaca do inferno.

O vôo, que decolou atrasado, foi bem curto e mesmo assim chegou antes do tempo, permitindo à RyanAir tocar sua trombetinha de sucesso mais uma vez. Foi mais rápido do que voltar da USP pra casa em São Paulo. O maluco sentado do nosso lado gastou tudo que economizou com o vôo barato comprando whisky, três cervejas, salgadinho e perfume durante o vôo. Tudo mais caro do que em terra, claro. Vai entender.

Saindo do aeroporto, logo achamos o busão indicado pela Marina[3], de número 171 com destino a Hermannplatz. Mas não tinha a parada que ela falou no itinerário. Perguntamos pro motorista, que não falava inglês, e ele deu a entender que teríamos que descer no final e pegar o M29. Pagamos, entramos e mesmo assim ficamos meio ressabiados olhando parada por parada pra ver se por acaso ele ou o itinerário não estavam errados. Na nossa frente, uma menina linda, com traços orientais, tão perdida como a gente, comia um lanche, pra nos deixar com água na boca. Foram umas 48 paradas e nada da “nossa”. No começo a cidade parecia deserta, mas é porque estávamos num bairro mais afastado. Conforme fomos chegando a coisa começou a mudar, sexta a noite, a cidade pulsava, lembrando bastante São Paulo nas regiões de balada. Tinha também um jogo do Hertha Berlim contra o Juventus anunciado, mas seria no dia seguinte no mesmo horário do jogo do St. Pauli em Hamburgo. Descemos no ponto final e o motorista fez questão de nos explicar onde pegar o M29.

Tomado o M29, andamos apenas três paradas até a nossa. Pra nossa surpresa, a menina desceu no mesmo ponto, então quem sabe não encontramos ela em algum lugar pelo bairro. Chegando na rua da casa da Marina, Reichenberger Strasse, nos perdemos com a porra da numeração, que é bizarra: começa em um lado da rua, sobe por esse lado de um em um até o final da rua, dá a volta pro outro lado e continua de um em um até voltar pro começo da rua do outro lado. Entendeu? Nem a gente, a princípio. Mas chegamos no número certo, no que parecia ser uma enorme ocupação punk anarquista, dois prédios enormes. A Marina nos viu da janela do apartamento dela e pediu pra Esther, roommate dela que tava chegando na mesma hora, abrir pra gente.

Entramos, subimos, demos um abração na Marina e fomos pro “nosso” quarto, que estava vazio até então. O prédio não é ocupado, já foi, agora é um projekt, ou seja, depois de tentar desocupar todas as ocupas da cidade e se deparar com geral indo pro último andar e quebrando os degraus da escada do térreo até o segundo andar pra polícia não ter como subir, o governo arranjou um jeito de contornar a situação: regularizou as ocupações cobrando um aluguel bem abaixo do padrão. Tem vários desses por Berlim, só restando hoje dois squats ocupados mesmo, sendo um deles o maior da Europa, o Köpi. O projekt da Má tem uma cozinha coletiva no 5o andar, onde você pode comer o que quiser (perguntamos sobre como repor o que comemos e todos foram enfáticos dizendo que não tem que repor nada, sempre tem visita e as “compras” já contam com isso). Essa cozinha acaba sendo um enorme ambiente coletivo, de encontro, sendo sempre possível achar alguém pra trocar idéia por lá. Comida pra caralho, três geladeiras (uma vegan, outra vegetariana e outra com carne), um computador, um “lounge”, e sempre cheia de gente. No porão, o projekt tem ainda um estacionamento pra bikes. No quarto da Má moram mais umas pessoas, entre elas duas crianças (imagina crescer num ambiente desses), mas não tem ninguém fora ela no momento. Todos os andares, portas e paredes são cobertos por flyers de eventos, adesivos de organizações e coletivos, pixos e, em alguns andares (assim como pela cidade), tem umas estantes/banquinhas free shop, ou seja, tu pega o que quiser e deixa o que quiser. Fácil ser punk na Europa ou nem?

No quarto da Má encontrei a MCarol (com M mesmo), velha amiga que tá aqui de rolê até segunda, e conhecemos a Júlia, outra brasileira que acho que mora aqui mas em outro quarto. Enquanto eu e o Allan entrávamos num site de carona pra conseguir um maluco que tinha uma passagem coletiva de trem –  algo como “fim de semana feliz”, 40 euros, direito a cinco pessoas pra pegar quantos trens quiser por 24h – com duas vagas sobrando a 8 euros cada pra ir pra Hamburgo no dia seguinte às 5h30 da manhã, a Má contava de uma adolescente que apareceu no projekt pedindo abrigo, fugida de casa, e que saiu na noite anterior e não voltou mais, sendo que a mãe dela esteve no projekt horas antes da gente chegar e a Má trocou uma idéia com ela.

Arranjo feito, saímos pra um show exatamente no Köpi, que conta não com uma, mas três salas de show, fora um cinema e três bares. A facilidade de ser punk na Europa ocasionou uma conversa sobre parasitismo, sobre como é fácil viver sem trampar quando o governo te dá tudo, e sobre como isso pode fechar a cabeça e fazer ignorar que tem um mundo de merda pra fora disso. Me fez lembrar que a Amanda e suas amigas na Suécia trabalham com home care pra pessoas idosas ou com dificuldades, e em como esse tipo de trampo humanitário, meio onguista, é muito presente por aqui. 

Andando enquanto tomávamos cerveja de 1 euro pelas ruas de Berlim, eu olhei pra uma placa de nome de rua e lembrei que sempre achei estranho a troca feita no alemão dos dois S (SS) por um beta (β), e a MCarol me explicou que é porque depois da II Guerra o SS ficou sendo meio que “proibido”, símbolo ruim, e aí se usa o beta agora. Ela também me contou que agora é comissária de bordo da Avianca, e eu achei isso bem louco, já quis trampar em avião. Enchi a paciência dela com perguntas a noite toda.

Chegamos no Köpi e entre outras bandas quem ia tocar era o Social Chaos, de São Paulo. Com isso encontramos mais uma pá de brasileiros (na esquina de casa a Má já tinha arrastado o Tiago, português benfiquista amigo dela) e falamos português a noite toda. O Köpi é um prédio gigante, parece um ex-hotel, muito escuro e com tudo que eu citei no parágrafo anterior. Tinha uma renca enorme de punks lá, de todos os estilos e vertentes, e alguns skins antifa também. Sentamos no chão pra conversar, Allan, Má, MCarol, Tiago, eu, Roberto e Sheila, esses dois últimos cariocas, o primeiro residente aqui, que eu já conhecia de antes, figurassa. Encontramos também o pessoal do Social Chaos e o Kaue, ex-batera deles, que agora toca no Dismembers, projeto que é só guitarra e bateria e que tocaria antes do Social Chaos no show.

Sentado descobri que perdi o show de uma banda que era o Driller Killer sem o vocal, e fiquei meio puto. Porra, Driller Killer, banda que conheci achando um botton no chão depois de um show há uns 12 anos atrás! Mas tudo bem, porque o show do Dismembers foi um arregaço, banda boa demais, mas pogo violento demais (quase deu briga). Um cabeludo de merda, depois de eu ser empurrado e sem querer bater com o ombro na cara dele, me empurrou de volta e me deu uma cabeçada na maçã do rosto, de leve, nem machucou. Não entendi nada e o amigo dele pediu desculpa por ele. Falando da banda, mistura de D-Beat com Stoner com crust, nossa, muito bom mesmo. O Social Chaos foi legal também, mas tava um calor desgraçado.

Saindo do Köpi depois das 4h, ficamos sabendo que no dia seguinte ia rolar Sub-Humans lá mesmo, e que na terça rola Anti-Flag em algum outro lugar. A MCarol ainda falou que em Roma ela vai pegar o show do Against Me! e eu amaldiçoei ela por fazer invejinha[4], hehehe. Voltei trocando idéia com o Tiago sobre futebol, e ele foi mais um que se espantou por sabermos “tanto” de futebol europeu. Parece que a galera por aqui não tem dimensão do quão imperialistas são no futebol, em como somos bombardeados por informações do futebol francês enquanto nem sequer sabemos os nomes dos times do Peru ou do Equador. A conversa foi legal, antes já tínhamos falado de humor português na roda com a galera e agora fiquei com vontade de conhecer Portugal.

Chegamos em casa e, sabendo que de noite teria a festa de aniversário da Má, começamos a nos arrumar pra ir pra Hamburgo com planos de voltar no mesmo dia. Tínhamos que encontrar o cara às 5h30 da manhã na estação, e já eram 4h50. Percebemos que não ia dar tempo e desistimos, a Má mandou SMS pro cara que ligou pra ela de volta e encheu o saco, começou a perguntar se a gente poderia ir mais tarde, como a gente faria pra ir, quais os nossos nomes, queria de toda forma que fôssemos com ele. Aproveitamos e olhamos a agenda do St. Pauli e decidimos tentar ir pro jogo de estréia da segundona fora de casa[5], contra um time de Aue, na Saxônia, cidade da antiga Alemanha Oriental. Promete. Dia 03 de agosto, espero que role mesmo.

Desistidos do rolê Hamburgo, subimos pra cozinha pra comer algo. Tem tanta coisa, marzipan, Nutella, a porra toda, que é difícil crer que podemos comer de graça aqui. Os olhos do Allan, que com 400 euros pra ficar 2 meses na Europa tá se fodendo um monte pra comer direito, brilhavam de felicidade. Falei pra ele que o título do texto de hoje seria “Allan vai ao paraíso” por conta disso, mas tenho que ser sincero, isso aqui é paraíso pra mim também. Já a Má curte muito Berlim, mas pelo que pude perceber por ela e por outros brasileiros e brasileiras, tem uma questão que desagrada, e eu cito algum/a deles/as que eu não lembro quem foi:

– Não é a toa que tem tanto grande pensador alemão, essa gente é devagaaaaar. Ninguém trepa por aqui, depois reclamam que o crescimento vegetativo tá negativo. 


[1] Não faço a mínima ideia nem de qual era o presente e nem de pra quem eu dei.

[2] Gentílico de quem nasce na Gâmbia.

[3] Amiga brasileira que iria nos hospedar em Berlim.

[4] Pra minha sorte, em 2018, pude ver o Against Me! em São Paulo.

[5] Sem spoiler, mas essa decisão nos renderia uma história inesquecível mais pra frente.

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