O professor e as covas

Sou professor há quase 20 anos. Num agora longínquo 2002, recém ingresso na faculdade, eu nem sonhava em exercer essa profissão. Queria escrever, como sigo querendo. Mas um convite de um amigo pra assumir suas aulas de inglês em um supletivo, três meses apenas, me pareceu uma boa experiência. Eu não tinha nenhuma formação em inglês, ou em pedagogia. Eu só tinha vontade, e uma herança de família e do movimento punk de “fazer você mesmo”. Aconteceu, e não foi ruim.

Voltei a assumir uma sala de aula alguns anos depois, em 2006, e de lá pra cá são 15 anos como educador de forma ininterrupta, a maior parte deles em cursinhos populares. Em um deles, estou há 12 anos, dez como professor, dois como coordenador pedagógico. Foi nos cursinhos, e nos espaços de educação popular, que eu me formei de fato – mesmo com a licenciatura e o bacharelado terminados em 2009. Aprendi tanta coisa nesses anos que não caberiam neste texto, quiçá em um livro. Aprendi, principalmente, que estar em sala de aula vai bem além de ministrar conteúdo. Ser professor nunca é apenas sobre ser professor.

Essa percepção se ampliou muitas vezes quando comecei a lecionar na educação pública municipal, ensino básico, há quase 4 anos. Passamos a vida, dentro e fora da faculdade, escutando sobre os problemas da escola pública, sua precariedade, suas deficiências. Mas nenhum debate, texto ou livro chega perto de explicar o que de fato é estar em uma escola pública na quebrada. Preparar aula foi a menor das minhas preocupações desde que entrei; entender os limites da minha atuação profissional e pessoal se tornou quase que a linha mestra do meu caminho. A escola pública é um furacão de afetos, positivos e negativos, indissociáveis da questão sócio-espacial que a envolve: famílias numerosas, em imensa maioria encabeçadas por mulheres, pais ausentes ou mortos, todos os tipos de situação de humilhação e abuso. Sabemos disso, ouvimos isso, lemos sobre isso, mas viver isso leva a relação de um professor com a escola para outro lugar.

Não é sobre isso, entretanto, que eu quero escrever aqui. Não sou alheio à pobreza, aos constragimentos ou à morte. Cresci em um bairro de periferia, minha mãe com dois empregos, o pai com mais um. Perdi pai, as duas avós e alguns amigos, cada um em um momento, todos eles completamente avassaladores. Carrego tudo isso comigo por onde vou, incluindo aí a escola, e é nela que muitos dos sentidos relacionados à perda, à impotência e à superação ganham outros significados. A morte de pessoas próximas é uma ferida aberta para sempre, mas aos poucos aprendemos a preenchê-la; a morte de uma aluna, que nem chegou a ser minha aluna, abre um outro tipo de buraco. Perdi uma assim em 2018, vítima da meningite, doença da qual, mesmo vindo de uma família trabalhadora, eu nunca corri risco de morrer durante a infância; perdi outro aluno, em 2020, para uma infecção no pé. Você que está lendo não sabe, mas entre o último ponto final e esta sentença eu demorei alguns minutos pra conseguir encontrar alguma coisa que faça sentido escrever. Essas duas mortes me transformaram completamente, e me trouxeram uma certeza infeliz e incontornável: não terão sido os únicos. Morte e escola pública andam de mãos dadas na periferia, porque é na periferia que a barbárie cotidiana se naturaliza com mais profundidade.

Escrevi todo esse preâmbulo pra chegar ao momento atual, em que discutimos o retorno às aulas presenciais depois de quase um ano de pandemia no Brasil e mais de 238 mil mortes – até a data deste texto. Mas este também não é um texto sobre o absurdo de se cogitar o retorno neste momento de maior número de mortes diárias. Sobre isso há muitos relatos, notícias, vídeos, manifestos, e basta um mínimo de bom senso e vontade pra perceber que é inconcebível o retorno. O que me levou a escrever tudo isso foi o que aconteceu comigo na última semana, na escola para a qual me removi em busca de um mínimo de estrutura, que eu nunca consegui encontrar naquela em que estive durante os três primeiros anos na rede pública. Foram cinco dias muito intensos, os últimos antes do retorno presencial, marcado para amanhã – e adiado em muitas escolas pelo óbvio: não há estrutura. Cinco dias em que uma ficha do tamanho de um cometa caiu por aqui.

Desde que a data de retorno foi anunciada, a ansiedade se tornou companheira da minha companheira, também professora na rede municipal, da minha mãe e até da minha terapeuta. Todas me perguntaram, inúmeras vezes, se eu não estava preocupado ou com medo, já que não parecia. Não estava mesmo. De alguma forma, existia dentro de mim uma certeza de que não aconteceria, de que não seria possível banalizar a morte ainda mais. Não parecia real. Passei a semana anterior seguindo o protocolo, não o do vírus, mas o da burocracia: planejamento, formação, troca de ideias sobre aprendizagem. Tudo quase desprovido de sentido, já que voltar não fazia sentido algum. Na última segunda-feira, essa ausência de sentido finalmente se materializou em algo concreto, com os sindicatos de profissionais da educação de São Paulo decretando greve.

Fiz greve na escola anterior, por salário, contra o aumento do desconto previdenciário, e até mesmo pelo direito de repor os dias de greve, um dos momentos mais lacônicos de todas essas movimentações. Nunca parei sozinho, mas estava em uma escola que dificilmente parava completamente – no máximo, em dias específicos. E onde os momentos coletivos de construção da greve praticamente não existiam – a gestão não barrava, mas também não se comprometia, cumpria do alto do muro a plenitude do sentido da palavra “burocrata”. Como seria nesta nova escola? Mais uma gestão burocrática, preocupada em cumprir as ordens vindas de cima? Ou, em uma estrutura hierarquizada, haveria compromisso desde cima com a vida dos subordinados, dos alunos, da comunidade escolar? Fico triste em afirmar isto: nesta escola, ao contrário da anterior, houve espaço. Para que o coletivo de professores se reunisse, três vezes na semana, para discutir sua adesão à greve. Para que pensasse nas reivindcações, em como falar com a comunidade, no que dizer às mães e pais. Por que a tristeza? Porque essa deveria ser a regra, não a exceção.

Escrevemos coletivamente uma carta, e me coube a responsabilidade de produzir uma apresentação com dados e fatos do que estava acontecendo na cidade e nas escolas que já reabriram. Tudo sem interferência ou pressão da gestão, que desde o início se colocou do nosso lado. Na última sexta, dia da reunião com a comunidade, passei a manhã preparando os slides, procurando algo que há meses eu vinha evitando: a realidade. Porque era sobre ela que precisávamos falar, e não sobre conjecturas formais ou protocolos. Não existe protocolo na barbárie. Não existe protocolo para a morte.

Conforme o dia avançava, a ansiedade finalmente me deu as mãos, e me tirou para dançar. Tudo que havíamos discutido, escrito, preparado, não faria sentido se a comunicação com a comunidade não funcionasse. Se a mídia vencesse outra vez, no seu eterno discurso de que não queremos trabalhar. Como se o ano passado inteiro em frente a uma tela, agonizando porque a maioria da turma não conseguia acesso, porque aquele ensino remoto emergencial precário era só um fantoche, preenchendo tabelas e formulários que serviram para nada, não tivesse existido. Um ano de trabalho dobrado, triplicado, e na maior parte do tempo sem sentido. Nos meus quase 20 anos de educação, a maior lição que aprendi foi a de que só se educa quando existe sentido, para os dois lados. Da mesma forma, aquela semana inteira de preocupação só faria sentido se fosse para além equipe da escola e alcançasse a comunidade.

Chegou a noite. Foram duas reuniões de quase duas horas cada. A prefeitura e suas parceiras tecnológicas, como era de se esperar, nos traíram: reduziram o número de pessoas possível nas reuniões virtuais, de 250 para 100. E aí já se criou um atrito: muitas mães e pais não conseguiram participar. A solução encontrada pela gestão passou pelo compromisso: remarcar reuniões menores na semana que vem para quem não pode entrar. E o compromisso não parou por aí, seguiu por todo o tempo de fala da direção, que explicou clara e objetivamente para os pais tudo o que discutimos na semana, toda a falta de estrutura, e a nossa recusa em assumir o duplo papel de coveiros, da educação e daqueles corpos que queremos ver formados e de cabeça erguida, para enfrentar um mundo que desde sempre lhes fecha portas. Os slides não foram sequer necessários.

Enquanto a diretora descrevia todo o processo que vivemos desde o começo do mês, passando pela quase ausência de equipe de limpeza, pela absurda planilha de mortes proposta em uma das normativas vindas de cima e por todas as negativas do poder público em negociar o mais básico direito à vida, a preocupação que me foi cobrada no último mês explodiu, e eu chorei. De alívio, por me sentir parte de um grupo, representado por aquela fala. E de desespero, ao ouvir uma mãe dizer que nos apoia e falar sobre o medo de perder a filha, momento em que aquela aluna de 2018, que nem chegou a ser minha aluna, voltou com tudo.

Em 2018, eu não fui ao enterro. Não tive forças. Hoje, eu também não vou.

Porque estamos em greve, provavelmente a greve mais dolorida de todas as que vi ou vivi.

Porque eu não quero enterrar mais ninguém. Nem por covid, nem por meningite, nem por infecção.

Chega de covas.

São Paulo, 14 de fevereiro de 2021.

(Dedicado à Yasmin, ao Kaíque e a todas as mães e pais obrigadas a enterrar seus filhos simplesmente por viverem na periferia.)

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