Formatura

Para existir uma borda, também tem que haver um centro. Quando esse centro força os limites da borda, procurando ganhar terreno, algumas coisas podem acontecer: ou a borda se rompe, ou se afasta para ainda mais longe do centro, ou deixa de existir, atropelada pelo processo de expansão. Eu poderia estar falando de geometria, química, física, arte, história ou do crescimento urbano de uma cidade, conteúdo típico de geografia. E de certa forma estou falando de tudo isso.

Ser professor em uma escola da borda é vivenciar todos esses processos ao mesmo tempo. Aqui, a borda é da cidade, da sociedade, da política, da economia. É a borda da cultura também.

Quem vive na borda vive sempre no limite, sem os privilégios e as facilidades de quem nasce, cresce e domina o centro. Para quem está no centro, a borda é só uma referência distante, uma linha no horizonte, um conceito que se descreve, sobre o qual se discursa, mas que não se sente. Não se vive. O centro não quer contato com a borda, a não ser que seja para legitimar e continuar sustentando a posição de centro. O nome disso é colonização.

O que devo ensinar, então, sendo professor na borda? Tendo crescido na borda, mudado para o centro, e vivendo hoje no centro?

Toda vez que entro em uma sala de aula, eu me vejo e também não me enxergo. Explico: eu fui morador da borda, mas não estudei nela; pelo menos não geograficamente. Eu estudei em escolas, privadas e públicas, do centro, mas não morava nele; pelo menos não na maior parte da minha escolarização. Esse atravessamento sempre me trouxe um sentimento de estar fora do lugar, nem lá nem cá, nem um nem outro. Eu vivia entre.

“Entre” foi uma palavra que eu ouvi pouco na escola. O verbo entrar denota um convite, um aceno para que você esteja junto no mesmo lugar de quem convida. Não me lembro de quase nenhum professor me dizer entre. Não me lembro de quase nenhum espaço da escola me dizer entre. Pelo contrário: normalmente, os sinais diziam sempre não entre. A proibição, a exclusão, as grades da escola ecoam desde cedo o maior medo do centro: que as pessoas da borda entrem.

Mas a borda, ainda que escolarizada para se comportar como borda, para ficar longe do centro, sempre desconfiou. Que alguma coisa não estava bem. Que era ela quem carregava o piano, mas nunca tinha sido convidada para ouvir um grande artista tocar. Que era ela quem costurava as roupas de marca, mas nunca tinha sido paga o suficiente para poder tê-las. Que era ela quem limpava os banheiros, as casas, as cozinhas, os ateliês e as varandas gourmet do centro, mas nunca havia sido tolerada em qualquer daqueles espaços fora da condição de servente.

Quando entro em uma sala de aula, então, enquanto professor de Geografia, eu me vejo e também não me enxergo. Porque o mundo mudou, ainda que o centro continue forçando a borda para trás das grades. Ainda há a adoração aos símbolos do centro, claro, que cultura não muda da noite para o dia, nem de um século para o outro. Mas há muitas e muitas práticas da borda conflitando e substituindo as do centro. Há perguntas, questionamentos e posturas. Há ocupações de quem se cansou por não ser convidado a entrar. Há construção de outras histórias para falar da borda, desde a borda e não mais do centro.

“Estamos sendo invadidos”, gritam hoje os que vivem no centro.

Eles estão certos.

A borda cansou de trabalhar e não ter. Ela quer tudo. E, para desespero do centro, ela quer tudo do seu jeito. A borda quer ser, e não só sonhar.

Nesses anos todos como professor na borda, eu não tenho nenhum orgulho por ter formado alguém. Nunca tive essa aspiração, porque nunca vi o ser professor como uma ação de moldar, enquadrar e formatar o comportamento de alguém. Sempre fui, ou tentei ser, junto. Nem acima, nem abaixo; entre.

Exatamente por conta disso, meu coração vem parar na garganta sempre que vejo as salas de aula em que pisei se despedirem de mim.

No final de todo ano letivo, ao ver a turma chorar por terminar um ciclo e, com isso, se despedir da escola, com todas as suas grades e proibições, eu sinto saudades. Porque cada lágrima que vejo cair é parte de um mundo todo que me convidou a entrar. E nunca me pediu para sair.

Por isso, a cada um de vocês, eu agradeço. E grito para o centro todo ouvir: o mundo é de vocês. Sempre foi. Sempre será. E não precisa de convite nenhum para entrar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s