45 dias de norte: dois punks brasileiros sem dinheiro pela Europa – dia 42

Em 2012, fiz uma viagem sem muito dinheiro junto com um amigo pela Europa, abusando de hospedagem solidária, comida barata, comida grátis, comida do lixo e de vez em quando comida boa.

Na época, escrevi um diário, agora publicado dia por dia neste blog.

Dia 42 – Da sensação de estar em casa

Auto e Vova em Bristol, pós Copa.

O ônibus pra Bristol partiria 11h e a gente tinha que arrumar as malas e desmontar toda a barraca. Paulo Júnior foi quem teve forças primeiro pra levantar e começar. Quando 10h45, ainda estávamos começando a desmontar a estrutura toda. Mais fácil do que montar, terminanos 11h em ponto, hora em que Clasher finalmente acordou. Wilf já estava puto e acelerou ele um monte pra sair da barraca, guardar tudo, etc. No final, o ônibus saiu cerca de 11h30 e ainda parou pra pegar os lituanos.

Acordamos com chuva, muita chuva no camping. No meu caso, chuva e dor no tornozelo esquerdo, dos nove jogos e meio em três dias (contabilizando cerca de 360 minutos, ou 6 horas, de futebol jogado). Não me lembro como, mas antes de dormir roubei o colchonete que o Piva tinha arranjado. Ainda deixei a barraca dele aberta, hahaha. Ele ficou me chamando de vingativo de zoeira o dia inteiro, mas eu não lembro mesmo como fiz isso. A tequila tem poderes. 

A viagem pra Bristol foi cheia de sono, todo mundo exausto dos dias de futebol e noites de descontrole. Foram quatro, imagina se um dia resolvem fazer uma semana de Copa? Único saldo negativo: perdemos nossa bola, aquela encontrada na linha do trem em Estocolmo. Em todos os dias ela desapareceu e reapareceu. No último, sumiu de vez. Chegando em Bristol, o ônibus nos deixou bem perto do Colston Hall, em frente a uma loja de conveniência. Cheios de fome, muitos entraram pra comprar alguma coisa. Ainda cantamos músicas do Vova do lado de fora. O atendente da lojinha perguntou “what is this?”, e explicamos que somos um time de futebol que acaba de voltar de um torneio. Um time só. Tamo junto. Pedimos a ele pra tirar uma foto da gente[1]. Aparece um homem de rua loucaço tocando gaita e claro que se entrosa rápido com os lituanos. E a coisa toda, de uma certa forma, acaba ali: cada um vai pro seu destino, Paulo Júnior dá adeus, lituanos idem. Rumamos Clasher, Piva, Allan, Mari, Wilf, Natália e eu pra casa do Wilf.

Na frente do ponto de ônibus pra casa dele, o Bristol Advice Point, espécie de centro de ajuda pra desempregados, homeless e depressivos em geral. Lembro da minha mãe. Assistente social é trabalho de quem aguenta sofrer. Lembro da Carol também. Duas malucas. Admiro muito elas. No bus pra casa do Wilf, passamos perto do Cabot Circus, o shopping enorme que ficava perto do The Factory, squat onde o Auto todo se hospedou da última vez. Na vitrine de uma loja, leio: great british style. Nome do modelo que apresenta? Amir Khan. Great british style, mais arábe impossível.

Chegando na casa do Wilf conhecemos João, seu roommate português. Gente boa pra cacete. Ultra maconheiro. Torcedor do Porto. Comemos pão e cada um cai num canto, alguns cochilando, outros olhando a internet. Chalky chega e ele e Natália se vão. Piva e Allan vão dar uma volta. Wilf e Marina somem. Clasher vai tomar banho. Combinamos de nos encontrar mais tarde no The Plough, que fica a 5 minutos dali. Tenho pouquíssimas forças, mal-humorado, esgotado totalmente, física e mentalmente. Foram quatro dias de vida, e agora… agora teria que esperar mais um ano. Ou 6 meses, já que temos a Copa America Alternativa em fevereiro. Espero que algum time europeu vá. Alguns cowboys já deram certeza. Tomara.

A casa do Wilf tem dardo e pebolim na sala, me divirto um pouco com cada. Chegam Ana Rita, companheira do João, e Manuel, 5 anos, filho deles. Voltam da viagem de férias em Portugal. Manuel se deslumbra ao me ver, “um jogador do Autônomos de verdade”. Até então ele só conhecia o Autônomos do Fifa 12 de XBox que o Wilf criou, hehe. Converso com ele um pouco. Já é hora do The Plough. Chamo Clasher e, ao sairmos, encontramos Piva e Allan voltando exatamente de lá. Fazem meia volta e nos acompanham de novo pra lá.

Chegar no The Plough é algo indescritível. Muitas memórias, demais mesmo. Aos poucos as pessoas vão aparecendo, Wilf, Natália, Punky, Sid, Chalky, Mariana, Jack Daniells, Phil, Zoey, Harry, Lally, Jesse, Wayne, Kev. Os Cowboys e as Cowgirls se encontram ali sem marcar, é ponto já sabido, ainda mais agora que o pub foi comprado pelo Angelo. Na parede, vejo um grafite que não havia antes, bem bonito: Viva Autônomos FC. Mostra o quanto eles gostam da gente. Dá uma vontadezinha de chorar, de abraçar todo mundo, de ficar ali pra sempre. Tiramos o baralho dos ditadores do bolso e jogamos, os brasileiros e o Wilf. Falamos de histórias nossas, dos Cowboys, nossas com os Cowboys, Wayne e Punky nos bares da Lapa. Kev e Jesse combinam de ir ver o FC Vova jogar na Lituânia. Ganharam o respeito dos Cowboys. Merecidamente. FC Vova é puro sentimento. Vou ao banheiro e enquanto mijo escuto vozes do lado de fora, vozes em inglês que eu consigo reconhecer, me sinto em casa. Estou em casa, de certa forma.

Wilf precisa levar Mariana ao Megabus, de lá ela vai pra Londres e de Londres volta pra Alemanha. Mini, que estava no The Plough, aproveita pra ir junto pegar suas coisas que deixou no Wilf. Piva, Allan e eu, destruídos, cansados, com sono, acompanhamos eles. No caminho, por conta do calor, caracóis pelo chão. Não lembrava deles em 2010. Piva pisa em um sem querer e o barulho é estranho, dá uma certa agonia. Chegamos no Wilf, Mariana e ele se vão, Mini também. Subo pro andar de cima e capoto no cantinho do colchão de casal do Clasher. O gordito é, mas nem tanto. Sobra espaço pro magrelo aqui.

As poucas forças que restam servem pra encaixar no vão do colchão e colocar as energias pra recarregar. Futebol, FC Vova, Bristol, é tudo coisa demais pra tempo de menos. Da próxima vez fico aqui por um mês. Um ano. Uma vida.


[1] Foto de abertura do post.

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