Paisagem

“Cheira pólvora, chão de mármore
Vê que agora, há quantas árvores?”

D. G., 16 anos, olhou pra cima e viu as copas. Não aquelas que ele sonhou ganhar com a camisa amarela do Brasil. Outras copas, verdes, que de noite não pareciam mais tão verdes. As folhas, de repente, se tornaram pés, e o horizonte desapareceu.

“Condecora nossos raptores
Nos arredores tudo já pertence aos roedores”

B. G., 22 anos, não sabia se corria ou ficava. Quem entrava favela adentro eram os mesmos que já tinham levado vários outros dali, raptados, presos, torturados. O som da sirene e as cores da viatura inspiravam receio e medo. Ouviu alguém dizer que o baile estava cercado. No desespero, correu. Pela última vez.

“É hora que o vermelho colore o folclore
É louco como adianta pouco, mas ore
Com sorte, talvez piore
Não se iluda, pois nada muda
Então só contemple as flores”

E., 21 anos, mais um que a estrela não brilha, era um entre tantos Silva daquela quebrada. Antes do baile, viu o povo sair do culto de sábado, bíblia na mão. Amigos, irmãos, parentes. Horas depois, bateu na porta da igreja procurando abrigo; mas já não havia mais ninguém lá dentro.

“Com o peso dos dias nas costas brindamos com fel
Num silêncio que permite ouvir as nuvem raspar o céu”

M., 23 anos, trabalhou pesado a semana inteira. A noite de sábado era o momento do descanso, da descontração e da alegria. Brindou com os parceiros um dia a menos, ou um dia a mais, sei lá, tanto faz, o importante é que tamo aqui. O barulho das balas de borracha e sua trajetória curva pareceram quase tocar as nuvens enquanto o silêncio tomava conta do corpo e da alma, fundidas no asfalto sobre o qual sucumbiu.

“Em algum lugar entre a rua e a minha alma
Estampido e a libido trepa entre gritos de calma”

L. V., 18 anos, foi uma das que gritou calma quando ouviu as bombas. Apesar da pouca idade, já estava cansada de vivenciar a mesma cena, sentir o mesmo gosto de veneno, lacrimejar a mesma raiva do Estado. Correu para onde pareceu seguro, a rua de casa, sem saber que naquela noite ela era uma rua sem saída.

“Porque nada é sólido, nada
Beijos cálidos, fadas
Tudo insólito, cara
Sente o hálito, afaga
Rosto pálido, foda”

G., 14 anos, saiu de casa para comprar refrigerante. O baile rolava, como sempre rolou, e isso nunca tinha sido um problema pra ele. Olhava pros manos e pras minas e sonhava com o primeiro beijo, que era pra parar de ser zoado pela molecada. Saiu da venda e correu na direção que todo mundo corria, sem nem saber porquê. O único beijo a que teve direito foi o do asfalto, quente como a noite, frio como a alma de quem entra pra uma instituição cuja missão é matar pobre na quebrada.

“Eu quero um bálsamo para
Esse tempo sádico, cara
Puta sonho inválido, acorda”

G. R., 20 anos, quase não foi pro baile aquele dia. Sentia dor, uma dor que só quem já perdeu alguém muito próximo sente. Era mais um da quebrada, mas naqueles dias sentia como se fosse menos um. Tinha acabado de desistir do sonho de ser MC, que isso é coisa de série da Netflix, parceiro. “Acorda”, ouviu alguém dizer bem perto do seu ouvido. E depois disso não ouviu mais nada.

“O passeio da vertigem
Ver que os monstros que surgem têm origem
Na fuligem do vale”

D. H., 16 anos, não acreditou quando disseram que a PM tinha invadido. Achou que era papo dos mais velhos pra meter medo na molecada. Só correu quando, junto dos estouros que ele finalmente percebeu não serem de escapamento, viu surgir da nuvem branca tóxica a mesma farda que sempre que entra na quebrada é pra fazer merda. O cheiro do gás lacrimogêneo só sumiu das narinas quando perdeu a consciência.

“E acende a brasa, esfregue as mãos
Desabotoa um botão da camisa
Sinta-se em casa, imagine o verão
Ignore a radiação da brisa”

M. P., 16 anos, ficou preocupado quando ouviu aquele barulho ao longe. Discutiu com os parceiros que era melhor ir embora, mas ninguém tava a fim de cortar a brisa por conta de um barulhinho. Foi ele quem viu primeiro a nuvem de fumaça no meio do baile; foi ele quem suspirou por último, depois de ver todos os seus parceiros sumirem.

“Dizem os jornais: Calma, rapaz
Espere e verás, tudo está em paz”

Nove pessoas morrem pisoteadas em tumulto após ação da Polícia Militar durante baile funk em Paraisópolis, em SP; PMs citam “uso moderado da força” em Paraisópolis; Paraisópolis: Doria nega culpa da PM; policiais serão “preservados”.

“Sintoniza o estéreo com seu velho jazz
Pra um pesadelo estéril até durou demais
Reconheça sério que o mal foi sagaz
Como um bom cemitério tudo está em paz”

(Crônica baseada em fatos reais. O título e os trechos entre aspas são da música “Paisagem”, do rapper Emicida)

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