45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 10

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 10 – Preguiça, haxixe e futebol

“Caralho, esse busão tá lotado de Saldivas[1].”

Acordei – tarde – com essa frase genial do Allan na cabeça, logo depois de ter sonhado com uma saída de balada em que eu falava inglês com as pessoas. Aí tinha duas minas na minha frente, uma delas tentava falar com um cara e ele meio que saía correndo, eu chegava nas minas e falava:

– Assustou né, homem tem medo de mulher que fala, que é inteligente.

E aí a mina saía correndo e eu ficava conversando com a amiga dela, que no final era a Aline, uma mina que eu era apaixonadinho na 8ª série. De repente eu pegava ela, e ficava feliz pra caralho, falando pra ela que tinha realizado um sonho de infância. Acordei feliz com isso. Fica a nota de que ainda falo com a Aline, que morava do outro lado do Bicudão[2], e hoje tá casada e tem dois filhos. 

Depois que o resto das pessoas acordou também, Amanda e Ludwig foram comprar coisas pro café da manhã. Segundo Allan, antes eles deram uminha no banheiro. Nem ouvi. Nosso café da manhã sueco foi composto por ovos fritos, uma salada com abacate, tomate, pepino e rúcula, pão preto, queijo e uma pasta de iogurte com alho bem boa. Pra beber, suco de laranja e depois café. Comemos e depois disso Amanda ficou escutando música brasileira, Jorge Ben pra desespero do Allan. Ele arranjou uma saída muito boa pra isso pedindo pra Amanda nos mostrar música sueca, e eles mostraram algumas coisas, entre elas um clipe que ficou famoso de uma banda meio pop meio eletrônica que usa imagens de uma antiga missa na Suécia, parece um pouco com aquelas zoeiras tipo “Chaves dançando Slipknot”, mas muito bem feito. Coisa meio hipster que com certeza o Davi ia gostar. Depois rolou um maluco que fez uma música pro Bajen (apelido do Hammarby) legalzinha, copiei as duas coisas pro meu computador.

Resolvi então mostrar algumas coisas brasileiras pra eles, como Graforréia Xilarmônica, Busscops, Gentalha (minha primeira banda), Grind Day, TNT, Replicantes, coisas que eu tinha no notebook. Amanda falou com a mãe dela ao telefone e disse que ela passou a noite inteira procurando na internet pelas coisas que a gente tinha conversado, Maradona, guerras do futebol etc. Ludwig queria ir jogar bola, então vencemos um pouco a preguiça e fomos. 

Primeiro fomos pra um lugar que parecia um estacionamento, piso de pedrinhas, com vários gols espalhados, grandes, médios, pequenos. Meio bizarro jogar sobre pedras, mas Ludwig explicou que aquilo é um campo gramado, mas retiram a grama quando não está em época de usar e tal. Chutamos umas bolas pra um dos gols sem goleiro e Amanda ligou pra uma amiga da mãe dela que tinha um filho boleiro e descobriu outro lugar onde dava pra jogar que se pá teria mais gente. Fomos pra esse lugar e ele lembrava um pouco uma escola de filme americano, com um campo de futebol de grama sintética ABSOLUTAMENTE PERFEITO, placar eletrônico, arquibancadas, bancos, vestiários. Detalhe: no meio do bairro, sem uma cerca em volta sequer, completa e totalmente público e gratuito. Lá, dois caras da nossa idade chutavam bolas em um dos gols, uma criançada, com uma menina no meio, jogava lá do outro lado em outro gol menor (tinha uns seis gols, todos com rodinhas, que dá pra arrastar pra onde quiser), um pai chutava bolas no gol pra um filho de uns 7 anos com camisa do Chelsea e luvas de goleiro. Ludwig convidou os caras da nossa idade pra jogar mas ainda assim éramos apenas cinco, então eu dei a idéia de convidarmos as crianças. Elas toparam e arrastamos um gol menor pra um pouco depois do meio de campo, numa linha azul que era marcação de rugby, ficando com um campo que ia dali até a linha de fundo, próxima ao corner. De um lado o limite era a linha lateral, do outro não tinha limite.

Éramos cinco adultos contra nove crianças entre 12 e 15 anos, chuto eu. Logo de cara impressionaram duas coisas: o grau de miscigenação delas, tendo negros, árabes, um colombiano e loiros, e a disciplina com que jogavam. Eram bons de bola, tocavam de lado a lado, parecia que eles eram o Barcelona e a gente o Chelsea (desculpa, Toro[3]), só que eles não tinham força pra chutar no gol, então pareciam ainda mais o Barcelona. Entre os moleques, um, chamado Kevin, que me lembrou Dahlin[4], era o melhor, habilidoso, inteligente, mas infelizmente já firulento. Cobrava escanteios que fariam nós batedores do Auto chorar de vergonha. Um outro moleque gordinho de laranja jogava bem também, e um que parecia ser o mais velho e com camisa do Hammarby era duro no combate, provavelmente um bom zagueiro. A menina jogava bem, pedia bola, jogou de goleira, dividiu bola no alto comigo. E o colombiano era o mais marrento, ficava na banheira o tempo todo pedindo a bola, e quando ela vinha ele quase sempre errava (embora tenha acertado um voleio sensacional pra defesa do Allan).

Nosso time era mais alto e forte, embora a molecada desse trancos como gente grande, mas com quatro a menos demorou um pouco pra conseguirmos criar algo. No gol, revezávamos aleatoriamente, sem regra. Allan abriu o placar pra gente e eles empataram. Depois disso metemos vários gols, eles outros, mas Ludwig, em nome da condescendência com as crianças aproximava o placar, dizia que tava empatado etc. Quando o placar dele apontava 5 a 4 pra nós, a criançada decidiu que ia a dez (já jogávamos sem parar, correndo pra caralho, há uns 35 minutos). Só que aí eles meio que desencanaram de jogar sério, começaram a fazer barulho de peido quando alguém do nosso time ia chutar a bola e caíram na risada. Allan meteu 3 gols no total, eu fiz um. Num determinado momento, Allan foi sair jogando e o colombiano chutou ele sem bola (sem muita força), ao que Allan virou e mandou ele ir se foder. Ficou um clima pesado por uns segundos. Depois Allan explicou que era o terceiro chute sem bola que o moleque tinha dado nele e que ele já tinha pedido pra parar.

Depois de 5 minutos de jogo, quando o placar do Ludwig apontava 9 a 6 e Dahlin e o gordinho de laranja já tinham abandonado o campo, chegaram umas meninas e os moleques, segundo a Amanda, disseram algo do tipo “chega de jogar, chegaram meninas, vamos lá”, hahaha. Ainda ficamos no campo um tempo, aproveitei pra bater faltas mesmo sem barreira ou goleiro, Ludwig e os outros caras brincavam de acertar o travessão. Aí fomos embora com a nossa bola (MUITO boa mesmo), dando tempo ainda de Ludwig bater pênalti contra três goleiros ao mesmo tempo da criançada. Um deles defendeu e saiu agradecendo a Allah (não confundir com Allan), hehehe.

Voltamos pra casa de Amanda e fomos ao mercado comprar coisas pro almoço. Parte da molecada, a menina (Andria pelo que entendi) entre eles com sua irmã gêmea agora, estavam tipo em cima de uma laje olhando pra quem passava. Chegaram outras duas meninas da idade deles e o colombiano marrento desceu pra xavecá-las. Ao lado deles, três caras carecas com pinta de hooligan encararam um pouco a gente, mas nem rolou nada. Nem sei se eram nazi ou algo do tipo. Na lojinha imediatamente ao lado da casa de Amanda, descobrimos que a Coca-Cola era mais barata que em todos os lugares, assim como um pacote enorme de batatas fritas muito boas que no Brasil custariam o dobro. Bizarros os preços suecos[5].

Subimos e nosso almoço sueco foi arroz, salada de pepino, molho de iogurte e queijo tipo coalho frito, além de suco de laranja e vinho. Gostoso. Depois do almoço descobri que além da Parada Gay de Estocolmo, que está anunciada em todos os lugares o tempo todo, também vamos perder o show da Björk, pro qual Amanda tem ingresso de graça. Merda. Mas não tem jeito, essas viagens de 3 dias em cada lugar acabam sendo assim mesmo. Meio bodeados, tiramos um cochilo, e Allan aproveitou pra fumar um haxixe sozinho, já que ninguém mais quis. Pra isso procurou em todos os cantos da casa um papel passível de ser feito de seda. Não achou e, mão de vaca que é, tirou o tabaco fora de um cigarro normal e bolou com o papel desse cigarro mesmo. 

Acordamos pra ir ao centro encontrar uma amiga de Amanda que ela não via fazia tempo, Julia. Antes de sair, Ludwig e Amanda quiseram comprar camisas do Auto, mas eles já tinham pago tanta coisa pra gente que eu dei as camisas pra eles. Saindo do prédio, vi um cara saindo do metrô de camisa do Corinthians e gritei VAI CORINTHIANS, ao que ele olhou e nos cumprimentamos acenando de longe. Timão everywhere, amigos. Entramos no metrô e no caminho do centro vi num jornal que a Suécia tinha ganho de 4 a 1 de alguém nas Olimpíadas no feminino e Ludwig me contou que jogando pelo Sirius, quando tinha 14 anos, tinha enfrentado o time profissional sueco feminino. Em dois tempos de 25 minutos, ganharam delas de 13 a 1. Ele disse que futebol masculino e feminino são praticamente esportes distintos, e eu discordei dizendo que a cada ano a diferença diminui mais, não só no futebol quanto nos outros esportes, e isso é fato comprovado. Além disso, se eu, com 1,76 e 52kg, posso jogar entre homens muito maiores, qual o impedimento (que não cultural ou social) de uma mulher fazê-lo, sendo que a maiora das meninas que conheci na Suécia eram mais altas e/ou mais pesadas que eu?

Esse papo do Sirius sub-15 x seleção feminina profissional me lembrou do Oleg contando que o FC Vova jogou a Copa da Lituânia, então ao menos teoricamente poderiam ter jogado a Champions League, vencido o Chelsea e se classificado pra pegar o Corinthians no mundial de clubes (palavras dele), hahaha. A diferença entre amador e profissional e a abertura pro futebol amador aqui na Europa são abissalmente diferentes do Brasil. País do futebol? Só se for do futebol para alguns e não para todos, cada vez para menos. No metrô passamos pela obra do estádio novo do Hammarby, que vai custar 300 milhões de Euros e sobre o qual Amanda era bem crítica, pra quê mais um estádio na cidade? Algumas coisas são iguais em todo lugar, principalmente no que diz respeito ao capitalismo se apropriando do espaço pra se reproduzir.

Chegamos no centro e na altura de uma loja que vendia rochas de valor/interesse geológico encontramos Julia. Conforme tinha nos dito Amanda, ela era linda, e bem gente boa. Sentamos numa praça com vista pro outro lado da cidade e ficamos ali bebendo vinho e comendo batata chips trazidas pela Tové. Apareceu também outra Julia, também linda, de cabelo curtinho, dyke, ligada ao rolê punk/queer/anarquista. Allan trocou idéia com ela mais do que eu. Como saímos de bermuda (eu) e sem agasalho, e lá ventava, começamos a passar frio. Ludwig, que estava com todas as roupas numa sacola plástica porque ia voltar pra Uppsala, nos emprestou calça e agasalhos. Disse pra deixarmos na Amanda depois. Gente fina demais nosso Ibrahimovic loiro. Daqui um ano deve ir pro Chile, já falamos pra passar pelo Brasil e fazer pré-temporada no Auto.

Ludwig se foi, saímos do parque e as Julias também se foram, uma a pé e outra de skate. Ficamos os quatro, Amanda, Tové, Allan e eu. Fomos para um pub e elas nos pagaram mais uma cerveja no rolê. Ficamos ali assistindo o segundo tempo de Grã-Bretanha x Senegal masculino nas olimpíadas (bizarro Giggs e Bellamy com um monte de moleque no time bretão) e conversando sobre amor livre, relacionamentos abertos e coisas afins. No final Senegal empatou com um belo passe nas costas da zaga (pra vencer um time com zaga em linha, precisa duas coisas: um meia com visão de jogo e um atacante rápido), pra celebração nossa e de um africano que estava no pub e segundo o Allan parecia o Bongô do Castelo Rá-Tim-Bum, e Tové foi embora. Nós três corremos pra comprar uma seda e pegar o metrô a tempo, já que aqui dá pra saber a hora exata em que vai passar. Nunca falha – pelo menos não falhou conosco.

Voltamos com Allan e eu conversando sobre como nossa cabeça acerca de hospedar pessoas, via CouchSurfing ou não, muda bastante depois de sermos nós os hóspedes. Muito louca essa troca, como somos jovens e o mundo globalizado ainda podemos nos ver várias vezes por aí. As meninas nos hospedaram muito melhor do que a gente a elas quando estiveram no Brasil. Isso foi bom pra ver que é foda criticar a sisudez da cidade de São Paulo mas não fazer muito pra quebrar com isso quando vem gente de fora. Chegamos em casa e jantamos macarrão com molho pesto, bebendo o resto do refrigerante de nome TROCADERO que tínhamos comprado uns dias antes. Genial esse refri, meio que uma tubaína de maçã, escrito “troca troca” várias vezes no rótulo e com um guarda-chuvinha de frevo como logo. Guardei o rótulo. Cansados do dia preguiçoso, ainda deu tempo de Allan bolar um cigarro de haxixe pra dividirmos, sendo essa a primeira vez que fumei haxixe[6]. Tinha um pouco de tabaco também, o que me fez dar só dois pegas porque odeio tabaco. Suficiente pra dar uma brisa bem de leve que durou pouco mas ajudou a dormir tranquilo, depois de Amanda e Allan capotarem. Tinham fumado bem mais do que eu.  


[1] Amigo de São Paulo que, no Brasil, passaria como sueco.

[2] CDM Bento Bicudo, onde há dois campos de várzea e onde o Autônomos FC jogava na época.

[3] Nosso amigo de São Paulo, juventino, inimigo número um do futebol moderno.

[4] Jogador da Suécia nos anos 1990.

[5] Hoje eu entendo que é tudo uma questão de políticas de impostos e preços, que variam de país pra país.

[6] Na vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s